O Cirandódromo do Norte

Prefeitura de Manacapuru
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Ricardo Senra · Rio de Janeiro, RJ
31/7/2011 · 19 · 0
 

Basta o mês de agosto se aproximar para a cidade de Manacapuru, a 80 km de Manaus, entrar em polvorosa. Não é para menos. Há 15 anos, é nessa época que os moradores dos três maiores bairros do município, após cinco meses de ensaios e exercícios diários, se reúnem para u­ma maratona para lá de intensa.

“Ano passado deu empate, mas a Guerreiros Mura tem mais títulos”, comemora Emanuelly Marinho, de 19 anos. A amiga Drica Lima trata de corrigi-la: “Ano passado foi roubo. Era para a Flor Matizada ganhar, mas tudo bem”, diz. “Tem gente que não sabe mesmo apreciar um bom bailado”, discorda Thalita Souza, torcedora da Tradicional. Foi mesmo uma confusão. Pela primeira vez na história, o aguardado Festival de Cirandas de Manacapuru terminava com suas três concorrentes em primeiro lugar, numa disputa sem perdedores. O que corre à boca pequena é que, por um descuido do júri, que teria perdido um envelope com notas, o jeito foi improvisar e declarar todas campeãs. O problema é que cirandeiro que se preze faz questão de defender sua ciranda, custe o que custar.

As discussões sobre o assunto dão mais pano para manga que as brigas por futebol ou religião. Não foi à toa que a prefeitura da cidade mandou construir ali o primeiro Cirandódromo do Brasil, com capacidade para mais de 20 mil pessoas – era gente demais se espremendo nas ruas para torcer pelas cirandas locais. As queridinhas são três: Flor Matizada, Tradicional e Guerreiros Mura.

Suas histórias são parecidas. Todas nasceram em colégios de bairro, acabaram mobilizando suas vizinhanças, rapidamente cresceram, e tornaram-se caso de amor. “É uma sensação incrível fazer o que gosto, que é dançar, e defender as cores da minha ciranda do coração”, diz Paloma Teles, nascida e criada em Manacapuru. “Quando eu entro na arena, dou o melhor, pois passamos seis meses ensaiando todos os dias para chegarmos em uma noite e brilharmos”, conta. Desde os 14 anos, Paloma desfila pela Flor Matizada, “a melhor ciranda do mundo”, como faz questão de frisar.

Ciranda contemporânea

Seguir à risca as raízes da ciranda não é bem a meta dos dançarinos de Manacapuru. Ao contrário do que acontece em Manaus, onde a tradição tem mais de um século, quem dança no Cirandódromo quer mesmo é novidade. Todos os anos, os novos cirandeiros ensaiam uma coreografia inédita e reiteram seu descompromisso com os movimentos em roda do folclore tradicional. As melodias estão distantes das cantigas lentas e delicadas e a cada edição ganham novos instrumentos – e mais batidas por minuto.

As apresentações têm fantasias caprichadas, cobertas de brilhos e paetês. Os protagonistas da festa circulam em meio a grandes carros alegóricos, alguns deles motorizados e cheios de luzes. A ciranda manacapuruense criou a tradição dos “cordões”, que se apresentam à frente dos demais dançarinos, com figurinos e coreografias especiais. Eles lembram as “comissões de frente” do carnaval carioca.

O cargo de porta-cores da Tradicional pertence à dentista Yana Monteiro, que todos os anos carrega seu estandarte na arena do Cirandódromo. Além da porta-cores e do cordão, são personagens comuns nas danças um pássaro negro, chamado Carão, o pescador Miguelinho e a cirandeira bela (a moça mais bonita da festa). Conta a lenda que a mulher do seu Miguelinho, um pescador alegre e beberrão, queria comer a carne do pássaro Carão. O marido um dia a obedece e mata a ave, que depois ressuscita a partir das rezas dos curandeiros da região. A história se parece com a do Boi-Bumbá, tradição também forte na Amazônia, em que a figura de Catirina, grávida, quer porque quer comer a língua do boi mais forte da fazenda. Depois de morto, o boi ressuscita com a ajuda de um pajé e faz-se uma grande comemoração. Pois bem. A ciranda do norte sempre é dançada em junho e julho, acompanhando as festas juninas. O momento mais importante acontece no último dia, quando se realiza o “funeral do pássaro".

