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Eduardo, Mônica e Fernanda
Leca Perrechil · São Paulo (SP) · 5/7/2007 19:19 · 102 votos · 1 comentários ·  
 
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overponto
Sabe aquela brincadeira de criar um significado para uma música conhecida, mesmo que o sentido empregado seja absurdo? A peça Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica, dirigida por Fernanda D'Umbra, parte justamente desse princípio.

Em cartaz no Espaço Parlapatões, a encenação explora um hipotético sentido para a música Eduardo e Mônica, do grupo Legião Urbana, pelo ponto de vista do Excelentíssimo Senhor Reitor Doutor Adolar Gangorra, que, por seus títulos e condecorações, estaria mais do que habilitado a falar sobre esse assunto.

O metódico acadêmico analisa trecho por trecho a letra da composição de Renato Russo e chega à conclusão de que Mônica seria uma bêbada esnobe (ou uma P.I.M.B.A - uma Pseudo-Intelectual Metido à Besta Associado) que teria levado o pobre garotinho de 16 anos, Eduardo, ao mau caminho. Segundo a teoria, Russo teria retratado Mônica como uma alternativa cult e Eduardo como um jovem burro, preguiçoso, influenciado por ela. Mas, pela visão do acadêmico, ele, na verdade, é que era um bom rapaz por jogar futebol de botão com seu avô e ser um menino certinho, até conhecer Mônica, claro.

Para fazer tal avaliação, Gangorra conta com a ajuda de Pablo, em referência direta ao dublador do programa "Qual é a Música?", de Silvio Santos. Com peruca loira, uma borboleta pintada no rosto, e trejeitos homossexuais, aparece como contraponto ao professor. Quando surge, como o falecido Pablo, é até engraçado. Ele interpreta os trechos da canção de Renato Russo com bom humor, e quando não está dublando a letra, fica sentado em um banco lendo uma revista Contigo.

Contudo, depois de um tempo tudo começa a perder sua graça e ficar previsível e monótono. O Excelentíssimo blábláblá Adolar Gangorra começa a lembrar um professor de cursinho que, para chamar a atenção dos alunos, tenta fingir que a matéria dada é muito interessante. Suas teorias deixam o ar inusitado e inovador, e caem no senso comum. No final, parece apenas o discurso de um homem antiquado chateado pela emancipação feminina. A piada com o Pablo também perde a graça e acaba virando chacota com os trejeitos gays do rapaz.

O bom da peça mesmo está no início, quando o acadêmico realiza minuciosa preparação de um ambiente adequado para palestras, consumindo bons minutos. Ele organiza todas as suas condecorações e medalhas em cima de uma mesa, organiza as canetas, empilha copinhos de água em forma de pirâmide - imprescindíveis para uma apresentação descente - dispõe a Contigo em lugar estratégico, dobra cuidadosamente um saquinho de supermercado para guardar na pasta, e desdobra outro para arrumar um lixinho. Tudo mmmmmuuuuiiiiitttttooooooooo devagar.

Fernanda D'Umbra também tem seu momento no início do espetáculo. Ao apresentar Gangorra, tira risos da platéia quando diz que a música é indispensável em churrascos, junto com músicas como Wish You Were Here, Stairway to Heaven e Andanças. Provavelmente muita gente da platéia se identificou.

O autor do texto, igualmente de nome Adolar Gangorra, na verdade é o pseudônimo de um publicitário de Brasília que publica há muito tempo textos na internet e possui identidade desconhecida. Como essa cidade possui muitas pessoas fantasmas mesmo, a equipe bacante não conseguiu localizar o autor. Não que tenha tentado.

tags: São Paulo SP artes-cenicas revista-bacante teatro espaco-parlapatoes fernanda-dumbra renato-russo


 
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Inicialmente publicado na Revista Bacante.
Leca Perrechil · São Paulo (SP) · 2/7/2007 09:48 
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