Família Pereira... a resistência fandangueira

Reprodução Museu Vivo do Fandango - Foto: Bela Pagliosa
Família Pereira
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EduardoS · Guaraqueçaba, PR
7/11/2007 · 90 · 1
 

Ainda lembro muito bem, noite de chuvinha fina, daquelas que nem compensam um bom guarda-chuva, festa de aniversário da cidade, e se não me engano, 451 anos de Guaraqueçaba.
Era março de 96, pois lembro também que não era mais Cruzeiro, nem Cruzeiro Real, e sim Real. O palco armado como sempre, uma lona preta recobria pra não molhar os equipamentos de som, e obviamente, os artistas. Era a primeira vez que eu via o fandango, num palco, em uma roda, com tamancos, rabecas, violas, adufes, e uns microfones mal regulados que não ajudavam na captação. Minha memória até que é boa, pois na época eu devia ter uns 9 anos passados, o que mais me chamou a atenção naquela noite foi uma certa relutância do público de cá, e de lá, e de acolá, e que não aprovava a apresentação de fandango. Isso aconteceu já há algum tempo, e as coisas mudaram, percebe-se claramente este novo contexto.

O que seria o Fandango?
No Brasil podemos encontrar Fandango no Nordeste, que se caracteriza como um auto dramático, também conhecido por Marujada, Chegança, entre outros. Afora é caracterizado como um baile sulista, no Rio Grande do Sul possui características próprias, assim como o Paranaense, que está ligado intimamente à Cultura Caiçara. É nos litorais Paulista e Paranaense que acontece o fandango com o qual estaremos lidando.
Fandango é uma manifestação cultural popular de cunho comunitário, está ligado aos mutirões, uma realização coletiva, como um roçado ou a construção de um telhado, por exemplo, onde todos trabalhavam o dia inteiro, e ao fim, o dono da propriedade oferecia uma festa como forma de pagamento, o fandango, que durava até o amanhecer do outro dia, ou mais.
É um gênero que reúne dança e música, executado com Violas, Rabeca, Adufe (pandeiro) e Tamancos. As modas, como são chamadas a música e dança, podem ser batidas ou valsadas, e possuem uma estrutura poética consistente, que varia também conforme o cantador e a região. Quanto à execução, existem regras e argumentos estéticos extremamente definidos, e acoplados a uma série de características que se diversificam a cada comunidade, como os tradicionalismos dos bailes, principais modas, formas de aprendizado, etc.
Atualmente, são poucas as notícias de realização de fandango de mutirão, acaba se configurando como apresentações culturais. Em Guaraqueçaba, se manifesta com grupos mirins que dançam e tocam, através de apresentações teatrais e de grupos tradicionais. Também existem bailes realizados esporadicamente em Superagui.

Família Pereira
O fandango deve muito a este pessoal, sem é claro desconsiderar todas as iniciativas e os fandangueiros locais, a Família Pereira é o exemplo mais forte da resistência. Talvez seja a única que ainda guarda as características mais tradicionais do fandango por ter permanecido isolada no interior de Guaraqueçaba durante mais de 50 anos. Rio dos Patos é uma comunidade onde só é possível chegar após algumas horas de navegação e uma boa caminhada por trilhas. Aos poucos o núcleo familiar foi se dispersando para outras comunidades da redondeza, em virtude das mudanças de costumes, novas legislações ambientais e problemas relacionados às características de economia de subsistência. Em 2000 se organizaram como um grupo de Fandango, em virtude do projeto “Fandango Subindo a Serra”, de Maria de Lurdes Brito (Lú Brito), para se apresentar no palco do SESC da Esquina, em Curitiba. De lá pra cá, já se apresentaram em diversas cidades do Paraná, no Rio de Janeiro, e tiveram instrumentos expostos até em Paris.
O grupo é “oficialmente” formado pela ala dos músicos, a ala dos que também batem o pé e diversas mulheres que dançam as modas batidas e valsadas em apresentações.
Dentre as figuraças, Leonildo, de sorriso fácil, é um dos líderes. Exímio tocador de viola, cantador e rabequeiro, e toda vez que a gente o encontra, já de longe você escuta “Aê Cunhado!”. Pensar que poderíamos falar em fandango hoje em dia e esquecer dele é quase um pecado. O difícil é encontra-lo, pois mora com a família em um local chamado Abacateiro, de frente para a Baía de Pinheiros e o único acesso é por mar. Constrói violas e rabecas e é grande incentivador e agitador do fandango por onde passa.

