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Abalando a dança curitibana

Luiz Cequinel
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Adriane · Curitiba, PR
23/11/2006 · 85 · 0
 

Quando a Casa Hoffmann – Centro de Estudos do Movimento nasceu em 2003, a impressão era de que seria um espaço para a pesquisa e, portanto, direcionado a uma parcela mais segmentada da comunidade curitibana, performers e bailarinos. Passados três anos, ela surpreende não só por ter tido aval da atual gestão para continuar com bolsas de estudos para aperfeiçoamento profissional, mas também com projetos simples e interessantes que estão conseguindo, de verdade, aproximar a entidade de uma parte da população mais periférica, que é autodidata.

Este é o primeiro espaço de dança na cidade com proposta de fazer pensar. Não é uma companhia de dança, mas um lugar de estímulo aos experimentos, que também está interessado nas manifestações que acontecem em um circuito não profissionalizado, sem se prender unicamente ao conhecimento acadêmico. O segredo é ter os pés no chão e lidar com a realidade para conseguir avançar – e ter gente que ama o que faz, cuidando de tudo.

Hoje a Casa oferece 11 vagas e foram criados novos estágios de bolsistas. Tem a Bolsa Residência, com três vagas para três meses e uma verba total de R$1.500 por artista pesquisador; sete bolsas vão para a iniciação à pesquisa em dança contemporânea e também tem bolsa para a pré-produção de pesquisa em andamento. "O artista entra para a pesquisa e pode fazer os cursos gratuitamente; depois pode ganhar verba por três meses para desenvolver suas idéias e, por fim, um valor de R$3.900 para a estruturação coreográfica e apresentação pública. Ou seja, são editais linkados que propiciam a continuidade, o que é muito difícil de se conseguir no nosso meio", comenta Marila Velloso, bailarina e professora de dança, hoje responsável pelo espaço. "Os valores estão dentro do nosso contexto de verba destinada para a área da dança, esta é nossa realidade", completa.

Transição

A proposta foi criada pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e implantada em 2003 em um belo casarão - construído em 1890 para abrigar uma família de imigrantes austríacos - já oferecendo workshops com nomes fortes do circuito mundial da dança. Ao assumir a Casa Hoffmann, no entanto, Marila ganhou também a missão de coordenar a área da dança da cidade, o que significa, avalia ela, uma ampliação institucional dentro da FCC. "É um momento político importante porque uma coordenação envolve toda uma área de conhecimento, então é uma mudança político-institucional", comemora Marila, que durante toda a conversa com o Overmundo manteve o tom apaixonado pelo projeto.

Depois de um período de adaptação, a nova coordenação de área encarou 2006 com uma série de propostas que envolvem as regionais de Curitiba – espécies de sub-administrações que existem nos bairros da cidade – e, pelo entusiasmo com que a atual administradora conta sobre os retornos que tem recebido, essa aproximação já é uma realidade.

Uma mudança necessária nesta nova fase, explica Marila, foi afunilar o perfil das propostas para bolsas só para dança contemporânea. "Sabemos que são tênues as divisões, mas foi preciso", diz ela, completando que em alguns estágios o aluno tem o aval de orientadores que ajudam a "complexificar" o tema proposto. "Cria-se um outro tipo de relação que, aliás, começa a ficar mais comum no mundo todo. Estamos dando conta das demandas que existem e ao mesmo tempo criando novas", comemora a coordenadora, contando ainda sobre convites para projetos de intercâmbios com outros estados brasileiros.

E as razões para comemorar não param por aí. Também está começando uma parceria com o Centro em Movimento de Lisboa (CEM), um espaço voltado à dança contemporânea, para trazer gente de lá para estudar aqui e vice-versa. "A seleção é muito natural, através da observação das pesquisas e ao longo dos cursos", explica ela, que em breve recebe duas estudantes do CEM. "Depois quem veio e quem foi se encontram para criar projetos para suas comunidades".

Marila reafirma que a Casa não quer ser uma escola e, para se diferenciar, tem que ter um perfil dinâmico. "Somos um programa de políticas públicas, temos que ir observando as questões e transformando", explica. "De um semestre para outro os cursos mudam completamente, mas tem um jeito de pensar dança contemporânea parecido, porque há que se respeitar as especificidades da atual proposta da Casa", observa.

Novidades

Mas, a menina dos olhos de Marila são as atividades crescentes com a comunidade. A coordenadora e sua equipe arregassaram as mangas e foram ajudar a organizar as coisas também na periferia de Curitiba. E que surpresa boa todos tiveram. Primeiro, foi feito um mapeamento nas regionais, para identificar o que cada região queria. "Foi muito lindo, reunimos amadores e profissionais, sem nenhum julgamento de valor. Ficou claro que eles não precisam necessariamente da gente – e nós não temos todos os recursos que eles precisariam. A gente media as demandas e eles esperavam soluções. Porém, nós só podemos mediar as dificuldades", diz. E foi colocando os "pingos nos is" desta forma que ela conseguiu um resultado que define como maravilhoso. Só colocar os vários grupos numa mesma sala para que eles se conhecessem, vissem as similaridades do que fazem, já foi o suficiente para que encontrassem suas próprias soluções. "Vimos que a primeira coisa não era ensinar, mas socializar, para vencer resistências", ensina.

Foi assim que surgiu a primeira ação: Dança quem quer. Um evento onde as pessoas se inscrevem na hora. "Para evitar a cultura de shows, que prima pelo me mostro e vou embora e estimular a auto-organização", pontua. Agora o evento virou mensal. "Isso nos fez também conhecer as lideranças, pois como não temos recursos para resolver todos os problemas, precisamos potencializar o que existe lá e formar multiplicadores".

Outra idéia que está em andamento é a construção de um acervo em cada regional. Porque, defende Marila, não adianta ter uma enorme quantidade de material se fica tudo na Casa, na região central. "Tem que ter um acervo, singelo que seja, nos bairros e depois os fazemos circular. Agora, tudo que é feito é filmado e eles ganham cópias. Passou a ser tudo vezes nove", conta, rindo.

É aquela coisa do ditado: tem que ensinar a pescar ... "E trabalhar com a realidade, pois é isso que funciona", garante Marila, já comentando que haverá um segundo fórum desses grupos. "Não é um festival. Nossa tarefa é informar e politizar, temos uma preocupação com o indivíduo", diz, lembrando também o Dança Solidária, projeto no qual colegas seus de faculdade dão aulas. "As coisas não são tão difíceis, precisa ter comunicação, nós estamos tentando", assegura.

Tudo isso, observa a bailarina, tem efeitos no mercado. É necessário, diz, trabalhar com a gestão pública, para fortalecer a atuação dos profissionais de dança como um todo. "Minha geração nunca teve mercado para a produção em dança, sobrevivi sempre como professora. Hoje temos a verba do Fundo Municipal de Cultura para os Editais Públicos específicos para a dança e uma verba, que antes não havia, para a área da dança. Estamos preparando o terreno. Temos muito pela frente, mas pela primeira vez se pode vislumbrar um mercado no futuro em Curitiba".

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