Nervoso é simples!

Divulgação
Nervoso e os Calmantes lançam disco sensacional.
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Elefante Bu · Brasília, DF
18/6/2009 · 2 · 0
 

Esta matéria foi originalmente publicada no zine Elefante Bu.

“É envelhecer/ se olhar no espelho/ ser tomado por saudáveis reações/ sem aquele vazio nebuloso/ deletado por plena satisfaçãoâ€

“Eu sei que nada tenho nada a ver com isso/ porém com o tempo pude perceber/ que certos caras nascem com o dom de campeão/ meu amigo, não quis o iludir/ um dia terás razão de se queixar/ porém não pense nisso, por enquanto/ pois tem saúde, atitude e pés no chãoâ€

“Sei que minha ex-esposa a incomoda/ e que meu filho é tudo que mais me importa/ mas meu amor saiba que dou valor a tudo que você representa para mimâ€


Esses versos de músicas só podem ser de autoria do Roberto e do Erasmo Carlos. Quem mais poderia ser simples nas palavras, ir direto ao ponto e mexe com os sentimentos. Afinal, há artistas que entendem da alma feminina, falam de amor como ninguém, são poéticos e tudo mais. Mas das coisas simples que vão ao coração, só mesmo Roberto e Erasmo. Verdade se não fosse um porém: os versos acima foram escritos por André Paixão.

É pouco provável que você tenha já ouvido falar do André Paixão. Ele é mais conhecido como Nervoso. No seu currículo estão participações de algumas bandas importantes da cena independente, como a Acabou La Tequila. Foi baterista e o apelido veio do seu jeito vigoroso de tocar. Depois resolveu investir na carreira solo, onde o primeiro disco, Saudades das Minhas Lembranças, foi um conjunto de hits desconhecidos pela grande massa. Faz mal não. O futuro há de fazer justiça.

Neste ano ele resolveu lançar um disco de banda. Daí surgiu Nervoso os Calmantes. “Na verdade, o nome ‘Calmantes’ foi uma solução que a gente achou para separar dos trabalhos que faço individualmente e até paralelamente à bandaâ€, disse Nervoso, “em 2005, por exemplo, nós abrimos para um show do Barão Vermelho e a banda era o Nervoso, o que ficou muito estranho. Depois fiz trilha para o Multishow: ‘trilha Nervoso’. Mas Nervoso é o cara ou é a banda? Então a gente achou que o nome Nervoso e os Calmantes foi uma solução ótima para batizar o pombo e até estimular a participação da banda. Os caras têm a minha idade, mais ou menos a mesma vida que eu, a maioria tem filhos também, enfim, todos tem os mesmos problemas e dificuldades que eu. Todos merecem uma certa igualdade, que se tenha democracia dentro da banda, apesar que todo mundo queira que a coisa fique concentrado em mim. De qualquer maneira, essa foi uma forma que achei de estimular a participação dos músicos da banda: o Nico, Alberto, Alê, o Sérgio, e agora o Wagner que entrouâ€.

Nervoso e os Calmantes, o disco, chegou ao mercado em maio. A ele pode ser atribuído todos os clichês de “amadurecidoâ€, “um dos melhores lançamentos do ano deste mês†e etc. Dá até certo ceticismo quando essas coisas são lidas porque dificilmente o futuro ratifica. Depois de um mês com esse disco nos ouvidos os clichês elogiosos fazem todo sentido, mas há ressalvas. É provável que a garotada com hormônios a pico não absorva muito bem às mensagens do disco e talvez a sonoridade calma passe longe do top 10 das festinhas. Mas para aquele que passou dos 30, como eu, quanto sentido!

O álbum faz referência ao homem maduro e ao mundo adulto, o que não impede que mulheres possam se identificar e até mesmo passar a entender melhor o outro lado. É como na música Kit-Homem que fala da relação não muito harmoniosa com a namorada quando se tem filho e ex-mulher em sua vida. Oras, se você nunca passou por uma situação assim, seja lá em qual papel, pelo menos conhece alguém próximo que vive. E a música é ótima também.

Outra faixa marcante desse disco é Universo Vocacional. Enquanto a maioria trata o passar do tempo, o envelhecer, como um caminho certo para a cova daí eis que vem Nervoso com outra perspectiva, bem mais atraente, de que se pode viver essa experiência no trabalho, em casa, onde for... e ser legal, um motivo de orgulho. “É uma canção maravilhosa, sonhei com a melodia, então acordei e fiz a música. Mas a letra não estava. Sonhei que estava passando por problemas no mundo corporativo, no emprego e aí veio essa melodia na cabeça e aquela voz ‘levanta e faz, levanta e faz, levanta e faz’. Muito louco, acordei num sábado, às sete horas da manhã e fiz a música em três horas. A letra, obviamente, demorou um pouco mais. Acabou sendo uma homenagem ao mundo corporativo, minhas andanças, minhas relações. Foi uma experiência fabulosa para mim. Foi muito bonitoâ€.

