“Samba agoniza, mas não morre1.” Será?
Peço licença ao Nelson Sargento, mas começo este texto com esta frase que tanto é cantada nas rodas de samba. Sem querer diminuir, menosprezar ou alterar a beleza desta letra: Agonizar não é quase morrer? Não é estar praticamente morto? Não é morrer lentamente? Vamos ficar esperando o samba morrer de uma vez?
Não sou musicista, cantora, empresária, letrista ou qualquer coisa semelhante. Sou administradora, entendo de números e estratégias. Entendo de Marketing. Entendo que uma empresa, produto, ou até mesmo um patrimônio, só vivem se forem cuidados.
Já ouvi e li em muitos lugares que o samba está revitalizado, renascido, assim como e com a Lapa. Tenho minhas dúvidas. Vou ser mais clara: sobre a ótica administrativa, o “samba” é uma empresa praticamente falida, só resiste em decorrência de uma meia dúzia de resistentes, alguns apaixonados e outros curiosos.
Depois da década de 80, nunca foi tão chique ir ao samba: samba-quadra, samba-raiz, samba no morro, no clube, na lagoa ou na rua. Afro-“decentes”, ou melhor, dizendo Afro - descendentes, e suas culturas estão na moda. Cabelo trançadinho, black, camisetas com 100% negro estampado...
O samba não precisa e nem merece outra década de 90. Sou brasileira, carioca, nascida no antigo São Carlos (Estácio), conheci o samba sendo batucado com caixinha de fósforo, assistindo as baianas do morro descendo nos dias de desfile.
Não quero que o samba agonize, nem morra. Quero que o samba fique, crie raízes, não em poucos, mas em todos.
Mudando de estilo musical para ficar mais claro aonde quero chegar, com a única proposta de questionar a forma como os representantes desses estilos lidam com a propagação e manutenção do seu grupo.
Falemos sobre o estilo “s”. Se fossem empresa poderiam dizer que estão oferecendo ao mercado a satisfação de um desejo ou necessidade. Oferecendo benefícios ou satisfação que os clientes percebem que obterão se o adquirirem.
Em administração de marketing, estudamos uma coisa que se chama “ciclo de vida de produtos” no qual quanto mais você conhece o seu produto e o seu consumidor, melhor será a estratégia utilizada para alcançá-lo.
O ciclo de vida de um produto divide-se em introdução; crescimento; maturidade e declínio, isto é , cresce lentamente durante a introdução, aumenta ou estabiliza na fase de maturidade e cai na fase de declínio. Voltamos para análise sertaneja: São lançados os cantores A e B, quando estes na fase de maturidade lançam A1, A2, B1 e B2 e quando chegam à fase de declínio são introduzidos de novo por A1.1, A2.1 e assim sucessivamente. É praticamente uma pirâmide, sendo de cabeça para baixo. De modo que o estilo musical receba sempre ares e motivações novas. Vira um grande círculo, onde A e B jamais deixam de existir, mas só fazem crescer o topo da pirâmide. Devem ser doutores em estratégia este pessoal da musica s.
Levando para o lado animal, os sertanejos seriam como o voo das gaivotas, em que os mais “cansados” dão vez aos menos “cansados”, fazendo com que sempre voem.
No mundo do samba, parecem leões onde só pode existir um rei para o grupo. Não importa que o grupo esteja quase morrendo, não há renovação ou ela é muito insignificante. Corremos o risco do samba virar uma espécie em extinção...
Acredito que se o IBGE fizesse uma pesquisa de levantamento de quantos novos s surgiram e quantos novos sambistas, o primeiro grupo deve ser, pelo menos, 100% a mais do que o segundo. E o mais importante, os antigos não são descartados como em alcatéias, mas mantidos como um bando (de gaivotas).
Tudo entendido, então deve ser por isso, que escutamos e vemos sempre os mesmos sambistas na mídia. Basta ir a uma roda de samba para se ter uma idéia de quantas coisas boa andam por aí.
O Samba pede SOCORRO: “Não deixem o samba morrer, não deixem o samba acabar 2”, mas também, não o deixem agonizando, porque pode ser que em algum momento ele morra, de tanto sangrar.
Notas:
1 Parte do Samba “Agoniza mas não morre “de Nelson Sargento
2 Parte do Samba “Não deixe o samba morrer“ de Música e letra : Edson e Aluísio
Autoria do Texto: Michele Bragança (e-mail: mdbraganca@uol.com.br)
Revisão e colaboração de: Leila Nívea B. K. David
Samba, a gente merece o prazer de cantar....Jorge Aragão. ...esse Samba é pra vc, pra mim, pra todos.... Vamos sambar, cantar, aplaudir. Conto com vc. Belo texto. Incentivador. Transparente e orientador. Viva o Samba!
TuninhoCabral · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2015 10:48Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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