PIRATA!

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Igor Cruz · São Paulo, SP
15/3/2011 · 4 · 0
 

Assunto desgastante, eu sei. Mas eu estava precisando descarregar as dúvidas que envolvem este assunto.

Venho comprando DVD pirata esporadicamente. Sim, eu sou um réu confesso. A dúvida bateu e pensei que talvez eu não devesse atuar neste esquema, talvez nada justifique a prática ilegal.

O assunto me chamou a atenção e me levou a comparar esta prática com outra atividade, o ato de baixar música na net, nos blogs dos amigos, no google, nos share's. Afinal de contas, não há crime algum em compartilhar cultura, obra ou arte, mas sim em vendê-la sem que o autor tome conhecimento ou lucre com isso. No caso dos DVD'S piratas é óbvio que o mesmo não acontece, pois no momento em que eu compro um DVD, alguém está lucrando, exceto os autores daquela obra, logo, crime de direito autoral.

Lembro-me quando se vendia por aí toda a obra musical em formato MP3 nas mesmas bancas que vendem os filmes hoje em dia. Algumas ainda vendem. A situação foi forçada, forçada até que se chegou ao ponto do compartilhamento mais amplo. A rede está muito mais acessível e o compartilhamento virou hobby para quem o pratica. Tudo isso de graça. Mas os filmes ainda não chegaram a esta condição, é uma pena. Baixar não é difícil, tem muito filme pela rede afora, porém, ainda se baixa um arquivo muitas vezes comprimido (em bits) e de péssima qualidade de imagem, além de os formatos não serem tão atraentes, pelo menos para mim, pois eu não curto muito assistir longas metragens em computador ou notebook, gosto do encosto confortável e da companhia. Troco meu mouse por um controle remoto sem pensar duas vezes.

Não me arriscaria a dizer que encontrei a solução para o cinema e a alta produção do mesmo, muito menos cheguei próximo disso. Mas percebe-se que é hora de mudar a política mercadológica de alguns setores atingidos pela pirataria, neste caso, o cinema e sua mídia física, os DVDs.

Primeiramente considero que precisamos de mais atrativos materiais no cinema, campanhas mais densas, mais baratas e com menos impostos. Brindes, a cópia fiel de um trailler, uma lembrança que ficasse muito tempo na memória de quem compareceu à sala, numa determinada data, num determinado momento da vida. Muita gente não percebe, mas cada filme que assistimos no cinema é uma lembrança geralmente muito boa.

Em segundo lugar acredito que deveria haver um site responsável pela produção e que poderia muito bem disponibilizar partes de um filme em cartaz. Capítulos ao longo do tempo, por exemplo. Para que o interessado possa "colecionar" estes capítulos até completar o seu "álbum", e então, o filme completo.

Penso também que as locadoras deveriam ser melhor incentivadas (tenho plena noção da dificuldade disso), por exemplo, cobrar mais barato no aluguel do filme isentando impostos e levando outros atrativos à caixa do DVD, como encarte, adesivos, promoções para ver no cinema um próximo filme daquela mesma produtora. Cabe perfeitamente uma política de adequação às produtoras e ao Ministério da Cultura (ei Dona Ana, já já, hein!).

Tudo bem que são só divagações, cheias de abismos "anticapitalistas", mas é possível ser feliz trabalhando sem piratear e chamando os desbravadores das ruas urbanas para consolidar propostas que levem lucro, desde o artista até o pequeno comerciante informal.

Na música, parece que alguns artistas estão acordando e já começaram a publicar suas obras ou parte delas, gratuitamente em seus sítios. O número de acessos cresce, o número de anúncios também cresce e a popularidade do artista também, fechando assim, um ciclo lucrativo, já que só se pensa em lucro e nem tanto na arte.

Ouvi boatos, de fontes fidedignas, que a nossa nova Ministra da Cultura vai botar na cadeia quem compartilha música na internet. Não vi nenhuma referência em minhas clicadas noturnas pela rede e nem em jornais, você leitor que me ajude se souber de algo. Então, vamos procurar saber mais sobre a mais nova Diva da Cultura Brasileira.

