Extremos à mostra

Gina Emanuela
Pés à mostra
1
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
21/10/2007 · 78 · 0
 

São duas da tarde de uma quarta-feira de setembro. Na janela da van, os pés calçam All Star, o modelo tradicional, preto com bico e cadarços brancos. Dois pares que se desprendem da mesma perna. Pés unidimensionais, fixos no espaço e no tempo.

O cobrador dá informações, diz que os folhetos estão com o motorista. Mangas arregaçadas, barba por fazer, o motorista, homem de meia-idade, buzina para um carro que manobra na entrada do estacionamento de um hospital particular, na avenida Pontes Vieira. A despeito de qualquer problema no trânsito da cidade, a foto com jeitão de cartaz convida: Aos Extremos.

“O cotidiano está cheio de brechas”, assegura Gina. Ela tem cabelos longos e vermelhos. E cuida dos pés.

Quinta-feira, nove da manhã: novos extremos. Como numa prece, as quatro mãos encontram-se postas. O toque entre elas é suave, lembra algo sagrado, ritualístico. São diferentes das mãos que giram a torneira amarela, também estampada em foto – uma torneira amarela é tão incomum quanto dois ou mais pares de pés e mãos siameses ou fotos afixadas em janelas.

“Buscamos encontrar os pontos de ruptura do cotidiano dos passageiros sem agredir. Encontramos o não óbvio com bastante harmonia através da manipulação”, escreve Wilton. Ele cuida das mãos; brinca com espelhos.

Estes, em especial, chamam a atenção. São pés femininos, têm um belíssimo desenho, os dedos alongados, o peito curvilíneo, as unhas bem aparadas. O direito descansa numa bacia de alumínio contendo um pouco d’água e algumas pétalas vermelhas. Era sexta-feira, entre uma e cinco da tarde.

“O nome da exposição é Aos Extremos porque retratamos pés e mãos, as extremidades do corpo”, diz Gina, didática.

Três dias depois. Os demais parecem cochilar. O interior da van está livre, só cinco ou seis passageiros a bordo, nenhum dos quais particularmente interessado em qualquer coisa além dos próprios extremos.

De repente um olhar.

Livre, pousa rapidamente sobre os pares de tênis. Em seguida, atravessa a janela e se fixa no fluxo raso de veículos, mira qualquer coisa perdida na fervura do asfalto e retorna ao interior sem graça. Volta-se novamente aos pés.

É bem possível que soubessem, que tivessem percebido os riscos e calculado tudo de modo a, somadas as perdas e danos, nada, ao final, ter realmente alguma importância exagerada além da conferida à própria arte. Há, sim, brechas ou ranhuras ou riscos no metálico da pintura, fendas no calçamento. O olhar - cativo dos sapatos engraçados, das mãos duplicadas, dos pés embebidos em pétalas – comprova.

“Poderíamos também relacionar esse termo, ‘extremo’, à maneira pela qual decidimos expor, saindo do âmbito de arte de galeria pra irmos para arte de rua”, complementa Wilton.


EXTREMADOS...


Gina Emanuela captura imagens e as reflete sobre alguma superfície. É estudante do curso de especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, na Federal do Ceará. Wilton Matos fotografa. Além disso, é “compositor, violonista, flautista e pintor das minhas blusas.” Ambos integram o projeto de inclusão visual Gota de Luz. Eles são os autores das vinte fotos espalhadas numa das mais frenéticas linhas de transporte alternativo de Fortaleza: a de número 55.


O ESPAÇO...

A linha escolhida cinde Fortaleza em duas e leva pelo menos uma hora e vinte minutos para ir de um limite a outro, percorrendo uma boa distância através de algumas das vias mais movimentadas da cidade. Ao longo do trajeto, pesca usuários que foram a) às compras, b) ao trabalho ou c) à escola/ universidade. Além de d) eventuais assaltantes.

A 55 se notabilizou por transportar um contingente formado quase sempre por estudantes, universitários ou não, e por transformar cada viagem numa aula prática sobre Movimento Uniformemente Variado (MUV), coeficiente de atrito, termologia, queda livre, lançamento horizontal, força gravitacional etc. A ela foram dedicadas algumas comunidades no Orkut e um programa de rádio, produzido por alunos de jornalismo da UFC e levado ao ar com grande sucesso. Em tom de pastiche, os estudantes dramatizaram algumas das situações mais comuns na rotina de quem depende dos ônibus e vans.


PÉS E MÃOS EXPOSTOS...

“A idéia surgiu do Wilton. Ele observou que eu tinha uma tendência para fotografar pés, passou a fotografar mãos e sugeriu que fizéssemos uma exposição sobre o tema”, explica Gina. Embora somente agora, por razões estritamente técnicas, a reportagem tenha podido vir à luz, a exposição, que teve início no longínquo 6 de agosto, se encerrou em 9 de setembro. As fotografias, entretanto, ainda podem ser conferidas no site www.aosextremos.nafoto.net.

A questão, portanto, é mais ou menos esta: existe ruptura, quebra, susto possíveis? A dupla garante que sim: no meio de tanta correria, quando todos se vêem sobraçando informação, o que vale é a busca. Que pode ser do inusitado, inusual – algo que, ao valer-se das tais “brechas no cotidiano”, faça sentir e pensar.

“Quando decidimos expor nas topics, não alimentei nenhuma expectativa. Estava, primeiro, atendendo uma necessidade interior. Mas das vezes que peguei a topic notei que algumas pessoas nem reparavam na foto e outras já estavam inteiradas e acompanhavam a exposição. Paguei pra ver o 8 e o 80. Acabei levando o 76, 43, 21...”, conta Wilton. Pagou para ver os extremos; deparou-se, surpreso, com os intermediários.

Manipulação digital, alteração das cores naturais e espelhamento foram as técnicas utilizadas no tratamento das imagens. Ao final, obteve-se a desregulamentação do real. O desatino.

“O cotidiano é uma tentativa de normatização do imprevisível, uma construção que denuncia nossa necessidade de controle sobre as coisas do mundo”, teoriza Gina. “Mas torna-se uma abstração, porque não há como um dia ser igual ao outro. Podem ser similares porque têm certas diretrizes básicas, mas igual, não, e é aí que se encontram as brechas.”

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