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Punk rock por uma questão de classe

Renato Reis
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Vladimir Cunha · Belém, PA
12/5/2006 · 71 · 0
 

Jayme à frente dos Delinqüentes no festival Memorial do Rock

Foi em 1986 que Jayme Catarro, até então um menino de classe-média cuja noção do que era rock começava e terminava no heavy-metal, se encantou com o movimento punk e decidiu montar os Delinqüentes, um dos nomes mais festejados e respeitados do rock paraense e um dos inventores da cena hardcore local. São duas décadas de shows memoráveis, confrontos com a polícia, palcos minúsculos, amplificadores vagabundos e troca de integrantes. 20 anos depois de descobrir que podia fazer música mesmo sem saber tocar direito, Jayme e os Delinqüentes se preparam para gravar o seu segundo CD e já podem se dar ao luxo de tocar em lugares maiores, com som decente e uma boa estrutura de palco. Quem conta essa história é o vocalista dos Delinqüentes, que fala ainda sobre a gênese do movimento anarquista em Belém do Pará. Com vocês Jayme Catarro.

De menino classe-média a ícone punk, como foi que se deu essa transformação? Já conhecia alguma coisa de rock antes disso?
A minha ligação com o punk vem de muito tempo. Eu era bem novo e já curtia alguma coisa de rock. Lembrando que na época não existia no Brasil nem MTV e nem videoclips. Então fui a um show num bairro bem afastado da cidade. O palco foi feito durante a madrugada mesmo. A galera ficou lá se chapando e ouvindo as novidades da época (Venon, Exciter e Metallica) enquanto montava a estrutura para ao show do dia seguinte. Nesse show rolou uma banda que me chamou a atenção, que era o The Podres, embrião do Insolência Públika, considerada a 1ª banda punk de Belém. A identificação veio de cara. Comecei a andar com a galera, mudei meu visual (que até então era de headbanger) e por aí vai.

E como tu te envolvestes com o hardcore, o anarquismo e o movimento punk?
Isso foi alguns anos depois, na metade da década de 80, quando formamos o movimento punk, que era mais politizado. Fazíamos reuniões sobre anarquismos em praças, colégios e etc. E, lógico, muitos shows e atos em praças públicas. Quando era adolescente não tive essa fase de andar com mauricinhos, nem nada. Minha moçada sempre foi underground.

Como era o cenário rock em Belém nessa época? Era fácil conseguir informações, discos e etc?
O pessoal do Insolência tinha contato por cartas (internet, naquela época, nem pensar) com a galera de São Paulo, Porto Alegre, Alemanha e Finlândia. Por conta disso começamos a ter esse tipo de intercambio também. As informações eram escassas e raras, não havia lojas especializadas na cidade, tínhamos que pegar tudo de fora. E pra divulgar nosso som tínhamos que mandar tudo em fitas cassetes, as famosas demo-tapes, que hoje ninguém produz mais.

Existia um intercambio com bandas e outros grupos anarquistas e punks foram de Belém? Quais eram esses grupos e bandas?
Como falei, era tudo através de cartas mesmo. Na época do Insolência, eles tinham contato com a galera do Replicantes, do Garotos Podres, com o Cólera e outras moçadas. Inclusive o movimento punk de São Paulo. Já na nossa época (tipo 88, 89 em diante), fizemos muitos contatos com o pessoal do Nordeste. São contatos que duram até hoje, com o pessoal de Aracajú, João Pessoa, Fortaleza. Rola também um intercâmbio com São Paulo e Rio. Só pra tu teres uma idéia, quando saímos em turnê em 2000 pelo Nordeste, teve gente em Aracaju que pedia músicas da nossa 1ª demo-tape, que nem eu mais tinha. Essa mesma fita eu consegui recuperar uma cópia dela em São Paulo em 2002 com um cara que tinha um guardado. O intercambio dessa época tinha esse poder, pois as coisas eram mais difíceis, porém mais valiosas também.

