Percussão transnacional

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
3/8/2011 · 10 · 0
 

Quando chegou na manhã do dia 18 de junho no gramado do Eixo Monumental, em Brasília, nas imediações da sede da Funarte, a economista goiana, Tatiane Nasser, 32, cumpria a última etapa do ritual para a entrada no grupo feminino de percussão Batala (pronuncia-se Batala). Era a quarta vez que participava do ensaio, e acredite, assistir três ensaios é o mais trabalhoso dos pré-requisitos que habilitam Tatiane e qualquer outra mulher interessada a pegar um instrumento e ser recebida como nova participante do coletivo. O primeiro é ser maior de 18 anos e o segundo é “querer”, simplesmente ter vontade.

São 10h da manhã e o sol apressado do Planalto Central já trabalha intensamente em conjunto com três grandes árvores do cerrado. Elas projetam a sombra onde reúnem-se engenheiras, esteticistas, jornalistas, estudantes, advogadas e tantas outras mulheres que compõem as cerca de 140 integrantes que, uma vez na semana, cumprem a farra sonora do ensaio. “Por aqui já passou e passa de tudo, temos grande diversidade social, cultural, de idade e isso é muito bom”, explica a psicóloga Nayara Batista, que está no grupo há seis anos e atua tanto tocando instrumentos quanto na assessoria de imprensa do Batala. Ela também é a regente do ensaio que está para começar e foi quem recebeu a novata Tatiane, que assina orgulhosa, um termo de compromisso como a mais nova integrante.

A fronteira da diversidade não é a única que o Batala rompe. Além do Brasil, o grupo está presente na França, Bélgica, Inglaterra, País de Gales, Espanha, Portugal e Estados Unidos. O responsável por isso é o percussionista e compositor baiano Giba Gonçalves, que morava em Paris, em 1997, quando decidiu ensinar os instrumentos afro-brasileiros aos franceses a partir do balanço do samba-reggae. A diferença fundamental foi que, além de formar novos percussionistas, Giba preocupou-se em motivar seus alunos a tornarem-se agentes multiplicadores, de forma que a ideia do Batala seguiu germinando.

Um desses multiplicadores, hoje empresário do ramo de informática, é Paulo Garcia, que trouxe a ideia para sua cidade natal, Brasília. Ele que já havia criado o Batala em Portsmouth, na Inglaterra, onde morou por cinco anos, e, ao idealizar a versão brasileira, pensou no diferencial de um grupo exclusivamente composto por mulheres. “Mesmo estando em vários países, podemos dizer que o Batala é um só, todos os grupos tocam as músicas compostas pelo Giba, que viaja muito e unifica os arranjos. Também existem momentos de encontro como no Carnaval, quando todo mundo vem para o Brasil. Mês passado, por exemplo, os Batalas da Europa se reuniram no Encontro Vulcânico, em Massif, na França”, conta.

Com a manhã avançando, o ensaio está prestes a começar. Enquanto poucas integrantes acertam a afinação de seus instrumentos, a maioria já está posicionada sob a sombra das árvores que vai abrigar as ritmistas durante as três horas de batucada. A novata Tatiane se posiciona de modo discreto, ajustando a posição do seu surdo que está prestes a dialogar com repiques, dobras e caixas. São executadas de 8 a 10 músicas que fazem parte de um repertório já bem conhecido dos brasilienses.

O Batala é constantemente convidado para participações importantes em grandes eventos da capital: nas comemorações dos 50 anos de Brasília, em abril do ano passado, tocou no palco com Daniela Mercury. Em março deste ano, chamou a atenção da primeira-dama americana, Michelle Obama, em visita oficial no Brasil, que fez questão de enviar uma carta parabenizando o grupo pela contribuição à cultura. “O cachê das apresentações constitui nossa principal receita, somos uma associação sem fins lucrativos, mas disputamos os editais com bandas profissionais nos valores do mercado”, explica Paulo. É com o caixa dos shows mais as contribuições que o grupo viabiliza o vestuário das apresentações, compra instrumentos e planeja viagens.

Mas nem só de apresentações pagas vive o grupo. Entre as principais ações estão as apresentações gratuitas em comunidades no entorno do Distrito Federal, ou para entidades beneficentes – aliás, foi durante a apresentação que o grupo fez para os 25 anos da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), em um domingo de sol forte, em via pública, que a novata Tatiane se encantou pelo Batala. “Já tinha visto alguns shows, mas quando elas começaram a tocar naquele dia e eu vi a reação de alegria das crianças que estavam ali, inclusive minha filha de três anos, e fiquei muito emocionada. Decidi fazer parte do grupo e fique surpresa com a facilidade de entrar em algo tão gratificante”, conta.

