Urbanorâmicas paisagens afetivas

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joca simonetti · Vitória, ES
20/4/2012 · 7 · 0
 

A exposição de Gabriel Borem na galeria Homero Massena traz uma série de paisagens panorâmicas da vida urbana. Não tratamos aqui de paisagens tradicionais, pintura ou desenho a óleo, guache ou carvão, mas de panoramas mentais construídos com os restos da urbe, tecidas pela mistura de objetos descartados pelo homem urbano e que propõem um olhar sobre a própria cidade - Urbanorâmicas, como Borem batizou a exposição.

Quase todo o salão, no segundo andar da galeria, está tomado por um conjunto de quatro grandes paisagens. Em um quadrado, ou canto, da exposição, outras obras - instantâneos da realidade - dialogam com esse conjunto maior.

As quatro obras principiais estendem-se horizontalmente, chamando o olhar tanto para uma mirada geral como para um olhar que passeie pela paisagem e se detenha aqui ou ali. Cada uma dessas paisagens possui um centro formado por um objeto ou conjunto deles que é bastante evidente: um conjunto de livros, uma televisão, um computador e uma coleção de slides fotográficos. E são esses objetos centrais que oferecem o fio condutor da mostra e o percurso, preferencial em minha opinião, de cada uma das obras isoladamente.

As paisagens, compostas exclusivamente de material reaproveitado, e o artista faz questão de deixar isso evidente, compõe uma paisagem que propõe uma experiência estética, semiótica, impressionista e afetiva desses objetos, ou melhor, interpretam a maneira como esses objetos participam da constituição do mundo, da urbe.



O panorama dos livros é composto de materiais orgânicos, especialmente madeira. Remetendo tanto ao papel, que é feito de madeira, como a um mundo quase rural, sem energia elétrica, no qual o universo parece seguir com a natureza. Um tabuleiro de damas e um campo de futebol de botão - jogos para se jogar com outras pessoas, pessoalmente - também compõem a cena

Na paisagem televisiva, destacam-se elementos de construção - placa de obra e cerquite - e materiais quimicamente elaborados, como o plástico e o isopor. A cidade que emerge dessa visão está em construção e é, podemos dizer, um simulacro plastificado - falseado - do mundo. Essa é a maior peça da exposição e traz também um espelho além da tela de tv (que está ligada ao ralo de uma pia) - seria o espelho mágico da tela de televisão?

O mundo informático é um das composições mais interessantes desse conjunto. Nessa imagem, o tom dado por um conjunto de lâmpadas - luzes -, e uma trama sugere os pixels que formam as imagens digitais. A cidade não existe mais fora e é representada ou reconfigurada, mas a urbe está tecida pelas luzes, e existe a partir, ou dentro do computador que, fragmentado, ocupa vários espaços da cena, está no conjunto, e não é o centro de algo que está fora. As frentes de ar-condicionado tanto evocam o ambiente refrigerado em que os computadores costumam (ou costumavam) estar, como reforçam a ideia de clausura, de mundo fechado, autônomo em si mesmo.

Fecha essa parte da exposição o panorama fotográfico, representado por caixas e caixas de slides (fiquei muito curioso de ver as imagens que esses slides continham). Aqui, a cor destaca e domina. E não é qualquer cor, é uma cor antiga, uma tonalidade que não existe mais nas imagens digitais - cada vez mais vivas e agressivas. Os azulejos azuis, o banco vermelho, a placa de rua amarela remetem ao universo doméstico, ao lar, à casa urbana.

Gabriel Borem sabe o que faz. Suas composições são esteticamente bem resolvidas e internamente coerentes. São, no entanto, imagens do artista quando jovem, ainda planas em certezas que só a juventude possui.

A obra que mais me gostou, não está incluída em nenhum dos dois conjuntos e apresenta duas rodas interligadas por varas de metal. A simplicidade de sua construção e a profusão de leituras que emerge daí, começando pela referência à imagens de mapas mundi, seguindo pela ideia de conexões - entre os círculos e as partes - ou mesmo pela referência distante a uma bicicleta e outras imagens que vão ocorrendo enquanto se observa a primeira, a segunda e outras vezes a montagem, conferem a essa obra a profundidade que na minha opinião faltou nos grandes panoramas.




Finalizando: os meios de comunicação, as formas de interação entre os homens e de constituição de suas memórias e interpretações são, na minha opinião, o fio condutor da exposição, o modo de entender a urbe que, afinal, só existe por causa e por meio dessas interações, imagens e memórias.

Urbanorâmicas, de Gabriel Borem
Visitação até 18 de maio de 2012
Galeria Homero Massena Rua Pedro Palácios, 99 - Cidade Alta - Vitória/ES
De segunda a sexta das 10 às 18 horas
Informações: (27) 3132-8395 Entrada franca.

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