Dia do jogo
Trânsito horrível. As pessoas impacientes. Compromisso até às 15:30. Correria. O costelão foi trasnferido para domingo, mas a cervejinha não. Passei no boteco que havia pensado para assistir ao jogo, mas o dito cujo estava fechado. Mais um pouco de correria. Quem conseguiu se desvencilhar antes dos compromissos fazia a festa, aí eram cornetas, buzinas, foguetes, bandeirolas, balões. Torciam cada um da sua forma. Se o Brasil pára de um lado, não dá para deixar de lembrar que movimenta uma outra cadeia de forças do outro. A cidade está em festa, toda colorida. Vários bairros, várias ruas, vários botecos (as pessoas também), vestiram as cores da seleção brasileira. Um entusiasmo verde-amarelo por todas as partes que, mais tarde, durante o jogo, não mudou as cores, apenas mudou o tom, se transformou em um verde-de-raiva (pode ser verde-musgo, ou verde-abacate, enfim, um verde-sem-graça) e um amarelo-ovo. A euforia inicial era porque os brasileiros esperavam que o Brasil, que, para a imensa maioria dos torcedores, enfrentava um time pequeno, devia, no mínimo; insisto, no mínimo, aplicar uma goleada. A expectativa mata qualquer um (mata mais quando estão em bandos).
O entusiasmo deu vez a um certo desânimo (nada para assustar, afinal de contas, o Brasil, depois que o jogo termina, cai na festa, muitas/algumas vezes e em muitos/alguns casos, comemora sem realmente saber por que comemora; comemora). E esse certo desânimo, depois que a bola rolou, parecia emanar da torcida brasileira na Alemanha. Qual era a quantidade de brasileiros presentes no estádio alemão torcendo pelo Brasil? Eu não sei. Se a quantidade de torcedores brasileiros era inferior à quantidade de torcedores croatas? As imagens davam a entender que sim. No entanto, mesmo ganhando o jogo, não dava para ouvir, pela transmissão, a torcida do Brasil na Alemanha, se ouvia única e exclusivamente os torcedores do time adversário (talvez, diriam os mais fanáticos, os microfones estivessem colocados apenas do lado dos torcedores croatas). E a resposta para essa situação parece ser simples: o brasileiro não sabe ganhar de um a zero (pode até comemorar depois), mais do que isso, o brasileiro não sabe ganhar de um a zero jogando assim, deste jeito, esse-quase-futebol (digamos que, ganhar com as calças na mão).
Placar de um a zero
Se o Brasil não sabe ganhar por um placar magro, as outras seleções sabem. Basta lembrar que, a vitória de um a zero (com as calças na mão) diante de seus adversários, a maioria deles inferiorizados tecnicamente, foi comemorada pelos portugueses, pelos ingleses, pelos holandeses, mas pelos brasileiros, pelo menos, durante o jogo, naquilo que pude perceber, parece que não. Sim, houve um grito de gol entusiasmado (buzinas, foguetes, cornetas...) e aquelas frases do tipo, "agora vai", "agora ninguém segura", "vai ser um balaio", "passou um passa uma boiada"... mas depois que a poeira sentou, ao lado dela sentou a euforia, o entusiasmo. E qual seria a razão disso?
Talvez a resposta o texto já tenha dado: porque o Brasil não tenha jogado uma grande partida, não apresentou um futebol convincente. Mas, além disso, me parece, tem uma outra questão em jogo. Talvez a resposta esteja na forma como os brasileiros lidam com as coisas do futebol. Vejam que, para a grande maioria dos brasileiros, enfrentar a seleção de Lucerna e/ou a seleção da Croácia é a mesma coisa. Se o time brasileiro aplicou uma sonora goleada no selecionado de Lucerna por que não aplicar um placar parecido no selecionado Croata? O povo queria uma goleada. O povo quer ganhar de goleada sempre. Isso é o que o torcedor brasileiro espera. Independente se o adversário é o selecionado de uma cidade ou de um país.
Essa é a tradição do futebol brasileiro que, talvez mal acostumado, não sabe ganhar de placar apertado. E como toda tradição, carrega consigo uma certa "soberba", digo mais, uma certa "arrogância". O Brasil, para os seus torcedores, no campo minado do futebol mundial, inevitavelmente, deve passar por cima de qualquer outra seleção do mundo. É claro, mantendo sempre um discurso que se disfarça em respeitos, mas é preciso acentuar que esse respeito é para com os adversários que se curvam (e que tiram fotos, e que pedem autógrafos, e que acenam bandeirinhas, e que...) diante da qualidade de nosso futebol, pois, afinal de contas, somos, no campo (e antes de qualquer coisa, nos consideramos), os melhores do mundo. E, mais do que isso, sempre fica aquela sensação de que o mundo tem que se curvar diante dos reis do futebol. E aqueles que não se curvam são tratados como adversários mortais e precisam, de qualquer forma, serem vencidos (os Argentinos que o digam).