E os ensaios? Dá pra imaginar o perrengue que era conseguir instrumentos em Belém nos anos 80...
Geralmente tínhamos que juntar umas duas ou três bandas para fazermos uma vaquinha para comprar equipamentos e alugar local de ensaio. Não havia estúdios de ensaios profissionais como hoje. E os equipamentos, pelo menos da punkarada, eram pra lá de precários. Mas havia uma garra de querer fazer acontecer a coisa, e acho que isso que era bonito. Fora o rodízio de lugares que já passamos. Acho que a Delinqüentes já ensaiou em quase todos os bairros de Belém.

Nessa época, quem abria as portas para o hardcore e o punk rock aqui em Belém? Era fácil arrumar lugar para tocar?
Eram raras as casas que nos aceitavam. Foi por isso começamos a fazer nossos próprios eventos. No início fizemos muitos shows em centros comunitários e em casas em cima de pontes, em lugares onde não tinha nem saneamento básico. Uma vez colocamos num cartaz: "Foda-se a igreja" e não sabíamos que os donos do centro comunitário eram os padres. Eles ficaram putos e queriam barrar a gente na véspera do show. Só tocamos porque fizemos uma reunião com os líderes religiosos do local para explicar qual era a nossa posição política. Foi nessa época que o movimento começou a se politizar mais, pois procuramos ler sobre aquilo que falávamos nos palcos. Mas houve algumas casas de shows depois, como o bar Celeste, cujo dono era o Rolo, um cinqüentão que já tinha tido uma banda de rock nos anos 60 e ele dizia que entendia nossa situação. Então ele abria as portas de sua casa (que era de MPB) para as bandas de metal e punk da época. Depois houve o teatro Waldemar Henrique, mas isso já é outra história.

Foi nessa época que rolou a primeira demo de vocês, a que tu não tinhas mais a cópia. Fala um pouco dela.
Os estúdios eram todos de brega e quando gravamos nossa demo, acho que nem disco ainda havia sido lançado de rock, quanto mais de uma banda de hardcore. Então fomos cobaias do Rato, um batera que está até hoje na ativa e na época tinha um estúdio bem precário. Gravamos as bases lá e os vocais fizemos numa aparelhagem de bar. Como não tinha headphones, ficávamos
na sala ao lado com os microfones nas mãos (eu e o Sandro Srur, que hoje voltou pra banda) cantando com os ouvidos na porta, ouvindo as bases pelas frestas para ter uma idéia de quando a gente tinha que cantar. Parece piada, mas foi assim mesmo que gravamos.

Além dos Delinqüentes, que outras bandas faziam parte do movimento punk/hardcore nos anos 80?
Na segunda fase do movimento na cidade, havia o Contraste Social, a Gestapo, o Anomalia, o Protesto e o Desgraça Periférica.

Essas bandas eram todas ligadas ao anarquismo?
Pelo menos um integrante de cada banda ia nas reuniões que fazíamos. Éramos muito radicais na época, e quem não participava, não era considerada banda punk. Rolava até boicote aos shows.

Existiam bandas que só tocar, sem preocupação ideológica?
Sim. Chegamos a discriminar os brothers dos Babiloyds por causa disso. Quando lembro disso... Quanta besteira. Mas também era bom, pois era diferente de hoje, em que eu não vejo o pessoal fazendo nada. Não nos reuníamos apenas para beber. Fazíamos reuniões mesmo, e dali saíam os atos, os panfletos, as demos, os shows...

Como foi que surgiu esse movimento punk anarquista em Belém? Tu eras diretamente ligado ao movimento ou se concentrava mais no som?
Eu estava inteiramente ligado, embora não tenha sido algo que durou por décadas (como a minha relação com o Delinqüentes, por exemplo). Esse movimento partiu da necessidade natural de nos organizarmos. Não sei como está o movimento anarquista hoje na cidade. Tenho alguns amigos que ainda são, mas não tenho ouvido falar em ações. Mas na época, o anarquismo surgiu do movimento punk e não o contrário, como aconteceu em algumas cidades. Mas éramos muitos jovens e poucos tinham realmente uma identificação real com o assunto.

