Coquetel Molotov na guerrilha da produção cultural

João Z
A equipe do Coquetel Molotov: Viviane, Aninha, Jarmeson e Tathianna
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Bruno Nogueira · Recife, PE
29/8/2006 · 202 · 0
 

Nos próximos dias 1 e 2 de setembro, acontece em Recife a terceira edição do festival No Ar: Coquetel Molotov. É um festival novo, feito por pessoas bastante novas, com um perfil bem específico. O nome é bem sugestivo para o que começou com a intenção de cumprir tabela nas aulas de jornalismo na faculdade e acabou conquistando as freqüências moduladas; e explodiu em um coletivo que é também revista, selo e agora festival.

A atividade do Coquetel é um passo mais significativo na renovação da cena pernambucana. A carência que a região tinha para novidades refletiu na velocidade em que o evento foi bem recebido pelo público e, principalmente, pela imprensa local.
O Coquetel é formado por Ana Garcia, Tathianna Nunes, Jarmeson de Lima e Viviane Menezes. As duas primeiras responderam esse entrevista, específicamente sobre as dificuldades de inserção, legitimação e formação de um novo mercado local.

Overmundo: Quando foi que você teve o estalo da idéia "Preciso fazer um festival"?

Aninha: Quando tivemos a oportunidade de levar o Teenage Fanclub para Recife, aproveitamos para criar um festival. Aí convidamos artistas que gostamos e pensamos em dar o nome de No Ar Coquetel Molotov. Preciso dizer que a inspiração do nome veio do Sonar (Som no ar...) e foi também uma homenagem ao nosso programa de rádio. Mas, bem, antes mesmo do show do Teenage Fanclub, já estávamos escrevendo projetos para o Ministério da Cultura e tínhamos começado a conversar com algumas empresas sobre apoio e patrocínio. Ou seja, queríamos fazer algo com o Coquetel Molotov que fosse além do programa de rádio... Tínhamos criado o site e percebemos que Recife estava realmente aberto, ou carente, a algo com uma proposta um pouco mais inovadora. No fim, eu acredito que a nossa motivação seja igual para todos os nossos projetos – queremos escutar e assistir a bandas que nunca têm a oportunidade de tocarem em Recife e que achamos legais. Eu cresci dentro de uma família musical, então foi fácil aprender a colocar as idéias no papel, mas a produção nós aprendemos na raça mesmo... Ainda está sendo um bom processo!

Tathi: Além de tudo o que Aninha disse, a idéia de construir algo além de um programa de rádio com pessoas queridas (porque antes de produtores e jornalistas, somos amigos de faculdade) sempre foi presente no CM e que cresceu absurdamente quando Aninha resolveu passar uma temporada em São Paulo e o grupo simplesmente precisava se reunir novamente. Acho que o Coquetel teria acabado se tivesse continuado apenas como um programa de rádio.

Overmundo: O que é mais difícil de fazer na produção de um evento do porte do Coquetel?

Aninha: Achamos muito importante fazer as coisas pessoalmente, desde assessoria, fechar os apoios, contatos com as bandas, a panfletagem. Então, a dificuldade está em conseguir produzir um festival com uma equipe com apenas quatro pessoas. Sabemos que não podemos continuar assim por muito tempo porque o festival está crescendo, mas espero nunca perder esse detalhe tão importante. Eu percebo uma diferença muito grande do nosso festival aos outros – que é a atenção que temos com os artistas e com as pessoas que trabalham dentro do evento. Lembrando que a produção de qualquer projeto do Coquetel Molotov sempre envolve várias pessoas, como a Mooz, as bandas, instituições...

Tathi: E tem a questão do apoio. Trabalhamos com um orçamento apertado e isso atrapalha bastante.

Overmundo: O Coquetel são várias mentes pensantes. Algumas com perfis bem diferentes. Como vocês chegam na programação final do evento?

Aninha: Com certeza somos bem diferentes, mas temos uma sintonia incrível e sabemos o que cada um acharia legal dentro de um festival. Então, quando alguém consegue um contato ou fecha uma banda, normalmente todos concordam. Também sabemos um pouco do sonho de cada um, o que é ótimo, assim na hora de escolher os artistas, já sabemos quem chamar. Sabíamos que Viviane estava louca para convidar CocoRosie e coincidiu a vinda das meninas para o festival Mutzi que acabou rolando na mesma época. Eu e Tathi queríamos convidar Tortoise, já Jarmeson fez uma enquete no Orkut e chegou a conclusão que o público queria Júpiter Maçã e Móveis Coloniais de Acaju... Não sei, mas a programação era bem óbvia para a equipe, é algo que não sei explicar... Acho que isso é um resultado do grande convívio que temos e dos nossos projetos.

Tathi: Essa sintonia acaba presente em todos os projetos do CM.. A diferença, aqui, tem ajudado bastante até agora e espero que continue por muito tempo.

