No Brasil, séries de tv mais distantes da telinha

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Marillica · Rio de Janeiro, RJ
14/6/2007 · 92 · 2
 

Antes de sair para ir à faculdade, Ana Elisa Vianna, de 22 anos, deixa tudo preparado em seu computador. Lost, 24 Horas e Jericho – três dos seriados favoritos dela ¬– já estão engatilhados no seu programa torrent, que irá baixar em cerca de 40 minutos os últimos episódios de cada um deles.

Aninha, como gosta de ser chamada, pode ser considerada por muitos como uma aficcionada por séries. Conhece tudo o que passa e o que já passou no canal Sony, tem caixas e mais caixas de DVDs de seriados de todos os tipos. Um verdadeiro sonho de consumo para os canais a cabo que transmitem essas produções americanas, não fosse o fato de que, dos oito seriados que acompanha semanalmente, apenas um ela vê pela TV.

A prática de download de séries vem se tornando cada vez mais comum na internet. Depois do estrondo do download e do compartilhamento de músicas, o aumento da capacidade dos discos rígidos e as velocidades estelares a que as conexões chegaram permitiram a troca que arquivos mais pesados e complexos via web, como os vídeos. O princípio é o mesmo, e os impactos legais também.

Há quase um ano, Aninha baixa episódios pela internet, tática que aprendeu com amigos. O acesso via web aos capítulos veio cair como uma luva para uma fã como ela, acabando com empecilhos como horários restritos, indisponibilidade e, claro, a ansiedade. “Comecei a baixar pela impossibilidade de ver pela TV, nos casos em que a série não é transmitida no país, e pela falta de tempo para assistir nos horários da televisão. Depois, mesmo que a série venha a ser exibida, eu continuo baixando, pois sempre estou em uma etapa mais avançada dos capítulos e não quero esperar meses por episódios novos na TV paga”, explica.

Para os canais a cabo e as produtoras dos seriados, o download está virando uma questão séria, à medida que vai conquistando mais adeptos. Além da evidente preocupação com a pirataria ¬– quando os arquivos baixados são gravados em DVDs e revendidos sem autorização – os capítulos chegam à internet sem intervalos comerciais (maior fonte de renda dos canais de TV) e passam por cima dos caros royalties que os canais nacionais pagam para ter direito à transmissão das séries.

Isso torna o download ilegal? Para Aninha, não. “Eu não considero que o download sem fins lucrativos seja ilegal. Baixar, gravar e revender, é outra história”, diz. E a legislação brasileira concorda, em partes, com ela. Segundo o artigo 184 do Código Penal, constitui crime oferecer, com a intenção de lucro, produtos protegidos por direitos autorais. Já própria Lei dos Direitos Autorais, em seu artigo 46, estabelece que a reprodução de trechos de obras para uso privado não é considerada infração. Fica então para a interpretação de quem aplica a lei, a definição de “trecho”.

Como funciona
É verdade que a maior parte dos sites que disponibilizam episódios inéditos de seriados o faz gratuitamente, de forma voluntária, sem aparente incentivo, a não ser o gosto pelo entretenimento. São verdadeiros mutirões de fanáticos por séries que fazem com que seja possível assistir a um episódio de Heroes com legendas em português, apenas um dia após sua exibição nos EUA.

A rapidez desse processo é possível graças ao desenvolvimento e disseminação de tecnologias sofisticadas, como programas de captura digital de sinais de televisão e sistemas de compartilhamento de arquivos via web. O princípio é o mesmo do vídeo-cassete, só que, ao invés de emprestar para o seu vizinho a fita VHS, você disponibiliza o conteúdo para milhões de pessoas ao mesmo tempo, na rede mundial de computadores.

Trata-se de uma atividade de grande alcance, porém extremamente simples, de forma que qualquer um pode participar. Para produzir legendas para os capítulos inéditos, por exemplo, basta ser bom em inglês e entrar em contato com alguns dos sites que disponibilizam essas traduções, como o www.legendas.tv . “Atualmente eu participo de uma equipe que faz a legenda de Lost” – conta Aninha – “Como estudante de licenciatura em inglês, tradução é uma atividade que me interessa e a legendagem me permite praticar.”

Substituição da TV?
Toda essa comodidade dos downloads – rapidez, eficiência, horários flexíveis – pode levar a pensar que a exibição de seriados pela TV está com os dias contados. Mas não é bem assim. Essa prática, apesar de estar em expansão, depende muito de conexões rápidas e de computadores velozes, recursos ainda restritos a uma pequena parcela da população brasileira. Além disso, ainda é limitado o número de pessoas que baixam episódios pela web, se comparado ao número de assinantes de TV a cabo que não o fazem. Bem ou mal, o download ainda é uma atividade ligada a um público fã mais engajado e conhecedor de internet.

E mesmo para os canais de TV, o download não é de todo mau. Numa recente entrevista ao jornal Agora São Paulo, Stefania Granito, gerente de marketing dos canais Sony, AXN e USA, disse acreditar que o download ajuda da divulgação das séries. São inúmeros os blogs e sites especializados que acompanham passo a passo o desenvolvimento das tramas, gerando discussões que não seriam possíveis sem o download. Muito se comenta na comunidade online sobre seriados que ainda irão estrear na TV a cabo brasileira, o que gera um marketing viral precioso para os canais. O caso mais recente foi o do super aclamado Heroes, série que movimentou intensos debates na internet antes mesmo de ser exibida pela USA, gerando grande expectativa para a estréia.

Para muitos fãs como Aninha, se a TV ainda quer mesmo garantir a sua parte com a exibição de séries, ela deve melhorar seus serviços ao invés de condenar o download. A chave é investir na rapidez com que trazem essas produções para a telinha, além de privilegiar as novidades do ramo e repetir menos capítulos de seriados antigos e temporadas velhas.

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Marcelo V.
 

Meu irmão caçula é desses. Já eu faço download de filmes antigos (95% feitos entre os anos 1910 e 1945, em países como Japão, Dinamarca e União Soviética), com objetivo de pesquisa _são impossíveis de serem encontrados em DVD ou exibidos na TV daqui. Neste caso, o download acaba sendo uma maneira de suprir uma demanda para a qual não existe interesse na oferta.

Marcelo V. · São Paulo, SP 15/6/2007 00:33
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Gus Vieira
 

Me sinto a Aninha. Assisti Gossip Girl, Ugly Betty e Heroes baixando pela internet e nunca vi nenhuma dessas sérias pela TV a cabo. Até porque eu nem tenho TV paga em casa!. Com a globalização, os canais pagos não devem mais esperar tanto tempo para exibir uma série por aqui. A internet já está preechendo essa lacuna.

Gus Vieira · Fortaleza, CE 28/7/2008 14:54
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