Consciência que nutre o folclore

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
1/7/2006 · 69 · 2
 

“Preservar a natureza é preservar o próprio homem”, o verso de Santuário esmeralda (2003), uma das toadas mais prestigiadas na história do Festival de Parintins, consolida na manifestação do folclore o reflexo da realidade sócio-ambiental que une manejo e preservação, visando a possibilidade do desenvolvimento. Em 2006, a Festa da Soltura dos Quelônios, realizada na Comunidade do Aninga, localizada a 10 quilômetros de Parintins, celebrou o sétimo ano de uma iniciativa nascida entre os próprios habitantes frente ao problema de escassez que ameaçava, principalmente, a espécie dos tracajás (foto).

O alarme inicial foi dado pela própria natureza. “A idéia surgiu porque tava se acabando mesmo”, conta o líder da comunidade, Sidnei Carvalho, 28, explicando que o hábito da captura indiscriminada dos quelônios era o culpado pela dificuldade que passou a ser encontrar os animais. “Foi o momento que a gente se espertou pra fazer”, afirma, lembrando ainda que a carne de tartaruga sempre foi muito apreciada na culinária popular dos amazonenses.

A Comunidade do Aninga possui ao todo cerca de 60 famílias, segundo Sidnei, a maioria vive da pesca com outra pequena parte empregada no município, trabalhando como professores e funcionários na Escola Santa Terezinha do Aninga. Logo, sendo a pesca a principal fonte de renda e subsistência dos moradores, o primeiro passo foi conversar sobre o problema para encontrar as soluções. “A gente decidiu ir até os lugares onde elas desovam, chega setembro até novembro elas estão na época delas”, explica, ressaltando ser este o período de vazante nos rios amazônicos com a formação abundante de praias.

Merece destaque na iniciativa da comunidade do Aninga o envolvimento dos alunos da escola. “É um trabalho voluntário, a gente não tem recursos oficiais então se trabalha com o que tem, daí as escolas são envolvidas”, afirma. Sidnei comenta outra vantagem no envolvimento dos alunos, já que um dos maiores problemas no início foi convencer alguns ribeirinhos a soltarem quelônios capturados nas redes junto com o pescado. “As crianças estão tendo uma conscientização que os adultos não tiveram, isso vai garantir que a gente tenha mais tracajá no futuro”.

Coleta pela vida

Não é apenas esperar os meses da vazante, os comunitários precisam viajar três horas rio acima de rabeta – tipo de canoa com motor – até os locais de desova. “As tartarugas desovam à noite, então fazemos a coleta pela manhã e transferimos para a comunidade”, explica Sidnei, que lembra com bom humor da primeira vez que abrigaram os ovos. “Foi tudo na curiosidade, fizemos uns potes de barro simulando o mesmo formato que teria a cova, funcionou”, comemora.

Aguardando entre 60 a 80 dias para a eclosão dos ovos, as tartarugas recém-nascidas são colocadas em um tanque que funciona como um berçário improvisado até o momento que, segundo os comunitários, elas podem ser levadas ao rio. “Nesses sete anos já asseguramos a soltura entre 10 a 15 mil filhotes”, comemora Sidnei.

Festa de comunidades organizadas

A Festa da Soltura dos Quelônios da Comunidade do Aninga já é um evento conhecido do parintinense e sua sétima edição foi amplamente divulgada pela mídia local. Lanche para as crianças, música ao vivo e um grande almoço com galinha caipira no prato principal (claro que não seria tartaruga).

A perspectiva do cuidado com as espécies é a melhor possível com outras duas comunidades atuando na proteção de quelônios com iniciativas da mesma natureza. O ano de 2006, marcou o primeiro ano em que outras duas comunidades se juntaram ao Aninga para festejar sua soltura na mesma época. Macurani e Parananema realizaram suas festas dias antes em uma seqüência de comemorações pela vida. E como uma das atrações do evento, lá estava ele, o folclore da Ilha que exalta preservação por meio do boi-mirim Mimosinho, da comunidade do Aninga, a mesma que foi a morada do antigo bumbá Fita Verde e que testemunhou o Caprichoso nascer há quase um século. Parintins é uma terra de muitas lições, e em uma delas, no que depender do caboclo parintinense, a natureza e o folclore nunca desaparecerão.

Santuário esmeralda
(Demetrios Haidos / Geandro Pantoja)

Amazônia,
Santuário esmeralda,
Pôr-do-sol beija tuas águas,
Pátria verde florescida,
Pelas lágrimas caídas,
A grinalda do luar vem te abençoar.
Berço de rios, florestas, lagos, cachoeiras,
O encontro das águas nas cores da natureza,
Anavilhanas, Jaú, Janauari, Macuricanã, Mamirauá.

Teus santuários ecológicos (reservas, mananciais),
Murmuram uma triste oração:
A nossa fauna corre o risco de extinção,
Onça pintada, cutia, preguiça, tamanduá bandeira,
Ariranha, peixe-boi, tartaruga, sauim-de-coleira.

A revoada dos pássaros,
A dança da liberdade,
Não tire as penas da vida proteja a biodiversidade,
Do meio da Amazônia,
Bicho folharal cantará,
“Preservar a natureza é preservar o próprio homem”
Mãe, mãe natureza!

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Mariana Reis
 

Foto excelente!

Mariana Reis · Olinda, PE 2/7/2006 10:28
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Yusseff Abrahim
 

Obrigado mesmo!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 11/7/2006 16:42
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