"Elis" e a angústia

cena do filme "Elis" (2016), com Andreia Horta (foto) e dirigido por Hugo Prata
1
saulomdourado · Salvador, BA
27/11/2016 · 0 · 0
 

Ontem vi "Elis" e fiquei ainda mais admirado por ela. Não porque o filme a tenha captado bem, justo pelo contrário. A dificuldade dos tantos bons artistas, roteiristas e diretor envolvidos no projeto de filmar a vida da "maior cantora do país" mostra o quanto ela era maior, e como é impraticável puxar seus tantos fios em uma narrativa só.

Ninguém é fácil de se analisar, aliás. Cada um de nós tem um enredo externo de coerência para ser mais compreensível ante os outros. Que seja diferente no íntimo é óbvio, mas não por contradição ou inconsistência, apenas porque a vida pública é cheia de gente, e a convivência entre tantos requer imagens mais gerais. Quem se aproxime dê o zoom e veja as lacunas.

Agora, representar o todo de Elis por seu jeito expansivo, espevitado, que sabem lá os mistérios se era sua forma de lidar com a multidão anônima, é ficar no limbo entre o público e o privado. Talvez venha daí a falta de fôlego para se entender e representar a angústia de Elis no final da vida. Pareceu no filme uma histeria excitada por drogas, quando se intui dela muito mais uma vontade superior de liberdade, uma revolta.

A dificuldade de mostrar esta angústia, que tenta ser descrita por falas a rádios, ao dançarino estrangeiro, aos filhos no quintal, mas em vão, pode também vir da confiança na leitura carioca da personalidade de Elis. Seus biógrafos talvez sejam muito voltados ao Rio de Janeiro, à Copacabana, quando até por suas escolhas de canções, para começar, Elis era o campado dos pampas, a serenidade mineira, o messianismo do sertão, a espiritualidade etérea. Aposto que Milton Nascimento a viu de uma maneira muito distinta dessa personagem (e quem sabe por isso não conseguiu entrar na história). Acredito que ela fosse um prisma, nas palavras dela, uma "estrela". Quem foca sem zoom perde.

O riso, as provocações, as irritações, as performances de Elis Regina estão perfeitos no filme, porque é mesmo seu lado cênico. O outro lado, bem mais sutil, não apareceu para se entender seu desfecho. Suspeito o quanto a confusão que essa amostra de si causava a relegou a uma solidão na plateia, ainda mais pelos tantos padrões cobrados, pelas sugestões de marketing, pela imensa visibilidade, pelas questões de gênero e de maternidade.

Então, quem for assistir, e deve assistir, acautele-se e não se precipite, tanto com ela quanto com os vivos, ou quase vivos.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados