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eduardo martins/ jarbas agra
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rodrigo √©dipo · Olinda, PE
13/12/2006 · 127 · 0
 

Do anal√≥gico ao digital. Essa conversa escutamos h√° tempo, mas raramente quando o objeto de an√°lise √© a TV. Vivemos um momento de transi√ß√£o, em que o modelo de TV Digital tem sido discutido com veem√™ncia. A quest√£o √© que a m√≠dia nacional tem abordado o tema de forma reducionista. Se limitando a discutir prop√≥sitos t√©cnicos, como "alta defini√ß√£o" da imagem e padr√Ķes de implanta√ß√£o da tecnologia. J√° temas como interesse p√ļblico e interatividade tem sido postos de lado.

Buscando agir a favor desses pontos esquecidos, mais de cem entidades no Brasil têm entrado na briga pelo direito humano à comunicação. Convidamos o jornalista pernambucano Ivan Moraes, representante da Ong Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), para nos dar uma introdução sobre TV Digital e sua possível democratização.

TV Digital?

"Tecnicamente falando, é um sistema de transmissão de dados por meio de um código binário (hoje, transmitimos de modo analógico, através de ondas eletromagnéticas). Na prática, algumas coisas vão mudar com certeza. A imagem, seja lá qual for o padrão escolhido, será melhor, livre de "fantasmas" ou "chuviscos". O som também melhora bastante. Agora, dependendo do padrão que for escolhido (e do modelo de negócios adotado), outras mudanças também podem ocorrer. Poderemos ter, por exemplo, uma multiplicação dos canais, dando vez a mais sujeitos se posicionarem publicamente em audio-visual. Disso também depende a interatividade. Já pensou pagar as contas pela televisão? Isso pode acontecer. Ou não."


Como a digitalização vai afetar a vida das pessoas na prática?


"Pode afetar um bocado ou muito pouco. Se, por exemplo, importamos o padr√£o japon√™s fechado e mantermos o mesmo modelo de neg√≥cios vigente, sem alterar em nada a pol√≠tica de concess√Ķes de televis√£o. O que teremos, ent√£o, √© a possibilidade da alta resolu√ß√£o para a mesma programa√ß√£o. Isso, claro, para quem tem grana pra comprar o conversor ou um televisor digital. Ah, voc√™ tamb√©m poderia ver o Big Brother no seu celular, se voc√™ tiver grana pra comprar um celular incrivelmente fant√°stico e caro. Agora, se a gente mexe com o modelo de neg√≥cios, a√≠ o bicho pode pegar. E pode ser fant√°stico. Hoje, mais de 90% dos domic√≠lios do Brasil t√™m televis√£o. Pra voc√™ ter uma id√©ia do que √© isso, 87% t√™m geladeira. J√° pensou se, em dez anos, pelo menos metade desses aparelhos consegue, atrav√©s da TV Digital, algum tipo de interatividade e acesso √† internet? Seria uma verdadeira revolu√ß√£o. Isso sem falar da multiplica√ß√£o dos canais. Agora, √© claro que isso n√£o pode vir s√≥. Tem que ser precedido pela discuss√£o do modelo de neg√≥cios. Para o caso de multiplicar, por exemplo, √© preciso garantir que os novos canais n√£o v√£o ficar nas m√£os dos mesmos concession√°rios, entende?"

Por que é importante a discussão e o incentivo às pesquisas brasileiras?

"A discuss√£o √© fundamental. N√£o podemos nos deixar convencer de que se trata de uma discuss√£o t√©cnica, restrita a especialistas. O papo tamb√©m √© pol√≠tico. O povo brasileiro tem agora uma oportunidade muito grande para democratizar os meios de comunica√ß√£o. J√° pensou se os canais forem multiplicados e melhor distribu√≠dos? Silvio Santos poderia continuar distribuindo os carn√™s do ba√ļ, mas se voc√™ quisesse assistir a uma tev√™ comunit√°ria, ou mesmo √† emissora da universidade, ou outra tev√™ p√ļblica qualquer, era s√≥ mudar de canal. Na Constitui√ß√£o Brasileira fala da "complementaridade dos sistemas privado, p√ļblico e estatal" de comunica√ß√£o. Hoje, quase tudo √© privado. Com a TV Digital, ter√≠amos mais chances de conseguir essa tal complementariedade. Quanto √†s pesquisas brasileiras, elas n√£o come√ßaram do zero. Ainda no in√≠cio do governo Lula, quando o ministro das Comunica√ß√Ķes era Miro Teixeira, foram prometidos R$ 150 milh√Ķes para nossas pesquisas, que deveriam levar ao menos 12 meses. Corta aqui, corta ali, pouco mais de R$ 50 mi foram gastos. Mesmo assim, 80 institui√ß√Ķes e mais de 1500 pesquisadores(as) trabalharam por oito meses e conseguiram resultados considerados excelentes. Imagine o que fariam com mais tempo e dinheiro? Ser√° que n√£o valeria a pena esperar mais um pouco e investir mais em nossa tecnologia?"


Onde termina o interesse das grandes empresas e onde come√ßa o interesse do p√ļblico no assunto?


