A Câmara Viajante é um filme que trata de uma maneira bastante especial a fotografia enquanto atividade profissional, mas indo além disso, mostra o caráter substantivo da fotografia em relação a emoção.
Mais que um documentário, que recebeu críticas por um suposto viés televiso¹ e fala sobre fotógrafos ambulantes de um lugar sofrido como nosso Nordeste, o filme se passa principalmente na esfera dos sentimentos que estão intrinsecamente ligados aquele lugar, ou melhor, nas pessoas daquele lugar, sentimentos tais como saudade, lembrança, perda, alegria, responsabilidade e fé.
Em seu inicio um discurso sobre a construção e eternização da imagem interessante que ao mesmo tempo que fala de beleza, contrasta com seu discursante com o rosto marcado pelo sofrimento da vida na seca, que está longe daquilo que costumeiramente o conceito define como padrão. A fotografia do filme não poderia ser diferente do esperado, é impecável, sensível e atenta aquilo que faz da fotografia o que é, a luz e seu somatório, as cores.
O filme é construído por aquilo que seus cinco principais personagens são, ou seja, dão vida, corpo e alma ao filme. Nele, os cinco fotógrafos ambulantes caracterizam um sentimento que cultivam pela fotografia: enquanto um fotografa e sente a responsabilidade que lhe cabe ao participar das bênçãos alcançadas por seus clientes, outro se entrega a alegria, autonomia e liberdade que o exercício dá, chegando a comparar a fotografia a uma boa cachaça. Em certo momento, assistimos todo processo de venda e realização de uma foto, o fotógrafo nesse meio, precisa também ser um bom vendedor, persuadir e convencer o futuro cliente da importância da recordação, e nesse momento o diretor parece ter acertado ao ponto de conseguir alguns bons risos dos espectadores.
Na verdade a narrativa se constrói de forma leve, bonita e livre, sim livre, passando ao espectador mais que um bom retrato da vida de fotógrafos, mas uma mostra que não se prende a um sentido, mas corre até por dramas - como a morte. Esse é um tema tratado com bastante delicadeza, que é rico antropologicamente quando é marcada essa diferença cultural do nordestino de fotografar seus mortos. É interessante perceber essa estranheza que fica no ar - lá é algo “natural”, no sentido que a morte também faz parte da vida, e assim como o nascimento é registrado, a morte também o deve ser.
Mas não é só de flores que vivem esses profissionais, diante da onda de digitalização que invadiu o campo da fotografia, a popularização e o barateamento dos custos se tornaram problemas para a comercialização de fotos. O filme além disso, nos dá a oportunidade de ver a formação da imagem daquela maneira mecânica, de uma câmera de grande formato, e este talvez seja esse o momento que o filme mais se presta ao papel de documentário à risca, sendo assim um retrato do processo da imagem em uma raridade que dentro de alguns anos não encontraremos no país.
A experiência de assistir um filme assim é profundamente marcada pela noção de prazer por aquilo que fazemos. Em mais de um momento a confissão dos fotógrafos de que não deixariam de fotografar, que só parariam com a morte, nos leva concluir que mais que uma profissão, trabalho ou técnica, a fotografia é feita por prazer, prazer este que só é sentido quando se fotografa, quando se tem a possibilidade de capturar em apenas frações de segundos o sentimento e emoção de um momento ou pessoa que será guardado na lembrança e recordado enquanto aquela imagem durar.
Câmara Viajante. (Documentário) Direção de Joe Pimentel. Roteiro de Joe Pimentel, Isabela Veras. Fotografia de Eusélio Gadelha. Brasil, Trio Filmes, 2007, 20 min, Color., 35mm.
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Nota:
1 - Crítica da revista de cinema Moviola: “Em muitos momentos parece um programa de TV, desses que Regina Casé apresenta há anos. E esse é um risco comum quando se busca documentar a cultura popular. O discurso televisivo é muito presente nesse enfoque. É difícil para o realizador se afastar dessa forma dominante de representação.”
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