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Perguntas de um jovem que amanhece plugado

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Theotonio de Paiva · Rio de Janeiro, RJ
1/6/2009 · 2 · 0
 

por Theotonio de Paiva

Juliano estava indignado. Não havia forma de apaziguá-lo. Aquelas palavras o incomodaram além das medidas. Eram uma verdadeira afronta. Nada do que via ao redor, nos papos com os amigos, nas conversas com o pai, professor de História, se acomodava com aquelas palavras do ministro. E logo um ministro das comunicações!

A notícia não repercutira mais pela insensatez demonstrada. De qualquer maneira, aquilo o deixara atônito, sem meias medidas, sem conseguir compreender de fundo que razões haveriam por detrás dos termos um tanto confusos, pernósticos – como diria um senhor de meia-idade – , empregados por aquela figura de vasta cabeleira grisalha, como uma espécie de Castro Alves sênior. Sem a poesia, evidentemente, e toda a fortuna crítica. O seu pai lhe afiançara que um dia aquele homem fora um repórter famoso de uma grande emissora de televisão, trabalhando como correspondente na mais rica nação do planeta. Tudo levava a crer que os laços que mantinha com aquela empresa ainda eram muito intensos. Mas isso seria uma outra história.

Juliano é um amigo de minha filha. Estão sendo criados juntos. Através dela, soube daqueles sentimentos de uma revolta juvenil. Depois tive a oportunidade de comprovar como aquele enredo se desdobraria, fruto de uma reação, que alguém a se julgar mais “sensato” e “amadurecido” chamaria de “intolerante”. Seria outro o ponto de vista.

Pois bem, aquela perturbação fora despertada no rapaz por algumas palavras, no mínimo, pouco hábeis. Diziam os antigos que o homem é senhor do que pode dizer e escravo daquilo que diz. Então, o ministro, na abertura de um congresso, não deitou a falar o que bem lhe aprouvesse? E resolveu apresentar-se como mestre habilitado na sabedoria do convencimento.

– O cara falou pra gente ouvir rádio!

E completou com uma admoestação furibunda.

– Ninguém mais da minha geração ouve rádio!

E desfiava as suas razões. O que interessava aos jovens eram as músicas. Essa seria a razão de se ouvir rádio. Ora, isso comparece na internet, nos portais. Por causa de qual motivo ficaria ele preso ao passado da comunicação? Sobretudo gostava mesmo era de baixar aquilo que queria ouvir naquele outro aparelhinho minúsculo, capaz de guardar meio mundo em suas reais possibilidades. Lá, poderia confiar de encontrar as “vozes”, os sons, com os quais se identificava, sem esbarrar em pregações de homens santos, jabás de músicas eternamente tocadas, e os infindáveis comerciais, que funcionavam como elixir de longa vida para aquela indústria que dava sinais claros de exaustão.

Juliano aprendera com o pai a gostar de um famoso autor português. Não havia lido ainda uma linha sequer do escritor. Minto. Um conto sobre uma ilha desconhecida lhe caíra nas mãos. Ele gostara da fabulação e, mais ainda, do fato de não existirem mais ilhas desconhecidas, segundo o seu autor. A única ilha a ser considerada seria o próprio homem, a ser re-conhecido.

Por isso, dava uma atenção especial quando lhe falavam dele. Ora, não era por outra razão que repetia uma entrevista daquele escritor que o pai assistira faz tempo, cujo fecho, a última imagem, era um senhor de cabelos ralos, grandes óculos, a martelar insistentemente sobre as duas perguntas mais decisivas para o homem: “por quê?” e “para quê?” Achou aquilo sensacional quando ouvira.

Assim, eram justamente aquelas perguntas que retornavam naquele momento como um enigma próximo de se revelar. Quando recordava que fora aconselhado a abandonar os seus maus modos, a “despendurar” da internet, por um representante de um poder distante, ficava se perguntando: “quem era ele para me dar conselhos”? Nunca vira mais gordo, mal sabia da existência. De mais a mais, aquele sujeito não dizia nada a ele, não falava a seu mundo. Um mundo que intuía fragmentado. E o cara, no sentido perverso do termo, trazia uma empáfia de quem se imaginava um dos guardiões das sabenças do mundo.