Eu queria que tu falasses um pouco sobre a Morada da Arte. Na tua opinião qual foi a relevância dela para a cena underground paraense?
A Morada da Arte teve várias fases também. Eu cheguei a ir lá na época que existia um grupo de quadrinhos da cidade, e havia a gibiteca. Foi lá que tive contato com os quadrinhos underground. Essa é uma recordação particular muito boa de lá. Anos depois, foram os anarquistas que tomaram conta da casa, então rolavam alguns atos, haviam algumas festas, como a "noite do vinil", que homenageava aquilo que já se encaminhava para uma suposta extinção. E outras mais. De lá me lembro bem também quando eu estava participando da banda Norman Bates. Foi a estréia da banda em um show super precário, com caixas amplificadas, mas significativo e marcante (além de bem barulhento).

Esse cenario punk/hardcore ainda existe hoje em dia?
Existe em alguns poucos casos, mas na maioria das bandas, isso está
adormecido. Fora as bandas que já nascem pensando que punk é aquele cara da MTV que fala de amor em cima de um skate. E ainda tem esse visual new "rebelde" que agora ajudou a confundir tudo. Não sou dos extremos. Acho que um pouco de ideologia pra essa moçada, mas sem o radicalismo que já passamos, não faria mal. Afinal, essa é a base de tudo.

Depois do início punk o Delinqüentes aparece nos anos 90 com um som bastante diferente, voltado mais para o metal crossover. O que aconteceu? Mudou a banda ou mudou o movimento punk?
Os dois. Várias bandas já haviam feito essa mudança. Não fomos os
primeiros. Mas o nosso se deu por um fator natural: as mudanças na banda. Quando o Pedrinho (outro que está de volta) entrou, ele trouxe as influências heavy nos seus riffs e nós achamos legal. Mas o bacana disso tudo é que nossas influências não param apenas no thrash metal, pois aceitamos outras influencias também que se acoplam perfeitamente ao nosso hardcore..

E os fãs antigos da banda?
No princípio alguns torceram o nariz. Isso aconteceu com bandas como Ratos de Porão e DRI, que também mudaram seu som. Mas os caras que curtiam a gente depois acabaram entendendo, e hoje já aceitam isso como uma grande evolução da banda.

Queria que tu falasses um pouco sobre aquela batida policial no Afrikan Bar. Isso te inspirou a compor algumas músicas do Delinqüentes, não foi?
Eu fui querer ser sincero com os policiais, que estavam acabando uma festa injustamente (N.E: um dos freqüentadores da festa foi pego com maconha na casa e a polícia acabou fechando o recinto). Fui preso, jogado no chão e passei a noite na cadeia apenas por reclamar de um direito meu e de todos que estavam lá naquela noite. Daí saiu a letra de "Planeta dos Macacos" que retrata bem a nossa impotência diante da "Lei".

O que mais te inspira na hora de fazer as tuas letras? A temática punk/anarquista ainda prevalece ou tu vais buscar inspirações em outras fontes?
A realidade urbana sempre me fascina, mas qualquer fato pode virar letra. Hoje elas estão mais diversificadas, mas nem por isso menos ácidas e agressivas. Só que de certa forma elas estão mais abertas a outras palavras e frases, o que é bem natural acontecer depois de duas décadas compondo.

Como tu analisas o cenário rock paraense nesses 20 anos de atividade?
Quando começou tudo era escasso, até os shows, tipo um festival por semestre. Lembro-me da Adega do rei, onde tocava o Mosaico de Ravena, o Metrópolis e outras, todas bandas que eu curtia. As bandas punks estavam totalmente na margem de tudo, a não ser o Insolência Públika, que conseguiu furar esse bloqueio. Nos anos 80 havia o festival Variassons. Nesse o Delinqüentes chegou a tocar. Depois se proliferaram as bandas, veio o teatro Waldemar Henrique (que nos anos 80 e 90 foi a meca do rock local) e as bandas se multiplicaram. Aí rolou o Rock 24 Horas, que acabou em porradaria na sua 3ª edição e tudo esfriou. Foram mais de 10 anos em que o rock estava meio que numa panela de pressão, só esperando a hora para explodir. Agora acho que o momento chegou. A hora é essa pra espalhar nosso poder de fogo.

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