Reverberações globais

Abigail Nunes, Deneir, Hubert Viudes e Pat Cam na Galeria Espaço Imaginário
Exposição "Encontros e Travessias", na Galeria Espaço Imaginário
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luisa gomes cardoso · Rio de Janeiro, RJ
31/10/2010 · 7 · 0
 

Olhares que se cruzam, imagens que se desdobram

Fragmentos, trânsitos, contaminações. Cada vez mais essas palavras são repetidas em diferentes meios e contextos; do cultural ao econômico. Somos então assolados por uma impressão de que
estamos de fato imersos em um movimento contínuo, acelerado, brusco... E sem direção.

Redes, fluxos, conexões. Cada vez mais essas palavras são usadas para revelar novas associações.

Ao se fazer uma reflexão sobre esses temas é possível entender a complexa trama que culminou
na exposição “Encontros e Travessias” que acontece no dia 25 de Outubro na galeria Espaço
Imaginário, nascida a partir do (re)encontro de dois artistas brasileiros, um argelino e um vietnamita. Originalmente esse encontro ocorreu na França. Hubert e Deneir, então pertencentes ao coletivo Imaginário Periférico conhecem Abigail Nunes e Pat Cam. A “travessia” representa, poeticamente, o retorno da França ao Brasil, cinco anos depois.

O Espaço Imaginário, uma vez mais se coloca em suspensão como espaço fixado em um território físico limitado, oferecendo ao público a possibilidade de experimentar uma intensa troca cultural onde as referências individuais de cada artista se afirmam mutuamente. O que se vê é um rico acervo imagético pautado na diversidade. As obras, que foram distribuídas pelas três salas da galeria traduzem essa conexão contemporânea em forma de rede sendo atravessada horizontalmente pelos trabalhos de Pat Cam, que funcionam como o fio condutor dessa narrativa multicultural.

O hibridismo presente na exposição assinala outra característica da contemporaneidade que é a abertura para a possibilidade de viver e pensar o mundo a partir de inúmeros pontos de vista e de incontáveis singularidades. Em outras palavras, a perfeita harmonia entre o global e o local.

Deneir, artista carioca de forte atuação na Baixada Fluminense, apresenta um trabalho no qual é fácil se sensibilizar pelo conteúdo imagético de sua elaborada arte “vira-lata”. Utilizando-a (a lata) como matéria-prima, o artista molda, colore, constrói, recria, cultivando signos que ao mesmo tempo em que dialogam com a especificidade do local; como no caso das bandeirinhas coloridas que formam a imagem de um imponente balão de São João, alcançam o status de universal.

Já na obra, “Experiência Dzo” da artista Abigail Nunes, vemos um conjunto de desenhos voluptuosos que parecem querer se expandir para fora dos limites de seu suporte – o delicado papel vietnamita Dzo. Com o intuito de provocar uma tensão visual entre a forma e o suporte a artista lida com dois conceitos culturais distintos: o primeiro se refere à escolha das formas femininas largas, voluptuosas, ultra-sensuais, bem características da imagem nacional e internacional da mulher brasileira, enquanto que o segundo se refere ao suporte; o papel Dzo, fabricado a partir da casca da árvore de mesmo nome. Esse suporte exige certa delicadeza no manuseio, característica que se liga ao comportamento “zen” tipicamente encontrado nos asiáticos. Enquanto Deneir afirma o local transcendendo suas obras à categoria de universal, Abigail materializa o hibridismo, deixando pistas de suas contaminações.

Quando nos deparamos com as “Sonâncias de Nossas Trilhas” do artista argelino, Hubert Viudes, o impacto causado sensibiliza não somente os olhos como instigam todos os outros sentidos. Artista multidisciplinar, Hubert nos oferece uma verdadeira epifania, por trás dos olhos que olham o Brasil. As bandeiras são recorrentes e empregadas como elementos estéticos que compõem os objetos multifuncionais que lembram, também, fragmentos de instrumentos musicais extraídos de um quadro Cubista. Tudo convida ao toque, ao molejo, à entrega do corpo e da alma.

Com a finalidade de unir e assentar todas essas individualidades globalizantes somos então conduzidos nessa jornada plástica rumo à obra sugestiva “Um olhar para o Rio” do artista vietnamita Pat Cam, cujo conjunto de imagens realistas produzidas a partir de técnica mista e de colagem nos redirecionam de volta ao contexto local, representado por fragmentos de cenas do cotidiano carioca, de pontos turísticos e de monumentos históricos. Cenas meticulosamente selecionadas pelo artista em que a presença enigmática da bandeira nacional atua como uma interferência na paisagem exótica e urbana, desmanchando-se, derretendo-se misteriosamente.


Renata Gesomino. 22/10/10.
Doutoranda em História e crítica da arte pelo PPGAV-UFRJ.



A exposição "Encontros e Travessias" pode ser vista até dia 19 de Novembro de 2010, na Galeria Espaço Imaginário. De Segunda a Sexta, das 11 às 21 horas.

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