Reflexões sobre o ato de fazer cinema

Foto de Luana Wernik
Still da produção do piloto "Samba de Uma Nova Gente"
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Samba de Uma Nova Gente · Brasília, DF
30/12/2010 · 0 · 0
 

Como podem ver, não sou um sujeito originário do cinema. Ainda sou um intruso recém chegado. Já freqüento festivais, contudo, há muitos anos, quase sempre como espectador. Devido ao “Samba de Uma Nova Gente” (www.sambanovagente.com), no entanto, tenho agora freqüentado festivais de cinema como “candidato a profissional” da área, circulando e articulando pelos bastidores, observando a construção técnica, econômica e artística dos filmes, e conhecendo gente que produz cinema no Brasil.

Conversando com diretores, produtores e roteiristas – e no momento em que muitos deles estão mostrando pela primeira vez seus trabalhos em público (um momento quase sempre de fragilidade e insegurança para quem lida com “arte”) – foi possível refletir tanto sobre o trabalho daqueles que administram os recursos necessários para viabilizar os filmes quanto daqueles que fazem cinema porque desejam “viajar” na criação artística (seja no roteiro, na fotografia, no “conceito”, ou onde mais for possível). Cinema é feito de arte, técnica e dinheiro, mas comecemos por aquilo que me atraiu a este universo.

Não há dúvida de que a “viagem” da criação artística é uma delícia: um gozo que não acaba em segundos. Tem sido muito bom conhecer pessoas que fazem cinema porque vibram com este prazer, e o perseguem continuamente. Esta é a vida que vale a pena. O ser humano sem arte é como um bonito pássaro trancado em uma gaiola, e que às vezes se debate: ou seja, é apenas um prisioneiro de sua condição. Consequentemente, quem tem necessidade de expressar o seu mundo através da arte, e não o faz, tende a se sentir como um sujeito atrofiado, tolhido daquilo que lhe dá vida.

Fazer cinema, contudo, exige ação, muita ação: muito trabalho, muita determinação, muito preenchimento de formulários, muita articulação de bastidores, muita ausência de estabilidade financeira. E tudo isso de maneira a tomar muito mais tempo do que a “viagem” criativa; tanto mais tempo que o lado artístico pode até acabar sendo deixado de lado. Existe, claro, o cinema sem arte, e ele está por aí, em todo lugar, movimentando muitos técnicos, muito dinheiro, muito prestígio. Este tipo de cinema (predominantemente cinema como entretenimento puro), no entanto, parece não interessar à maioria das pessoas que fazem cinema no Brasil. Aqui, como se sabe, não existe uma “indústria de cinema”, e isso, de certa forma, tem o seu lado positivo: uma maior liberdade criativa, além de uma menor subserviência da arte aos empresários do entretenimento em massa. A maioria das pessoas que fazem cinema no Brasil, portanto, o fazem por necessidade de se expressar artisticamente, para o que é fundamental a liberdade criativa.

Por outro lado, a não existência de indústria de cinema no Brasil tem suas desvantagens. A principal delas é a ausência daquilo que a lucratividade comercial costuma fazer com tudo aquilo que toca: promoção e publicidade em larga escala, atração de investimento diretamente ligado à possibilidade de lucro, distribuição do produto a grandes públicos, etc. Não havendo predomínio desse lado comercial no cinema brasileiro, ocorre que a produção cinematográfica nacional fica sem a possibilidade de ser uma atividade economicamente autônoma. Ou seja: o cinema se torna dependente do dinheiro público, e com todas as vantagens e desvantagens que isso gera.

Em suma, temos que, no Brasil, quem se envolve com cinema, mesmo que com um ideal predominantemente artístico, acaba tendo que se tornar também um “burocrata”. A pergunta que mais costumo ouvir em festivais é sobre “editais” para captação de recurso. Infelizmente essa burocratização estatal parece inevitável a um cinema que não é independente enquanto bem cultural; ou seja, que não consegue sobreviver apenas pela relação direta com o público de cinema. Afinal, a maior parte da produção cinematográfica brasileira continua com grande dificuldade para chegar às platéias, encerrando suas carreiras, no melhor das hipóteses, nos festivais.

Um cinema sem público, todavia, tem também seus prós e contras. Por um lado, ele pode ficar livre de ter que agradar e entreter o espectador; mas, por outro lado, ele pode se tornar um cinema “vazio”, tão vazio quanto o cinema que existe apenas para entreter e agradar. Um dos buracos negros em que pode cair o cinema que não precisa dialogar com o publico é se tornar “intelectualista” ou “conceitual” demais. E arte, felizmente, não é obscurantismo e intelectualismo intencional. Isto é perversão intelectual, o extremo-idêntico do cinema como entretenimento puro. Arte, ao contrário, é a máxima possibilidade de se expressar muita coisa com poucos símbolos; o oposto, portanto, do obscurantismo intencional, que apenas deseja simular que expressa muita coisa ao se tornar intencionalmente confuso.

Outra armadilha inerente a um cinema que se mantém desvinculado de público é a possibilidade de produções muito ruins, desde sua base, acabar virando filmes, com algumas centenas de milhares de reais investidos. Se um argumento para um filme, depois um roteiro e depois um projeto (e assim por diante) não são avaliados, em nenhum momento, por pessoas que têm a sensibilidade de um espectador comum, esses projetos podem seguir sendo trabalhados até resultarem em filmes que talvez não devessem existir. Nem sempre uma viagem criativa irá necessariamente interessar outras pessoas. É mais fácil uma viagem criativa não se tornar a “obra de arte” que inicialmente parecia ser do que o oposto. Sem boa produção e sem técnica adequada, mesmo uma boa viagem criativa pode tranquilamente virar um fiasco.