Na “princesinha do Solimões”, como é chamada Manacapuru, a ciranda só acontece um mês depois. O músico Jonathan Saints diz que o distanciamento entre as danças se construiu com o tempo. “A ciranda daqui é uma cortina de retalhos cultural. Pega uma coisa daqui e outra dali e dá nisso”, explica. Wemerson Almeida vai além: para ele o que ocorre em Manacapuru é uma “tradição inventada”, tamanha a sua diferença em relação à ciranda tradicional do norte do país. “Ela não influencia [a vida dos cidadãos] de nenhuma forma. Muitos não estão interessados na cultura e sim na festa”, alerta o historiador, de 22 anos.

Aos 80, Protásio Pessoa anuncia: “Quando me entendi como gente, já foi dançando ciranda”. Em entrevista ao site Gente de Opinião, ele critica as inovações da ciranda manacapuruense e diz sentir falta da dança tradicional. “A ciranda é muito simples, ela dá mais ou menos uns seis passos e nada mais. Tem aquela simplicidade do povo, que apresentava a vestimenta com chapéu de palha e com um balão feito com um farol. A dança era feita com um cavaquinho e o violão, era uma dança de roda, nunca se dançava fora do salão”. Para ele, uma obra como o Cirandódromo pode descaracterizar o folguedo. “Quando uma brincadeira folclórica passa a se apresentar disputando troféu em festival, ela se descaracteriza, com a ciranda não é diferente”, critica.

Contra a “mesmice”

Já o estudante Gleison Vieira dos Santos, 19 anos, está entre os que engrossam o coro a favor das cirandas de Manacapuru. Nascido na cidade, hoje ele vive em Manaus e conta que a paixão começou com seus pais, no início dos anos 1980. “Minha mãe e meu pai começaram a dançar ciranda ainda adolescentes, quando o festival não era conhecido como é hoje. Era só uma brincadeira da escola Nossa Senhora de Nazaré”, conta o rapaz. O fato de atualmente morar longe não parece ser um problema: “Nós vamos aos festivais sempre, compramos os CDs e temos aqui em casa para lembrança”, explica.

Thom”, como Gleison gosta de ser chamado, defende a transformação da ciranda folclórica. “Conheço pessoas que dançam cirandas em Manaus e criticam a de Manacapuru, pois é uma ciranda tipo – desculpe o termo – ‘evoluída’. É diferente das cirandas de lá, que prezam mais a origem, a ‘mesmice’”, avalia. Ele conta que a cada ano, a “ciranda evoluída” escolhe temas regionais para os enredos apresentados durante o festival. “Eles contam lendas de boto, mãe natureza... Contam também dos principais personagens, de como todos eles surgiram, e é assim, a cada ano se aprimora. Muito diferente das cirandas de Manaus, que não mudam”, completa.

E, a cada ano, é verdade, acontece algo diferente. Uma vez houve um apagão que deixou às cegas todos os dançarinos da Guerreiros Mura ainda no meio da apresentação. A mesma Guerreiros protagonizou outro momento marcante, quando uma alegoria que trazia a imagem de Nossa Senhora da Conceição pegou fogo e quase causou uma tragédia. Os bombeiros foram rápidos e ninguém saiu ferido.

Thom diz que a paixão é tanta que lhe custou um ano a mais na escola. “Se me atrasei nos estudos foi por causa da ciranda. Tinha tanta vontade de dançar. Eu ia daqui de Manaus para Manacapuru toda semana para ensaiar os passos e assim me perdi um pouco”, conta. “Mas foi só um ano, hoje não faço mais isso, não”.

Fato é que a ciranda de Manacapuru não tem nada de demodê. O esmero é tamanho que o figurino obrigatório prevê também as roupas debaixo das cirandeiras. As calcinhas são padronizadas, pode-se dizer. “É que as roupas das cirandeiras têm saias rodadas. Para não ficar desigual, elas devem sempre usar uma roupa íntima igual. Assim fica mais organizado...”, segreda Thom, que se despede avisando que quem assiste à Flor Matizada na arena não resiste e cai de amores. Quem duvida?

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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