Quando chegou na manhã do dia 18 de junho no gramado do Eixo Monumental, em BrasÃlia, nas imediações da sede da Funarte, a economista goiana, Tatiane Nasser, 32, cumpria a última etapa do ritual para a entrada no grupo feminino de percussão Batala (pronuncia-se Batala). Era a quarta vez que participava do ensaio, e acredite, assistir três ensaios é o mais trabalhoso dos pré-requisitos que habilitam Tatiane e qualquer outra mulher interessada a pegar um instrumento e ser recebida como nova participante do coletivo. O primeiro é ser maior de 18 anos e o segundo é “quererâ€, simplesmente ter vontade.
São 10h da manhã e o sol apressado do Planalto Central já trabalha intensamente em conjunto com três grandes árvores do cerrado. Elas projetam a sombra onde reúnem-se engenheiras, esteticistas, jornalistas, estudantes, advogadas e tantas outras mulheres que compõem as cerca de 140 integrantes que, uma vez na semana, cumprem a farra sonora do ensaio. “Por aqui já passou e passa de tudo, temos grande diversidade social, cultural, de idade e isso é muito bomâ€, explica a psicóloga Nayara Batista, que está no grupo há seis anos e atua tanto tocando instrumentos quanto na assessoria de imprensa do Batala. Ela também é a regente do ensaio que está para começar e foi quem recebeu a novata Tatiane, que assina orgulhosa, um termo de compromisso como a mais nova integrante.
A fronteira da diversidade não é a única que o Batala rompe. Além do Brasil, o grupo está presente na França, Bélgica, Inglaterra, PaÃs de Gales, Espanha, Portugal e Estados Unidos. O responsável por isso é o percussionista e compositor baiano Giba Gonçalves, que morava em Paris, em 1997, quando decidiu ensinar os instrumentos afro-brasileiros aos franceses a partir do balanço do samba-reggae. A diferença fundamental foi que, além de formar novos percussionistas, Giba preocupou-se em motivar seus alunos a tornarem-se agentes multiplicadores, de forma que a ideia do Batala seguiu germinando.
Um desses multiplicadores, hoje empresário do ramo de informática, é Paulo Garcia, que trouxe a ideia para sua cidade natal, BrasÃlia. Ele que já havia criado o Batala em Portsmouth, na Inglaterra, onde morou por cinco anos, e, ao idealizar a versão brasileira, pensou no diferencial de um grupo exclusivamente composto por mulheres. “Mesmo estando em vários paÃses, podemos dizer que o Batala é um só, todos os grupos tocam as músicas compostas pelo Giba, que viaja muito e unifica os arranjos. Também existem momentos de encontro como no Carnaval, quando todo mundo vem para o Brasil. Mês passado, por exemplo, os Batalas da Europa se reuniram no Encontro Vulcânico, em Massif, na Françaâ€, conta.
Com a manhã avançando, o ensaio está prestes a começar. Enquanto poucas integrantes acertam a afinação de seus instrumentos, a maioria já está posicionada sob a sombra das árvores que vai abrigar as ritmistas durante as três horas de batucada. A novata Tatiane se posiciona de modo discreto, ajustando a posição do seu surdo que está prestes a dialogar com repiques, dobras e caixas. São executadas de 8 a 10 músicas que fazem parte de um repertório já bem conhecido dos brasilienses.
O Batala é constantemente convidado para participações importantes em grandes eventos da capital: nas comemorações dos 50 anos de BrasÃlia, em abril do ano passado, tocou no palco com Daniela Mercury. Em março deste ano, chamou a atenção da primeira-dama americana, Michelle Obama, em visita oficial no Brasil, que fez questão de enviar uma carta parabenizando o grupo pela contribuição à cultura. “O cachê das apresentações constitui nossa principal receita, somos uma associação sem fins lucrativos, mas disputamos os editais com bandas profissionais nos valores do mercadoâ€, explica Paulo. É com o caixa dos shows mais as contribuições que o grupo viabiliza o vestuário das apresentações, compra instrumentos e planeja viagens.
Mas nem só de apresentações pagas vive o grupo. Entre as principais ações estão as apresentações gratuitas em comunidades no entorno do Distrito Federal, ou para entidades beneficentes – aliás, foi durante a apresentação que o grupo fez para os 25 anos da Associação Brasileira de Assistência à s FamÃlias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), em um domingo de sol forte, em via pública, que a novata Tatiane se encantou pelo Batala. “Já tinha visto alguns shows, mas quando elas começaram a tocar naquele dia e eu vi a reação de alegria das crianças que estavam ali, inclusive minha filha de três anos, e fiquei muito emocionada. Decidi fazer parte do grupo e fique surpresa com a facilidade de entrar em algo tão gratificanteâ€, conta.