"Veja bem. A Constitui√ß√£o de 88 diz que a programa√ß√£o de televis√£o deve dar prefer√™ncia a finalidades educativas, culturais, art√≠sticas e informativas. Diz que deve promover a cultura nacional e regional, que deve estimular a produ√ß√£o independente e que deve respeitar os valores √©ticos e sociais da pessoa e da fam√≠lia. Agora eu pergunto: isso est√° acontecendo? Para as empresas, o interesse p√ļblico j√° foi pro espa√ßo h√° muito tempo. O que vale √© o que se pode ganhar com isso. √Č preciso que o "da poltrona" n√£o seja mais visto apenas como um consumidor, mas como cidad√£o. Se comunica√ß√£o √© direito humano, como √© que informa√ß√£o pode ser tratada como mercadoria? Isso n√£o faz sentido, como n√£o faz sentido usar a l√≥gica de mercado para se regular a televis√£o. O interesse p√ļblico deve prevalecer e isso n√£o √© necessariamente incompat√≠vel com o lucro das empresas. Pegando o exemplo da TV Digital, o que √© que n√≥s queremos? Ver o detalhe do bigode do Ratinho? Ou ter a oportunidade de, atrav√©s da televis√£o, conhecer melhor o povo Truk√°, de Cabrob√≥ ou as bandas que fazem a nova cena musical do Ibura? Queremos ou n√£o mais canais para que o povo possa se expressar? Queremos ou n√£o interatividade?"

Tv Digital e Inclus√£o social.

"Antes de come√ßar uma palestra, eu costumo fazer uma pesquisa. Pergunto o que o pessoal sabe sobre os povos ind√≠genas em Pernambuco, sobre as comunidades quilombolas. Pergunto sobre manifesta√ß√Ķes art√≠sticas em bairros do sub√ļrbio e mesmo sobre a representa√ß√£o parlamentar no Estado. Depois eu pergunto quem foi a √ļltima esposa de Ronaldinho. Os resultados s√£o incr√≠veis e deixam clara a invisibilidade da maior parte da popula√ß√£o. Quem n√£o tem acesso aos meios de comunica√ß√£o √© como se n√£o existisse. E como √© que gestores(as) p√ļblicos(as) v√£o fazer pol√≠tica p√ļblica pra quem n√£o existe? Poder se expressar - e ser compreendido(a) √© um direito humano que n√£o pode ser dissociado dos outros."

Para quem trabalha de forma independente com audiovisual, de que forma poder√° utilizar a TV Digital?


"Se houver a multiplica√ß√£o democr√°tica dos canais, quem trabalha com audiovisual ver√° multiplicar-se as chances de suas obras serem veiculadas. Hoje, praticamente s√£o raros os espa√ßos das produ√ß√Ķes independentes. Na l√≥gica do mercado, as brechas na grade de programa√ß√£o s√£o negociadas e poucos(as) t√™m condi√ß√Ķes de cobrir esses custos. Isso tamb√©m √© curioso. A empresa que √© contemplada com uma concess√£o p√ļblica para utilizar um canal. A√≠ pega e "loteia" a grade para vender/alugar os espa√ßos. √Č como se voc√™ me emprestasse seu carro para eu poder levar teus filhos na escola e eu o utilizasse como taxi."

Com o desenrolar dos acontecimentos, você está confiante no resultado final?

"Quando se milita no movimento do direito √† comunica√ß√£o, a gente aprende a comemorar muito as pequenas vit√≥rias. Pra gente est√° sendo muito bom ver o debate se espalhando, ver a quantidade de eventos que est√£o acontecendo no Brasil inteiro e ver tamb√©m que Pernambuco tem sido uma refer√™ncia nacional nessa movimenta√ß√£o. Falar de direito humano √† comunica√ß√£o j√° n√£o soa t√£o estranho e √© fant√°stico ver a quantidade de gente querendo entender mais o que est√° acontecendo. J√° houve dois adiamentos da decis√£o, o que a gente encara como vit√≥rias, embora tenhamos a consci√™ncia de que n√£o fomos os √ļnicos envolvidos nesse processo. Agora, no dia 4 de abril, haver√° um semin√°rio no Congresso Nacional para discutir isso. O CCLF vai estar l√°, claro. A pr√≥pria poss√≠vel sa√≠da do ministro Costa, capataz das emissoras, que deve disputar o governo de Minas, tamb√©m √© um bom sinal para a gente. Ent√£o, por mais dif√≠cil que possa parecer esse embate, a gente sempre fica esperando o melhor dele."


Quer deixar alguma mensagem para quem está lendo a matéria e se interessa/preocupa com a problemática?


"N√£o existe direito que n√£o seja reivindicado. Se voc√™ acha que a televis√£o n√£o t√° legal, que pode mudar, √© preciso fazer alguma coisa. Se voc√™ concorda que o povo tem o direito de se comunicar, precisa fazer alguma coisa. Essa discuss√£o da TV Digital ainda pode render muita coisa e a possibilidade de algo muito interessante acontecer √© grande. Aqui, no Recife, a Campanha "Eu quero discutir TV Digital" j√° ganha corpo e √© vista nacionalmente. Criamos uma comunidade no Orkut chamada "Eu quero discutir TV Digital" que cresce a cada dia. √Č preciso se informar para participar dos debates, dos atos p√ļblicos, dos semin√°rios, das audi√™ncias. A gente ainda pode fazer uma diferen√ßa. Para isso, √© preciso que as pessoas percebam que n√£o s√£o ref√©ns da m√≠dia e passem a interferir. E isso n√£o √© conversa s√≥ pra jornalista, pra publicit√°rio. √Č pra a advogada, pro engenheiro, pra o cozinheiro, pra a motorista... Comunica√ß√£o √© uma coisa importante demais pra ser somente discutida por comunicadores e comunicadoras."


TV Digital na web:

www.crisbrasil.org.br
www.intervozes.org.br
www.fndc.org.br
www.cclf.org.br
www.midiaindependente.org


* Matéria publicada em abril de 2006 na Revista Giro # 1.

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