Beckett é parceiro

Jean-Charles Mandou
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Leca Perrechil · São Paulo, SP
28/6/2007 · 85 · 1
 

O perigo de se montar uma peça de Beckett é cair no senso comum. O estilo do escritor é tão particular - com seus silêncios, questionamentos existenciais, rubricas exatas - que a maioria das montagens atuais não parecem produções autorais, apenas execuções automáticas do texto.

Contudo, se é pra encarar Beckett com todas as suas particularidades, que seja bem feito. E foi isso que o diretor Rubens Rusche resolveu fazer com a peça Crepúsculo - 3 peças de Samuel Beckett. O risco era grande, afinal trata-se de três peças do escritor em uma montagem. Mas o diretor sabia o que estava fazendo. Pelo menos é o que fiquei sabendo por fontes inseguras. Logo na entrada, um rapaz atrás de mim na fila avisa: "Esse diretor monta tudo de Beckett. O filho dele se chama Samuel por causa do autor".

No espetáculo, o diretor conseguiu passar todas as angústias referentes à questão de existir e de sua complementar, "pra quê?" - o problema de não ter realmente um propósito para viver. São vidas que não necessariamente fazem sentido para o indivíduo e para o resto da humanidade. O grande destaque da montagem são os trabalhos corporais, em estado de comunhão com o texto.


Seu nascimento foi sua morte

A peça inicia com o texto Solo, escrito em 1979. Ele fala sobre a efemeridade da vida e o encontro com a morte. Em cena, um único ator (Antônio Galleão), estático, com os braços semi-erguidos durante toda a história, narra suas angústias. A expressão facial, a respiração asmática e a composição do personagem - um senhor muito idoso de camisola e cabelos longos e brancos - ajudam a dar o clima.

Nosso problema não é que vamos morrer, e sim que ainda não nascemos completamente
Em Passos, escrito em 1975, o público presencia uma conversa entre mãe (Vera Villela) e filha (Nádia de Lion), porém, a figura da mãe não aparece, ouve-se apenas sua voz em off. Na encenação, a filha, May, caminha em busca de sentidos que nunca vêm. De um lado para o outro, em um retângulo de luz envolto em trevas, ela anda lentamente e pára somente nas extremidades, por pouco tempo. Seu andar é melancólico. Mais uma vez, a expressão corporal chama a atenção. A atriz permanece na mesma posição, semi-curvada, braços ao redor do corpo, durante o tempo inteiro, assim como no primeiro texto.

Não há nada de mais terrível em nós a não ser aquilo que ainda não foi dito
Por último, o texto Improviso de Ohio, de 1980. Apesar de também ser um monólogo, dois atores permanecem em cena. Sentados em frente a uma mesa, cobrem seus rostos com uma das mãos, imóveis. Vestem longas batas pretas e possuem cabelos brancos compridos. Um deles, o leitor (Daniel Ribeiro), vira lentamente as páginas do livro lido, enquanto o ouvinte (Antônio Galleão), cumpre sua função: ouvir. Novamente, os personagens têm seus movimentos limitados, como se estivessem presos a seus modelos. Escondem a face pela vergonha das palavras que ainda não foram ditas.

A grande ressalva da apresentação não está nem na montagem, e sim na acústica do espaço em que foi apresentada. Na sala Emílio Salles Gomes, no Centro Cultural São Paulo, os silêncios beckettianos foram arruinados pela música vinda de apresentações de outras salas.

O espetáculo traz um bom trabalho de iluminação e maquiagem, trabalho de corpo, expressão, tudo em harmonia com o texto. Se não tem como fugir das fortes marcas tão presentes no texto, Rubens Ruscher encontrou um jeito de justificar sua montagem: se não dá pra competir com Beckett, junte-se a ele. Mas questionar sempre é bom. Beckett aprovaria uma discussão sobre o sentido da existência... de uma peça.

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Leca Perrechil
 

Resenha póstuma publicada originalmente na Revista Bacante.

Leca Perrechil · São Paulo, SP 25/6/2007 11:59
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