Malfeito com Sinceridade

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Juliene Codognotto · São Paulo, SP
5/5/2007 · 96 · 1
 

Processo coletivo engajado, Fazendeiros e Posseiros abriu a II Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, da Petrobrás, que acontece no Centro Cultural São Paulo, entre 30 de abril e 6 de maio de 2007.

A montagem tem pouco valor estético e menos importância, ainda, se procurarmos inovação. Sem trilha, nem iluminação, a peça aposta na atuação, na poesia rimada das falas e, sobretudo, na transmissão (unilateral) de uma mensagem muito clara, a do Movimento Sem Terra.

Ficam frustradas todas as expectativas de se construir significados a partir de belas imagens, pois o conteúdo está lá, prontinho pra ser despejado sobre o público. No entanto, há que se considerar a atualidade de algumas metáforas, como a comparação entre um leilão de gado e um desfile de moda, com direito a uma famosa vaca chamada Isabelle Drumond.

Para entender o valor da obra e encontrar uma razão para o fato de estar na abertura da mostra, é preciso, antes, entender sua proposta e origem para, então, perceber que o que mais chama a atenção ali é a sinceridade que cada componente do grupo expressa. "Acabou", soltou um deles ao final do espetáculo, demonstrando que a mesma medida que há de convicção na verdade do que se diz, há de ingenuidade teatral.

O grupo Filhos da Mãe... Terra existe desde 2003, é amador e está entre os quase 40 grupos de teatro que funcionam em assentamentos e acampamentos do Movimento Sem Terra, por todo o Brasil. A organização fica por conta da brigada nacional Patativa de Assaré, cujo processo teve início em 2001 e foi concluído em 2005, com a ajuda de Augusto Boal e do Centro de Teatro do Oprimido.

Com tais influências, o grupo, que se encontra em Sarapuí (SP), no assentamento Carlos Lamarca, nasceu para reaproximar e reorganizar a juventude do movimento que, após os assentamentos, havia se distanciado para cuidar das terras individualmente.

A peça que apresentam é fruto de um trabalho coletivo coordenado por Douglas Estevam da Silva, também coordenador da Patativa. A dramaturgia, também coletiva, se baseia na peça Horácios e Curiácios, de Bertold Brecht, e em pesquisas em jornais, revistas e filmes sobre a situação da distribuição das terras no Brasil. A montagem usa texto acessível, piadas semi-prontas, coreografias divertidas, rima, tudo para envolver um "público-alvo" que, em muitos casos, nunca tinha ido ao teatro antes.

Uma das poucas sacadas que o grupo apresenta é a relação com temas e questões muito atuais. Um dos momentos mais marcantes, que só entende quem lê o jornal Terra Livre (distribuído durante o espetáculo), é o uso de uma frase do presidente Lula, retirada da Revista Caros Amigos de 2000 e colocada na boca de um personagem do coro: "Não se justifica num pais, por maior que seja, ter alguém com 30 mil alqueires de terra! Dois milhões de hectares de terra! Isso não tem justificativa em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil, porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos."

O Filhos da Mãe... Terra já foi a Brasília e ao Rio de Janeiro, mas fica muito claro que seu objetivo está longe de ser a apropriação de influências. A idéia é, sim, limitada e fechada, num exemplo típico de teatro pedagógico e político. Para o bem ou para o mal. O bem da causa e da verdade artística e o mal da estética teatral.

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Juliene Codognotto
 

Publicado originalmente na Revista Bacante

Juliene Codognotto · São Paulo, SP 2/5/2007 15:20
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