Ana de Hollanda é irmão do Chico, o Buarque. Sim, aquele exímio artista de esquerda com mais de 30 anos de carreira de malandro intelectual, muito cultuado, inclusive por mim e pessoas muito próximas. É bom se lembrar, sem precisar resgatar muito na história, que Chico Buarque de Hollanda foi um dos artistas que mais incitaram o consumo "lado B" de suas obras e de outras, principalmente as de cunho político-social. Aquilo, já era violação da lei, da lei estúpida vigente é claro, mas não deixa de ser pirataria, ora, os piratas são considerados os "foras da lei". Chico fez cinema com Ruy Guerra, um dos homens do Cinema Novo, movimento ativo nos anos 60 e perseguido nos anos 70. A turma do Glauber pregava peripécias e traquinagens de todas as formas para burlar a censura e piratear o seu próprio filme para levar às pessoas o conhecimento de uma causa, principalmente de interesse público. Isto significa que, sobre a nossa Ministra, sendo ela cantora, gestora cultural não diplomada em 3º grau e pertencente à classe artística, podemos esperar que as ações sejam baseadas em muito bom senso na hora das suas decisões, principalmente quando se trata do direito autoral.

O que a cantora diz:

Sobre a nova Lei do Direito Autoral: "...Não é possível que sejam feitas mudanças radicais de uma hora para outra. Hoje você já pode ceder sua música e abrir mão de seus direitos. Agora, se isso deve ser uma coisa obrigatória ou não, aí já é outra coisa. A flexibilização generalizada é uma questão delicada e acho que a lei atual já contempla bastante o tema." - Reportagem completa em O Globo.

Penso que o artista que não ceder os seus "direitos" ao público consumidor, continuará batendo cabeça entre uma gravadora e outra, pagando um jabá aqui e outro ali, para continuar na luta pela sobrevivência. Uma coisa é deixar com que as pessoas tenham acesso à obra, outra é permitir a reprodução de seu trabalho por outros ditos artistas sugadores de idéias que se profiliferam pelo mundo.

O discurso da princesa: "Pujança – é a palavra. E é esta criatividade que gira a roda, que move moinhos, que revela a cara de tudo e de todos, que afirma o país, que gera emprego e renda, que alegra os deuses e os mortais. Isso tem de ser encarado com o maior carinho do mundo. Mas não somente com carinho. Tem que ser tratado com carinho e objetividade. E é justamente por isso que, ao assumir o Ministério da Cultura, assumo também a missão de celebrar e fomentar os processos criativos brasileiros. Porque, acima de tudo, é tempo de olhar para quem está criando." - Discurso completo em Ana de Hollanda

Cara Ministra, não se esqueça que é tempo de acesso e, facilitando o acesso, a pirataria vai sumindo, devagar, mas vai.

Conheça a discografia da cantora / Ministra em http://www.anadehollanda.com.br/discografia.htm

Mas se a dona Ana não se comportar, a rede a derruba, assim como a rede derrubou o ditador egípcio, e começa assim: http://anadedownllanda.tumblr.com/

Se eu vou continuar comprando DVD pirata, não sei, porque até agora eu não conheço alguém, seja um político, um produtor, um músico, um gestor de cultura, que promova para mim, meus vizinhos, você e pessoas ao seu redor, uma política de inserção ou de acesso mais barato às obras cinematográficas que, um dia, já foi muito popular, principalmente pelo fato de já terem existido cineclubes em tudo o que é esquina desta cidade a qual se remete este blog. Comprar DVD pirata incentiva o crime? Nunca vi de onde vem e nunca soube que traficante de drogas, matadores ou políticos (aí eu já não sei) estivessem envolvidos com a cópia "super legal" de filmes em DVD e sua distribuição.

Deixo a pergunta para instigar o debate: Você não acha criminoso o tanto que você (que tem acesso - $ - status, condição, carro...) e eu investimos para sair uma noite para curtir um cineminha?

Texto original no blog: Urbano por Acaso

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