A facilidade do acesso consolida o conceito da abertura participativa do Batala. É a partir dele que a associação trabalha para que o público se sinta como personagem ativo da manifestação. “A relação das pessoas com a cultura é predominantemente consumista, de pagar para assistir ou assistir de forma passiva, mas a cultura popular é de todos, todos criam e participam, é este o sentido que cultivamosâ€, considera Paulo. Mesmo com o requisito de grupo feminino, quando a associação realiza oficinas gratuitas de percussão, as aulas são abertas para meninos.
O ensaio começa, o trânsito nas pistas do Eixo Monumental fica espontaneamente mais lento mesmo com o sinal verde, por causa da curiosidade de motoristas que não resistem em querer entender aquele aglomerado de ritmistas e ouvir aqueles segundos de som enquanto abaixam seus vidros automáticos. A cena é quase um padrão. O arquiteto Rubens Benites não resiste e para o carro. “Vou ficar dez minutinhos pra ouvir esse som incrÃvelâ€, justifica.
Só quando o ensaio entrou no intervalo e os tambores pararam que Rubens percebeu que seus dez minutos haviam virado quase trinta. “É muito envolventeâ€, comenta, ao olhar para o relógio e dar as costas em direção ao carro. Na segunda parte, Paulo assume a regência e passa a ensaiar músicas novas. Antes de batucar, os toques são cantados pelos integrantes conforme o seu instrumento, como uma percussão vocal, num exercÃcio curioso e lúdico.
Entre a atenção dos toques e comentários com as colegas, EmÃlia Borges, de 56 anos, no grupo há três, toca caixa desde que montou seu primeiro instrumento sob a orientação de Paulo. “Depois que montei tudo ele disse: agora toca (risos)â€. Ex-pianista, diz que encontrou na percussão a facilidade pelo domÃnio do instrumento que o piano nunca proporcionou. “Uma caixa como essa eu levo para todo lado. Já um piano, além de tudo, é caro, porque eu não vou querer tocar em qualquer umâ€, brinca. Sem saber escrever partituras, EmÃlia se mostra aplicada ao ponto de ter elaborado uma forma pessoal de marcar cada toque. “Ouço as músicas e faço minhas anotações sobre a letra para sair tudo certinho. Eu tenho que tocar, não tem jeitoâ€, define.
Militância musical / militância pessoal
Apesar da referência, o Batala de BrasÃlia opta por não colocar a militância pela autoafirmação de religiosidade ou de raça em primeiro plano. “O nome do grupo faz referência à divindade chamada Obatalá, mas preferimos colocar a questão do gênero e a música à frenteâ€, declara a assessora de imprensa e regente, Nayara. Mesmo assim, é o orgulho racial e a mÃstica religiosa motivam alguns integrantes que, além do ritmo, resolvem abraçar todos os significados. A bibliotecária Jurema da Silva conheceu o grupo por meio de uma amiga: “Entramos juntas porque vimos que quase não havia negras tocandoâ€. Jurema, que toca o surdo-de-dobra, ressalta que além do Batala ser uma eficiente válvula de escape da rotina, foi no coletivo que viveu uma das experiências mais intensas de sua vida. “Em janeiro, fomos para a Lavagem do Bonfim, em Salvador. Foi uma sensação tão mágica que, quando vi, já tinha percorrido os oito quilômetros do percurso sem parar de tocar um minutoâ€, disse a bibliotecária, impressionada com a quantidade de pessoas nas ruas e a energia da festividade.
A ida anual à tradicional Lavagem do Bonfim é uma das viagens que o grupo planeja em conjunto com pelo menos seis meses de antecedência. À renda das apresentações, somam-se as contribuições coletivas dos integrantes. “Não podemos fazer os projetos sem pensar na sustentabilidade e nem podemos ficar nas mãos dos governosâ€, adverte Paulo, revelando projetos aprovados em âmbito federal sofreram quando os respectivos recursos foram contingenciados de última hora. “Infelizmente isso acontece, e todo movimento precisa estar preparado para não desanimarâ€, aconselha.
Quando o ensaio entra na reta final, já é começo de tarde. No “até breve†da última batida, as 140 mulheres levam consigo o compromisso do próximo encontro, seja para um novo ensaio ou para a aventura dos palcos. Elas sabem que a participação de cada uma fortalece uma mensagem comum: são mulheres, com autonomia, orgulho e liberdade.
*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.
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