E talvez essa certa "arrogância" que paira sobre o universo futebolístico, em alguns momentos desmedida, não passe de um reflexo da forma como a imprensa esportiva brasileira lida com o grande filão midiático do Brasil (com a diferença que o reflexo é puro, diria mais, ingênuo, todavia empurrado por quem sobrevive ou precisa sobreviver do futebol - as-viúvas-dos-mortos-vivos). Se os brasileiros estavam atônitos e não estavam comemorando, enquanto os croatas cantavam, incentivavam, comemoravam efusivamente. Surgia, em meio a isso, a voz da sabedoria futebolesca brasileira (que citar seria quase uma redundância), recheada de um sonoro ar de "arrogância", “eles estão felizes porque estão perdendo para o Brasil apenas de um a zero”. “O país deles vai parar hoje, afinal de contas, perderam apenas de um a zero para os melhores do mundo, para os reis do futebol”.
Meninos Menstruados
Vários setores da imprensa esportiva brasileira que estão cobrindo a copa, nos dias que antecediam o evento, me perdoem se eu estou sendo deselegante, pareciam meninos menstruados. Era um faniquito por dentro do outro. Como se quisessem atropelar o dia da estréia do Brasil. Como se o dia marcado precisasse ser adiantado. Como se precisassem conferir o calendário (e o relógio) diariamente para confirmar se não era já o dia esperado, o dia do jogo. Não tinham mais o que falar sobre o evento, mas precisavam de assunto, para tanto, qualquer titica se transformava em matéria que, obviamente, repercutia. Ou alguém sabe falar sobre outro assunto qualquer em época de copa do mundo?
O jogo
Quando lembro de mágico junto lembro de circo. O quarteto mágico escondeu tanto o jogo (o coelho dentro da cartola) que na hora do jogo não conseguiu encontrá-lo; isso com exceção de Kaká, que fez um lindo gol, e de Ronaldinho Gaúcho que, mesmo não fazendo uma grande apresentação, ao menos se apresentou para o jogo. Se o futebol é para o brasileiro uma religião que cria fanáticos (quase fundamentalistas), um dos atletas de cristo da seleção foi quem decidiu o jogo. Que relação isso tem, só deus sabe!
A seleção
O Brasil tem, sem dúvida nenhuma, a melhor seleção entre todas as classificadas para esse mundial (talvez tenha um dos melhores grupos de jogadores de todos os tempos), agora, não tem um time; falta muito, ainda, para ser um time de futebol, pode até se transformar em um no decorrer dos jogos, mas, pelo que mostrou durante a primeira partida, ainda não é (poderia ser um pouco mais rude e dizer que falta ao Brasil um técnico, ou que falta pulso ao Parreira, mas deixa pra lá – agora não tem mais volta, é com ele mesmo e pronto). Talvez eu, como boa parte dos brasileiros que gostam de futebol, por que não, com uma certa pitada de exagero, esteja exigindo demais para o jogo de estréia.
Mas podemos ficar tranqüilos, pois, mesmo sem um time, o Brasil pode vir a ganhar a copa do mundo. E o que me leva a crer nesta possibilidade, além da grande quantidade de bons jogadores que o Brasil tem, é o nível das equipes que participam deste mundial; se analisar apenas o primeiro jogo, em especial, das favoritas, o mundial aponta para uma situação deveras decepcionante: está nivelado por baixo. Times ruins, jogos medíocres (alguém poderia apontar a tensão – para algumas seleções trauma - da estréia, mas vale lembrar que a tensão, se existir, não é mérito de uma equipe apenas, acontece para todas as envolvidas).
Vejam que Togo, Angola, Trinidad e Tobago, Costa do Marfim, entre outros igualmente desconhecidos, há um tempo atrás não existiam para o futebol, mas, que, com o processo de globalização que atinge a FIFA também, passaram a existir, e pior que esses times citados, meros desconhecidos, impuseram dificuldades aos seus adversários. E o que se viu, para justificar a dificuldade imposta por estas equipes até um tempo atrás desconhecidas, foi imperar uma das máximas (recentes) do futebol: “Não existe mais time bobo”. Em resposta a essa máxima, cito um amigo que assistia ao jogo sem muita empolgação: “Bobo, para não dizer outra coisa, é o Zagallo” - lembrando a entrevista dada pelo ex-técnico da seleção ao Pedro Bial segunda à noite quando afirmou que: “Brasil e Croácia - têm treze letras”. E para dar números finais ao placar contemporanizando com os trezes do Zagallo, o Brasil que se cuide, afinal de contas, parafraseando o Dunga (capitão da seleção do tetra): , “voltar pra casa” - também tem treze letras.
*** "O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo pelo país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Para ler mais relatos, veja aqui."
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