E ruminava. O que de tão interessante ele, Juliano, encontraria na televisão além da paixão pelo seu time? Ah, sim, tinham uns caras presos numa redoma, espécie de casa – ou seria o contrário? – se solapando por trinta dinheiros. Seria isso? Ou, então, a moda do oriente, do exótico – encontrado sempre no outro, jamais em si mesmo –, moda essa que soava tão falsa quanto aquela atriz americana num filme sobre a rainha do Egito. Seria essa a alternativa? Ou seriam ainda aqueles jornais televisivos, de homens e mulheres que se levam muito a sério, cuja superioridade canhestra parece dizer que o próprio mundo foi concebido segundo a sua imagem e semelhança?

Lembrava que, por acaso, se um amigo seu lhe contasse uma história rocambolesca, iria rir e dizer que ele não passava de um grande mentiroso. Muito bem. Algumas vezes Juliano quis dizer isso nas bochechas dos apresentadores do jornal da televisão. Mas não tinha como. Parecia que eles possuíam uma espécie de monopólio. O rapaz não sabia dizer do que seria. Da fala, colaborei modestamente para a sua indignação.

– Exatamente!

Juliano ficara sensibilizado com um relato que eu contei pra ele. Era mais uma aposta no poder da grande rede. E aí, fora verificar pelos seus próprios meios.

Acostumara-se a querer saber mais, a ser um rato curioso. Por conta disso, deu de frente com um blog que não existe mais. O seu autor se fartou. Perdeu as estribeiras, como diria o meu pai, e fora escrever as suas memórias. Mas os restos mortais daquela experiência virtual ainda podiam ser acessados.

E o rapaz encontrou mais de 500 comentários sobre a carta testamento do blogueiro. Havia, naqueles termos, o compromisso moral e político de quem começara uma jornada fazia muito tempo. No entanto, uma observação lhe chamou especial atenção. Era a de uma jovem como ele. Reivindicava em nome de um colega – seria ela própria? – que não tinha sequer computador. O rapaz acessava a internet de uma lan house. Sempre. E provavelmente se mostrava grato pelas palavras daquele jornalista meio enfezado. Pelo menos, era aquilo o que a amiga procurava demonstrar. O texto gruvinhado na seção de comentários se revelava esperançoso de que um dia aquele velho jornalista pudesse voltar a escrever novamente aquelas páginas diárias, pois as suas palavras funcionavam, testemunhava a moça, como força e estímulo para o seu amigo. Note-se: se aquelas palavras caíssem no vazio profundo, se não mais existissem, onde iria encontrar novas reflexões assim sobre as questões do seu tempo, da sua terra? Para onde se voltaria a procurar respostas ou novas indagações acerca de um mundo tão difícil de ser compreendido, em sua juventude vivida no espaço de uma lan house? Juliano ficara atônito com aquilo.

– Pois é... voltava ele no dia seguinte. E emendava as reticências com um ar de quem fora apresentado a um insight: alguma coisa parecia fazer sentido.

Do seu modo, meio afoito, com uma pureza dos incompreendidos, como no filme de Truffaut, ligava as peças distantes do tabuleiro.

Aquelas perguntas insistentes do escritor português – “por quê?” e “para quê?” – invadiam o espaço com força e contaminavam a sua experiência, plena de juventude. E, como num malabarismo, se acercava daquela comunicação tão especial que via no jornalista irascível. “Ela não era monopolista”, assim se expressava.

– Explique-se melhor, fiz eu.

Era simples. Ao contrário dos meios defendidos pelo ministro, a blogosfera, agora mais ainda, apresentava-se uma comunicação em duas, três, dez ou milhões de vias: das lan houses com o mundo, casas, escritórios, aeroportos, e até praias; com outros mundos, verdadeiros ou não.

– Aquilo não seria um exagero? provoquei.

– Pára e pensa. E, de algum modo, destrinchava do seu jeito que aquela descompostura categórica do ministro ressoava como camadas de uma pintura grotesca. Na verdade, o sujeito queria expressar um outro tipo de interesse: vinha em socorro de bilhões. E citava de memória. O representante do Estado falava em faturamentos astronômicos que o filho daquele modesto professor desconhecia integralmente. “O setor de comunicação fatura R$ 110 bilhões por ano”. – Pára e pensa: o que isso significa? perguntava-se. “Desse total, somente R$ 1 bilhão é do rádio e R$ 12 bilhões das TVs. O resto vocês sabem muito bem onde está”.

Ele não sabia onde estava. Jamais poderia imaginar. Sabia apenas que alguma coisa de muito relevante se encontrava distante do bom senso.

Sabia ainda que da sua experiência duramente construída sob o fogo cruzado de uma explosão de formas e sentidos capturados pela rede, além das conversas imorredouras que continuam a passar as velhas lições de casa, haveria a saudável experiência de aprender a perguntar e se perguntar sobre tudo. Fazia sentido.

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