A facilidade do acesso consolida o conceito da abertura participativa do Batala. É a partir dele que a associação trabalha para que o público se sinta como personagem ativo da manifestação. “A relação das pessoas com a cultura é predominantemente consumista, de pagar para assistir ou assistir de forma passiva, mas a cultura popular é de todos, todos criam e participam, é este o sentido que cultivamos”, considera Paulo. Mesmo com o requisito de grupo feminino, quando a associação realiza oficinas gratuitas de percussão, as aulas são abertas para meninos.

O ensaio começa, o trânsito nas pistas do Eixo Monumental fica espontaneamente mais lento mesmo com o sinal verde, por causa da curiosidade de motoristas que não resistem em querer entender aquele aglomerado de ritmistas e ouvir aqueles segundos de som enquanto abaixam seus vidros automáticos. A cena é quase um padrão. O arquiteto Rubens Benites não resiste e para o carro. “Vou ficar dez minutinhos pra ouvir esse som incrível”, justifica.

Só quando o ensaio entrou no intervalo e os tambores pararam que Rubens percebeu que seus dez minutos haviam virado quase trinta. “É muito envolvente”, comenta, ao olhar para o relógio e dar as costas em direção ao carro. Na segunda parte, Paulo assume a regência e passa a ensaiar músicas novas. Antes de batucar, os toques são cantados pelos integrantes conforme o seu instrumento, como uma percussão vocal, num exercício curioso e lúdico.

Entre a atenção dos toques e comentários com as colegas, Emília Borges, de 56 anos, no grupo há três, toca caixa desde que montou seu primeiro instrumento sob a orientação de Paulo. “Depois que montei tudo ele disse: agora toca (risos)”. Ex-pianista, diz que encontrou na percussão a facilidade pelo domínio do instrumento que o piano nunca proporcionou. “Uma caixa como essa eu levo para todo lado. Já um piano, além de tudo, é caro, porque eu não vou querer tocar em qualquer um”, brinca. Sem saber escrever partituras, Emília se mostra aplicada ao ponto de ter elaborado uma forma pessoal de marcar cada toque. “Ouço as músicas e faço minhas anotações sobre a letra para sair tudo certinho. Eu tenho que tocar, não tem jeito”, define.

Militância musical / militância pessoal

Apesar da referência, o Batala de Brasília opta por não colocar a militância pela autoafirmação de religiosidade ou de raça em primeiro plano. “O nome do grupo faz referência à divindade chamada Obatalá, mas preferimos colocar a questão do gênero e a música à frente”, declara a assessora de imprensa e regente, Nayara. Mesmo assim, é o orgulho racial e a mística religiosa motivam alguns integrantes que, além do ritmo, resolvem abraçar todos os significados. A bibliotecária Jurema da Silva conheceu o grupo por meio de uma amiga: “Entramos juntas porque vimos que quase não havia negras tocando”. Jurema, que toca o surdo-de-dobra, ressalta que além do Batala ser uma eficiente válvula de escape da rotina, foi no coletivo que viveu uma das experiências mais intensas de sua vida. “Em janeiro, fomos para a Lavagem do Bonfim, em Salvador. Foi uma sensação tão mágica que, quando vi, já tinha percorrido os oito quilômetros do percurso sem parar de tocar um minuto”, disse a bibliotecária, impressionada com a quantidade de pessoas nas ruas e a energia da festividade.

A ida anual à tradicional Lavagem do Bonfim é uma das viagens que o grupo planeja em conjunto com pelo menos seis meses de antecedência. À renda das apresentações, somam-se as contribuições coletivas dos integrantes. “Não podemos fazer os projetos sem pensar na sustentabilidade e nem podemos ficar nas mãos dos governos”, adverte Paulo, revelando projetos aprovados em âmbito federal sofreram quando os respectivos recursos foram contingenciados de última hora. “Infelizmente isso acontece, e todo movimento precisa estar preparado para não desanimar”, aconselha.

Quando o ensaio entra na reta final, já é começo de tarde. No “até breve” da última batida, as 140 mulheres levam consigo o compromisso do próximo encontro, seja para um novo ensaio ou para a aventura dos palcos. Elas sabem que a participação de cada uma fortalece uma mensagem comum: são mulheres, com autonomia, orgulho e liberdade.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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