Iniciamos o ano com uma série de bons lançamentos da música nacional. Neste mês de maio, fomos apresentados ao disco que está fora da estação climática, mas tem muito o que dar nas estações musicais. Falo de “Outono no Sudesteâ€, quinto disco do músico paulista MaurÃcio Pereira.
Vindo poucos meses após o lançamento do novo disco de seu eterno parceiro André Abujamra, desde Os Mulheres Negras, “Outono no Sudeste†apresenta a poética do cotidiano, uma obra essencialmente paulista e carregada de elementos da crônica, mostrando a qualidade artÃstica da imagem na música. Em entrevista para o Trabalho Sujo, MaurÃcio afirma que não costuma gravar videoclipes das suas músicas pois elas já trazem a imagem.
O disco traz músicas que já existiam no repertório do artista, mas que ainda não haviam sido gravadas, como “Amigos†e “Tudo tinha ruÃdoâ€, onde esta última comprova a imagética nas canções do paulista, colocando os ruÃdos do urbano para atravessar o nosso momento de audição. Como um poeta enclausurado entre as paredes do meu quarto, me identifiquei bastante com estes ruÃdos.
Outra música carregada em imagens é “A maisâ€, inspirada nos contos de Murilo Rubião, abrindo o disco com muita melancolia e poesia. A crônica do cotidiano se expande em canções como a faixa tÃtulo do álbum, um verdadeiro passeio por São Paulo; ou na obra-prima do disco, “Mulheres de bengalaâ€, onde MaurÃcio expôs a rotina das senhoras na megalópole paulista, uma verdadeira música em tempo real, feita ao caminhar pelas ruas da cidade.
A melancolia retorna na segunda metade do disco, com “Piquenique no Hortoâ€, baseada na rotina da infância e do passado materno, com uma batida mais suave e clássica. As desolações amorosas também se apresentam em “Cartas pra ti†ou em “Maldita Rodoviáriaâ€, onde vemos o romance da rotina, na busca pela aceitação das frustrações, acolhidas pela rodoviária, ponto comum de separações, ao “procurar abrigo em algum ônibusâ€, como diz a canção.
Em “Uma pedraâ€, que já foi gravada pela cantora Rhaissa Bittar, temos a densidade de uma canção que faz jus ao nome, com a solidez dos sentimentos abordados pelas letras que também são fortes, mostrando sua convicção. Já em “Floridaâ€, há uma abertura mais tranquila, um outro tipo de romance mais suave, florido e ritmado.
MaurÃcio Pereira se garante demais na estética das palavras em suas canções. Exemplo disso é em “Não me incommodityâ€, onde ele brinca com as questões econômicas, relacionando com a música e a indústria cultural. Outro exemplo é em “Quatro dois quatroâ€, que faz referência aos problemas do futebol moderno através de uma alusão à narrativa do esporte, sintetizando a arte do MaurÃcio no mantra “achar a graça é a nossa missãoâ€.
O conjunto da obra “Outono no Sudeste†é uma verdadeira poética do cotidiano urbano, mostrando a firmeza na musicalidade e nas composições de MaurÃcio Pereira, um verdadeiro gênio da música contemporânea brasileira. Com uma ótima produção de Gustavo Ruiz, o disco conta também com a participação de músicos ilustres, como Gabriel Basile, AmÃlcar Rodrigues e Tonho Penhasco, sem deixar de lembrar da presença dos filhos de MaurÃcio Pereira, que também fazem ótimos trabalhos individuais, à exemplo da banda O Terno, do filho Tim Bernardes.
Resenha publicada originalmente no meu blog
https://jornalismoproletario.blogspot.com/2018/05/resenha-mauricio-pereira-outono-no.html
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