O documentário “O mundo macro e micro do mosquito Aedes aegypti: para combatê-lo é preciso conhecê-lo”, dirigido por Genilton José Vieira, chefe do Serviço de Produção e Tratamento de Imagens do Instituto Oswaldo Cruz (ligado à Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz), é uma contribuição para o entendimento do ciclo de vida do mosquito – e de como a ciência pode se integrar à arte obtendo bons resultados.
O filme, de cerca de 12 minutos de duração, mostra uma sequência de imagens do ciclo de vida do vetor, utilizando recursos de macrofotografia e macrofilmagem, além de computação gráfica. O documentário foi feito utilizando imagens reais — capturadas com uma espécie de lupa acoplada a uma câmera — e virtuais — estas produzidas por computação gráfica - descrevendo o ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti. Estas imagens – muitas nunca mostradas no Brasil ao público leigo - incluem a apresentação de eventos morfológicos do mosquito, a maioria imperceptível a olho nu: o ovo, a fase larvária, a diferenciação de larva para pupa e a fase adulta do mosquito, caracterizando, dessa forma, o seu ciclo de vida em seus criadouros naturais e artificiais.
O documentário apresenta apenas uma narração na abertura explicando o conteúdo do filme. No restante, as imagens são exibidas acompanhadas de uma trilha sonora. O diretor do filme, Genilton Vieira, que teve o auxílio direto de seu colega de departamento, Leonardo Marcus Perim, na realização das animações, explica que o documentário é basicamente estruturado em imagem e música. Ele resume a obra como uma reunião bem sucedida da arte com a ciência.
Reconhecimento
O documentário começou a ser produzido durante uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro, em 2002 – que depois teve alcance nacional, com 800 mil casos registrados. Foram dois anos de produção – o filme foi finalizado em 2004. Até 2008, países do Exterior pediram 131 cópias do filme. No Brasil, está conta ultrapassa 10 mil. Muitos pedidos foram atendidos informando o endereço eletrônico na Internet para acesso ao filme, na íntegra, pelo portal do Instituto Oswaldo Cruz. Foram produzidas três mil cópias do documentário.
O acesso ao filme pela Internet segue o foco de dengue. Onde há muita visita na Internet ao filme, o local pode estar passando por uma epidemia de dengue. A epidemia de dengue na Bahia no início de 2009, por exemplo, fez com que o filme fosse muito acessado na região pela Internet, de acordo base de dados de contagem de acesso ao portal do IOC.
A primeira apresentação pública do documentário “O mundo macro e micro do mosquito Aedes aegypti” foi no II Simpósio de Ciência, Arte e Cidadania, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2004. Depois disso, ganhou carreira internacional e obteve vários prêmios.
O documentário foi premiado, por exemplo, com 2º lugar no festival internacional de cinema Mif-Sciences, em Havana, Cuba, em junho de 2006 – o trabalho concorreu com 116 produções audiovisuais de diversos países. Genilton Vieira chorou com a premiação, mas acharam que o diretor tinha se abatido com a segunda colocação. Na verdade, estava em prantos de alegria com o reconhecimento.
O filme foi a única produção brasileira a participar do 15º Festival de Cinema sobre Medicina, Saúde e Telemedicina (VIDEOMED), realizado em novembro de 2006, em Badajoz, na Espanha, no qual ganhou também menção honrosa.
Na mesma época, Genilton Vieira foi convidado inesperadamente para participar da reunião da Associação Mundial de Filmes de Medicina e Saúde, também em Badajoz, tornando-se membro da sociedade na ocasião. Genilton Vieira já estava com passagem marcada para Madri. Porém, pediram para que ficasse para o encontro da entidade. A bandeira brasileira foi postada às pressas na recepção da reunião. Para isso, improvisaram uma bandeira nacional, revelou Genilton Vieira sobre o inesperado convite, fruto da repercussão de seu filme no VIDEOMED, que aconteceu quase que simultaneamente ao encontro da associação.
O documentário foi exibido ainda na jornada mensal de cinema científico da Associação Espanhola de Cinema Científico (ASECIC), que aconteceu em Madri, em março de 2007, e na 2º Conferência Internacional EMTECH / 44º Festival Internacional TECHFILM, em Praga, na República Tcheca, também em março de 2007. Neste último, recebeu menção honrosa pelo filme - foram mais de 350 filmes inscritos, 120 selecionados para a final e apenas 12 contemplados. O Techfilm é a principal e mais antiga mostra de filmes científicos do mundo.
Em abril de 2007, o filme foi apresentado no Festival Internacional de Filmes Científicos de Atenas, na Grécia — única produção latino-americana dentre os 40 filmes selecionados —, e voltou a ser premiado.
Em encontro anual, realizada em novembro 2007, em Paris, na França, a Associação Internacional de Mídia Científica (IAMS, da sigla em inglês) também aceitou Genilton Vieira como seu mais novo membro. O grupo reúne os mais importantes profissionais dedicados à produção e ao desenvolvimento de mídia científica no mundo – existem 112 membros. Genilton Vieira foi o segundo brasileiro a ingressar na entidade e o terceiro sul-americano.