Sabe o que é curioso? Nervoso pode ser considerado, fácil, um dos compositores mais interessantes de sua geração. Se prestar atenção nas canções de Nervoso e os Calmantes, vai entender. Não tem uma letra que se diga que é mais ou menos. Todas dão o seu recado, são claras nesse sentido, além de bem feitas. Parece até que é fácil, mas de acordo com Nervoso, não é. “Eu sou um cara observador. Noto situações alheias e as que vivo. Eu não retrato exatamente uma situação que vivo, não exponho isso, mas elas tem grande influência. Até porque o processo natural de composição da minha parte é fazer primeiro uma música e os arranjos. A letra depois é aquele desafio. Eu acho muito difícil conceber uma boa letra em português. Então uma música numa harmonia e um arranjo que são considerados rock aqui, embora eu não consiga rotular, mas de certa forma tem guitarra, tem vocal contemporâneo. Então, pra mim é um grande desafio compor hoje dentro do português. Pra ficar satisfeito com uma letra que faço, é uma coisa absurda. São dias, semanas. Releio, dou uma repaginadaâ€.

Nervoso fez a maior parte das canções, mas houve também as parcerias. Com Nina Becker (Orquestra Imperial), com Benjão (que era da banda) e com Bernardo Vilhena – de Menina Veneno. O The Alberto foi quem fez Antes, linda música instrumental que abre o disco. Mas ele é um dos Calmantes. Foi com Vilhena que veio a Canção do Vento, em homenagem a Zé Ramalho. Eles tentaram, inclusive, convidá-lo para gravar a música, mas tiveram resposta. “A gente até deixou um CD de presente com a música, mas acho que ele não se animou muito não. Vai ver que pensou que devia ser um bando de malucos. Mas foi uma homenagem e vai continuar sendo. É um carinho, uma admiração a um grande ídolo que é o Zé Ramalho. Se um dia ele resolver cantar a música com a gente, vai ser muito bem-vindo. Pra gente será um motivo de emoçãoâ€.
Ainda há participações especiais do Canastra, Lafayette, entre outros. São pessoas que Nervoso se identifica no processo criativo, embora diz que procurar evitar essa formação muito fechada de turmas. “Essa galera faz música que a gente gosta e se identifica. Acho que, de certa forma, isso acontece com todo mundo. O Jorge Vercillo adora ter participação do Djavan no show dele. Enfim, é natural formar esses grupos, embora procure fugir disso o máximo possível. Tanto que no show de lançamento, chamei o George Israel para participar em Despedida Sem Fim, que é música do primeiro disco, e tocamos Spanish Bombs, que é uma música do The Clash. Foi o maior barato, sem levar em conta que o cara fez história no Kid Abelha. Quer dizer, eu não gosto do Kid Abelha, mas gosto do George, que é um cara que tem bom gosto. Ele me chamou para participar do show dele e foi o maior barato, então eu o chamei de volta. Enfim, é saudável você interagir com pessoas que não fazem parte do nosso ciclo. Isso tem acontecido muito aqui no Rio.

“Agora com o Canastra e com a Nina já é uma coisa mais fechada, de interação musical. A Nina gravou quatro músicas minhas. Outras que fiz com ela vão sair no disco dela. Enfim, aí é uma coisa de identificação, de estética de composição mesmo. Estética artística. Acho que não conseguiria conceber com o George Israel, por exemplo. A gente procura o que nos trás facilidade e gratificação para poder fazer mais e melhor. No caso dessas pessoas, como o Renato ou o Gabriel, do Autoramas, são que eu tenho identificação artística e pra gente fica mais fácil de se entender. O pessoal da Orquestra Imperial está sempre junto, o Kassin, o Domenico, eles estão sempre lá fazendo as coisinhas deles até porque eles tem essa facilidade de convivência. E o lado pessoal também é muito importante nesses lances. É muito importante você ter uma relação firme com uma pessoa. Não é só se encontrar e convidar para comporâ€.

Mas se a tal pessoa fosse um Roberto Carlos, daí Nervoso já mudaria de idéia. “Acho que é o sonho de todo artista brasileiro ter o Roberto Carlos envolvido em algum projeto, ter alguma participação dele. Nem precisa ser necessariamente numa música, pode ser num show junto com ele. Fui ao show do especial de fim de ano da Globo, depois fui até o camarim, tirei uma foto com ele e vi a quantidade de artistas emocionados com o fato de poder ficar cara a cara com o rei. Na minha fila estava o Lázaro Ramos, a Xuxa Lopez, só nomes consagrados da dramaturgia brasileira, e todo mundo louvando o cara. O Roberto é o maior pop star brasileiro, até porque ele gera esse tipo de percepção das pessoas. Ele é um cara que não aparece, está sempre na casa dele na Urca e não sai, ele não gosta de eventos sociais. Não é como o Caetano (Veloso). Ele poderia ser um cara tipo o Roberto Carlos, mas ele faz o tipo mais popular, mais showzinho, chama a galera para tocar com ele, gosta da molecada, está sempre nos eventos procurando se informar, está sempre atualizando o blog dele, interagindo com os fãs. Isso gera uma aproximação enquanto o Roberto Carlos gera distância pessoal. E o fã fica louco com isso. É natural, ele não faz por querer. É um cara fechado, na dele. É tipo o João Gilberto que nunca apareceâ€.

Enquanto o Nervoso não tem a oportunidade de fazer qualquer parceria com o rei Roberto Carlos, ao menos a sua influência segue ali firme no disco com letras bonitas, melodia idem e de quem não está nem aí para modismos. Nervoso e os Calmantes tem unidade, tem personalidade, assim como o líder da banda. É um trabalho que precisa ser conhecido e apreciado devagar, degustando, como se faz com iguarias finas. Não é todo dia que se encontra um disco onde se pode afirmar ser um dos melhores do ano... e isso ser um fato.

Para ouvir:
www.myspace.com/nervosoeoscalmantes

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