Nilo Pereira, atual morador de Guaraqueçaba, bairro do Cerquinho, além de cantar, toca viola, machete, cavaco e constrói instrumentos. É o “produtor” e grande responsável pela reorganização do grupo em 2000.
“Ah, eu juntei, né? Peguei um barco, porque eu sou o responsável pelo grupo, então, sou obrigado a fazer isso. Então, eu sou obrigado a juntar o grupo tudo, trazer aqui para a minha casa, fazer eles dormir aqui para viajar no outro dia. E levo lá e trago de volta para minha casa e daqui despacho eles de volta. Pego outro barco e levo cada um em sua casa.” (Fonte: Museu Vivo do Fandango. Página 85)

Sem falar nos outros, tão importantes quanto, Anísio, que constrói violas e rabecas como poucos, Heraldo, um dos filhos de Anísio, também construtor e ótimo rabequeiro e violeiro, tem ainda Zé Pereira, o “faz tudo” que constrói e toca de tudo, Pedro Pereira, auto-intitulado “o melhor rabequeiro do Brasil” e também Vicente, o único que não é Pereira, e sim França, agregado de outra família de fandangueiros.
Os Pereira são uma prole das mais frutíferas do fandango, e são sem dúvida uma das marcas do atual momento da cultura fandangueira.

A “Saga dos Pereira” tem gerado muitos resultados visíveis. Em 2001 gravaram o seu primeiro CD-Duplo, o “Viola Fandangueira”, juntamente com o Viola Quebrada, de Curitiba, em 2003 lançaram o CD “Fandango de Mutirão”, com o Grupo Mestre Romão (de Paranaguá) composto com o livro de mesmo nome, de Maria de Lurdes Brito. Também estiveram presentes no CD e Livro do Museu Vivo do Fandango. A Família Pereira encabeça a Associação dos Fandangueiros de Guaraqueçaba, fundada em 2001, que agregou outros fandangueiros e grupos desde então e em 2005 aprovou com outros apoios um projeto de Ponto de Cultura, a “Casa do Fandango de Guaraqueçaba”, que ainda está em processo de conveniamento.

Aquele pessoal que em meados de 90 foi recebido com resistência no palco da festa, hoje em dia é aplaudido de pé e com pedidos de “mais um, mais um...”, como aconteceu em 2007. Isto é um importante reflexo do trabalho que tem sido feito para o revigoramento do fandango como um coletivo de iniciativas, e que sem dúvida tem “Os Pereira” como um dos protagonistas.

E muita coisa ainda está por vir...

Informações sobre Fandango na internet:
Site do Museu Vivo do Fandango - Clique aqui
Texto sobre a Família Pereira - Clique aqui
Site da Associação Mandicuéra, de Paranaguá - Clique aqui

Fandango no Overmundo:
Seu Alcides mestre de fandango - Clique aqui
Os tamancos voltam a bater - Clique aqui

Fandango no Orkut
Fandango Paranaense Clique aqui
Fandango Paulista - Clique aqui
Fandangueiros de Itacuruçá - Clique aqui

Contatos com grupos:
Família Pereira – Nilo Pereira / (41) 9224-4112
Associação dos Fandangueiros – José Eiglmeier / (41) 3482-1332 / e-mail
Fâmulos de Bonifrates – Eduardo Schotten / (41) 9623-6796 / e-mail
Pirão do Mesmo - Artur Calado - e-mail

Downloads de músicas:
Ritmos Brasileiros - Clique Aqui

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llamar al pan
 

"até o amanhecer do outro dia..."

llamar al pan · Belo Horizonte, MG 6/11/2007 21:04
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CD - Viola Fandangueira (Viola Quebrada e Família Pereira) zoom
CD - Viola Fandangueira (Viola Quebrada e Família Pereira)
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Anísio Pereira
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Fandango em Guaraqueçaba
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Nilo Pereira construindo uma viola
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