Overmundo: Como vocês lidam sendo ao mesmo tempo mídia - a revista e a rádio - produção de festival e também de bandas? Vocês tentam evitar falar / expor sobre o que produzem? Ou a revista/festival serve mesmo de vitrine?

Aninha: Esse ano, tivemos a nossa primeira derrota que foi não conseguir produzir a segunda revista... Acho que falamos demais sobre a segunda edição, criamos uma expectativa, não apenas para os leitores, mas para os músicos e até para nós mesmo, e não saiu. Tem sido algo tão triste que nem gosto de falar muito a respeito... A revista foi um sonho realizado e daremos tudo de nós para que ela saia direito a partir do próximo ano. Como disse anteriormente, acho que o Coquetel Molotov tem muitos projetos e poucas pessoas envolvidas. Pelo fato de não termos lucro nós precisamos trabalhar com coisas não relacionadas ao Coquetel Molotov. Tathi e Viviane ainda estudam e eu sou mãe. Mas eu acho que a revista / festival é uma vitrine, claro, porque já que tudo acaba sendo feito na brodagem, o mínimo que podemos oferecer para esses artistas, seja das artes visuais ou músicos, é uma vitrine.

Tathi: Hmm.. Não consigo separar os projetos do Coquetel. Claro que, por serem muitos projetos dentro de um, um acabe andando mais do que o outro. Mas, sempre que penso e falo no CM, penso no conjunto e por isso não procuro evitar falar e/ou expor o conjunto do nosso trabalho.

Overmundo: Tantos produtos permitem um contato próximo demais com os músicos, que geralmente outros jornalistas não conseguem ter. Consequentemente, um contato com as carências de uma cadeia produtiva. Como vocês se envolvem com essas necessidades do meio musical?

Tathi: É. Realmente é um envolvimento que ultrapassa as barreiras apenas de um contato profissional. Acabamos amigos de músicos e produtores e, assim, dividimos com eles as carências do mercado que anda nos afetando muito. Mas, gosto desse envolvimento. Como Aninha disse anteriormente, esse contato mais pessoal com quem trabalhamos dá mais graça ao negócio e ficamos sabendo de mais fofocas também que é sempre bom.

Overmundo: O Coquetel Molotov faz parte, ou pretende fazer, da Associação Brasileira de Festivais Independentes? O que vocês acham da Abrafim?

Aninha: Não fazemos parte, nunca recebemos um convite e para ser sincera, eu realmente não sei do que se trata. Uma vez convidamos Rodrigo Lariú e Fabrício Nobre durante o Porto Musical para participar do nosso programa de rádio e eles falaram um pouco sobre o assunto, mas achei tudo um pouco contraditório. Ainda estavam formulando as regras, mas já tinham um monte de exceções...

Overmundo: Qual a maior dificuldade que vocês têm, num nível mais pessoal, de se legitimar como um festival? Não falo de dificuldades técnicas, mas coisas com idade, sexo, naturalidade.

Aninha: Com certeza ainda estar na casa dos 20 e ser mulher nessa área produção / jornalismo é complicado... Várias vezes perguntam a nossa idade antes de começar uma reunião... A nossa sorte é que Recife é uma cidade pequena e depois de duas ou três reuniões, eles entendem que somos sérios. Deve ser a minha agenda de florzinha. Mas sinceramente, o nosso problema não é idade e nem sexo, mas sim a falta de uma política cultural séria na cidade.

Tathi: Além do festival, nós acabamos entrando em turnê com os grupos. Tanto o TFC em 2004, tando o Dungen em 2005, ficavam admirados porque duas meninas estavam ocupando o papel de “tour manager”. Acho que eles gostaram de trabalhar conosco.. Pelo menos, foi o que eles disseram. A questão do sexo e a idade a gente passa por cima, o problema de falta de direcionamento na política cultural pesa mais. E, Aninha, no próximo ano vou te dar uma agenda de capa de couro preta.

Aninha: Hahaha... A agenda de Tathi tem florzinhas também!

Overmundo: Vocês já conseguiram conquistar muita coisa. O que vocês planejam para o Coquetel agora? Qual o próximo passo?

Aninha: Ai, não acho que conquistamos muita coisa... Eu acho importante conseguir manter os nossos projetos. Isso é o principal. Conseguir fazer as coisas e poder pagar os músicos e artistas envolvidos nos nossos projetos. Sinceramente, o Coquetel Molotov é um coletivo bem grande mesmo... Porque ele só pode existir com a colaboração de todos. Mas falando sobre o futuro, isso é um plano importante – descobrir a forma de manter os nossos projetos. Também vamos abrir uma sala do Coquetel Molotov! Woohoo. Será em Setúbal, dentro de um estúdio.

Tathi: Ainda bem que o escritório vai ser perto de casa.

Você pode conferir outra entrevista com o Coquetel Molotov, feita por Ronaldo Lemos, também aqui no Overmundo.

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