O rock e a terceira idade

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AD Luna · São Paulo, SP
23/10/2007 · 86 · 0
 

Um dos meus programas favoritos aos sábados é curtir parte do dia no SESC Pompéia, em São Paulo. Pela manhã, quando minha carteira de usuário está em dia e o exame dermatológico idem, tento queimar as calorias adquiridas no rodízio de sushi e sashimi da noite anterior, nadando entre quarenta minutos e uma hora na piscina.

Depois de uma chuveirada, me dirijo ao aprazível restaurante bandejão do Pompéia e, como todo taurino que se preza, me ponho a observar o ambiente. Observo, observo e me deleito com o espetáculo de diversidade e convivência harmônica que se desenrola naquele local. Na mesa adiante, uma família silenciosa de japoneses – talvez descendentes. Ao lado, uma bela loira tatuada compartilha um pedaço de torta com seu namorado negro. Crianças correm perigosamente por entre adultos e suas bandejas e... idosos, muitos idosos.

Subitamente, como me é peculiar, altero o roteiro da minha reflexão e começo a lembrar do modo cruel como parte da mídia e do público costuma tratar roqueiros com certa idade. Muitos dos comentários são carregados por doses de menosprezo e sarcasmo. Por outro lado, acho que nunca li um crítico de música não-pop anglo-saxônica chamar Ravi Shankar de o ‘dinossauro da cítara’, com aquele tom pejorativo e agressivo de cadernos culturais. No mundo do samba, os integrantes da velha guarda das escolas são, aparentemente, tratados com respeito e reverência.

Não é raro encontrar algum(a) jovenzinho(a) rockista expressar - de maneira explícita ou velada - indignação quase fascista ao se deparar com algum cinquentão que ainda se diverte nos palcos empunhando sua guitarra distorcida. Será que os ‘pobrezinhos’ Paul McCartney, Mick Jagger e Bob Dylan ainda estão nessa só por dinheiro?

O prazer dos velhos rapazes ganha contorno de ofensa aos olhos da criatura de 18, 20, 30 e poucos anos, que pelo visto acredita estar imune à ação deletéria do tempo e da possível visão discriminatória dos meninos(as) e da sociedade dos anos 2040, 2050.

Alguns podem dizer: "Mas, rock é música de jovem". Tá, até pode ser. Não vou me aprofundar nisso agora. Porém, amigos antenados, com o avanço da medicina nas últimas décadas, a média de vida das pessoas na atualidade é bem superior àquela dos cidadãos dos anos 1950. Portanto, está na hora de rever certos conceitos.

E assim caminhamos nós, seres humanos, sempre a pavimentar os caminhos futuros do nosso próprio sofrimento.

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