O documentário sobre Aedes aegypti impulsionou a realização pela primeira vez no Brasil, em novembro de 2007, do VIDEOMED. O evento, que aconteceu no Rio de Janeiro, é realizado desde 1985, na Espanha e em países da América Latina.
Os canais de televisão por assinatura Discovery Channel e Animal Planet exibiram em junho de 2008 e no início de 2009, na grade da programação brasileira, uma versão compacta de três minutos do documentário.
Ser um brasileiro a participar de festivais internacionais foi bom por um lado, de acordo com Genilton Vieira, mas também expôs a deficiência no Brasil na divulgação científica. No festival Mif-Sciences (Cuba), onde o documentário sobre o Aedes aegypti foi pela primeira vez premiado, foram exibidos 34 filmes da Argentina, nove do Chile e seis de Cuba. Do Brasil, só o dele.
Desenvolvimento do primeiro documentário da dengue
Genilton Vieira nasceu em 1956. Começou a fotografar aos 14 anos, incentivado por um vizinho químico, que conhecia as técnicas de revelação e fixação de imagem fotográfica. Antes, já tinha interesse pela natureza – colecionava grilo, por exemplo. Chegou a fazer um curso de fotografia no Senac. Trabalhou com office boy no CIEE (Centro Integrado Empresa-Escola) de Nova Iguaçu, ainda adolescente.
Depois, Genilton Vieira se formou em Física. Começou na UFF (Universidade Federal Fluminense) e terminou na FAHUPE (Faculdade de Humanidades Pedro II). Em ambas instituições de ensino, ajudou a área de pesquisa na produção de imagens. Como precisava ganhar dinheiro, mesmo ainda cursando a universidade, passou um período trabalhando em uma produtora de comercial. Na agência, conheceu todas as etapas de produção de um filme.
Em 1981, ingressou na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) como fotógrafo. A partir daí, se aprofundou nos conceitos de macrofotografia e especificamente do mosquito transmissor da dengue.
Pesquisadores brasileiros na década de 80 estudavam o aspecto morfológico do mosquito Aedes. Porém, eles se deparavam com um problema grande: não tinham imagem de mosquito no Brasil. Eles usavam foto proveniente dos Estados Unidos. Foi a partir desse problema que Genilton Vieira despertou para a produção de imagens na área, passando, posteriormente, a dominar as técnicas de filmagem e fotografia neste campo. Na época, ninguém dominava a filmagem de mosquito em movimento no País. A proposta dele era trabalhar com o mosquito vivo e não morto.
Em 2001, com a epidemia da dengue, o Governo Federal quis criar uma rede ampla de discussão pelo Brasil em torno do tema. A da Fiocruz foi a que mais funcionou. Genilton Vieira, a partir de então, começou a montar o documentário (ele já tinha vasto acervo de imagens), entendendo a importância de realizá-lo em função das discussões criadas por conta da atualidade do assunto.
O jornal diário O Globo, no auge da epidemia do verão 2001/2002, foi entrevistar pesquisadores da Fiocruz sobre o problema que o Rio de Janeiro estava enfrentando. O veículo de comunicação foi até a instituição e encontrou um foto do mosquito Aedes aegypti presa à parede, no laboratório dos pesquisadores da instituição. Então, eles perguntaram onde encontravam mais imagens do mosquito. Genilton Vieira foi indicado para o jornal.
No dia seguinte, uma editora de O Globo telefonou para Genilton Vieira. Conversaram e ele informou que o jornal usava foto errada nas matérias que publicava sobre a dengue: não era do vetor Aedes aegypti, mas sim de um Aedes fluviatilis, que nem dengue transmite. Genilton Vieira foi informado pelo veículo que a foto foi retirada na internet, de um site nos Estados Unidos. Assim, O Globo pediu fotos do mosquito a Genilton Vieira, com exclusividade. Suas fotos foram publicadas em uma edição de domingo do jornal, com chamada de capa.
Em 2004, um esboço do documentário foi apresentado por membros no PDTSP (Programa de Desenvolvimento e Inovação Tecnológico em Saúde Pública), da Fiocruz. O programa pretendia criar produtos para combater a dengue. Em uma sala repleta de pesquisadores, o seu trabalho foi aplaudido de pé. No encontro, os pesquisadores argumentaram ser o único produto criado até aquele momento que poderia levar resultado efetivo no combate à doença. Foi a partir de então que liberam recurso financeiro destinado exclusivamente para finalizar o documentário, que não havia até aquele momento. O gasto total com o filme foi em torno de R$ 130 mil. Ainda no mesmo ano, o filme ficou pronto.
Novo documentário
“Aedes aegypti e Aedes albopictus – Uma Ameaça nos Trópicos” é o título do segundo documentário sobre os transmissores da dengue dirigido por Genilton Vieira, lançado em 2009. O filme, como o primeiro, é composto de imagens reais e virtuais dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, mostrando os continentes de origem, a sua dispersão pelo mundo, as suas características morfológicas, os seus hábitos alimentares, os seus mecanismos de alimentação, a sua reprodução e o ambiente onde vivem. A linguagem é diferente do primeiro. Este, o trabalho é mais didático e tem narração durante todo o tempo de exibição. No segundo documentário, a trilha sonora é ainda composta de instrumentos de percussão a partir de materiais jogados no lixo, como latas, tubos etc.
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