De qualquer modo, cinema feito sem a viagem criativa dos realizadores é uma lástima para o espectador que realmente gosta de cinema. E não estou me referindo apenas a intelectuais cinéfilos que se esforçam por esbanjar sua memorização de nomes de diretores e de filmes. Isso é outra coisa. Estou falando do espectador comum, aquele que assiste um ou dois filmes por semana, no cinema, na TV, no DVD ou no computador, e que deseja ser seduzido por um filme que o faça “viajar”, por duas horas, para dentro de uma história bem contada, verossímil, sedutora, que atice sua curiosidade, que lhe provoque identificação e empatia, e que lhe comova ou lhe traga alguma reflexão; e, de preferência, que tenha tudo isso acontecendo simultaneamente, e sem que ele, espectador, necessite fazer muito esforço para pode “viajar” (como, por exemplo, o esforço que seria necessário para ler as primeiras páginas de um livro). Não por acaso o cinema às vezes é chamado de a arte total, a máxima transcendência cognitiva que alguém pode alcançar mantendo seu auto-controle, sua individualidade e sua passividade – afinal, psicodelismo lisérgico e catarse religiosa são difíceis de se atingir, e também muito arriscados, não sendo experiências toleradas cotidianamente pela maioria das pessoas. Ou seja: arte é fundamental, mas não garante nada.

Já assisti muitos filmes bons em festivais de cinema (filmes que depois nunca mais ouvi falar); mas também assisti, como em qualquer festival que se preze, muitos filmes ruins, e alguns até péssimos. Assisti filmes de muito baixo orçamento que foram bons: filmes digitais, curtas, filmes muitas vezes até amadores; porém feitos com “viagem”, com tesão, com arte. E assisti filmes caros, com boa produção, com técnica impecável, mas que ficaram vazios de sentido de existir: não contaram ao que vieram, não cativaram, não conversaram com quem queria apenas ser espectador. Filmes sem arte (ou filmes intencionalmente obscuros querendo simular arte) podem ser ainda mais melancólicos do que bonitos pássaros trancados em gaiola. Podem ser como animais empalhados: parecendo ter tudo, menos vida.

Mas “viajar” na arte de fazer cinema, além de não ser garantia de resultado, também tem seu preço: sem pé no chão (ou seja: sem dinheiro, sem administração burocrática do ato de fazer cinema e sem auto-crítica coletiva), o vôo pode resultar apenas em queda e dor. Um “artista” pode até viajar sozinho, mas pode não conseguir fazer sua viagem ganhar materialidade ou, simplesmente, se tornar interessante. E o maior horror de todo “viajante” criativo é o solipsismo: aquilo que ele expressa não vir a ser ouvido ou entendido por ninguém. Quedas e solidão, portanto, são o risco de qualquer viagem criativa. O materialismo (a conformidade com a “vida na gaiola”) é a salvaguarda de quem não quer correr riscos. E cinema sem riscos é entretenimento puro. E nem todos os espectadores querem apenas isso o tempo inteiro.

Em cinema, então, viagem artística, por fundamental que seja, não é tudo. Burocracia (preenchimento de papéis, muitos papéis), trabalho técnico (de roteirização, de fotografia, de direção de atores, de atuação, de figurino, etc.), produção executiva (a organização administrativa de tudo que é necessário ao filme) e muita discussão e auto-crítica são também necessários a uma obra que se faça “assistível” e com razão de ser.

Já assisti em festivais de cinema muitos filmes ruins por falta de atuação convincente dos atores, por falta de figurino e locações verossímeis, por falta de roteiro de qualidade e até por excesso de pressa na hora de filmar. Em todos estes casos, parece ter faltado profissionalismo (técnicos competentes, produção de qualidade e, muito provavelmente, dinheiro para tudo isso) ou senso crítico dos envolvidos. Quer dizer: houve quem viajasse sem base alguma para sustentar seu vôo, mesmo tendo conseguido transformar sua viagem (que talvez devesse ter sido abortada logo de saída) em película.

Para que alguns “viagem”, portanto, não há dúvida: alguns outros têm que manter o “senso de realidade” aguçado, bem como a capacidade de agir técnica e burocraticamente com profissionalismo. Ao escrever um livro, o autor pode abandoná-lo por uns tempos e, ao relê-lo, muito depois, decidir se a obra merece nascer ou morrer (tornar-se pública ou não). Quer dizer: às vezes a “viagem” pode ser ótima, mas o resultado (em termos de arte para outras pessoas apreciarem) pode ser desprezível. Quem quer viajar tem que suportar a tristeza e a dor da decepção, da viagem que pode apenas jogar ao chão tanto mais forte quanto mais alto for o vôo.

Cinema é um projeto coletivo, uma viagem de muitos e também uma produção de muitos técnicos e burocratas, e algo ainda muito caro. Para uns viajar, outros têm que pôr o pé no chão. Mas isso também vale no sentido oposto: para alguns ganhar dinheiro (mesmo que seja um minguado dinheiro público), outros têm que decolar na criatividade. Afinal, mesmo para entreter é preciso ser criativo.

Nos festivais de cinema que tenho assistido essas quatro possibilidades de filmes (que se infere dos parágrafos anteriores) costumam estar sempre muito bem representadas. É fácil vermos os filmes vazios (sem arte, ou seja, sem “alma”, sem razão de existir), os filmes ruins (sem técnica e sem produção de qualidade), os bons (com técnica e com arte, ou às vezes somente com arte), e os vazios e ruins, quer dizer, os filmes sem arte e sem técnica, péssimos.

Arte, técnica e trabalho administrativo (todos em bom nível) são os requisitos mínimos para um filme poder vir a ser muito bom, ou ao menos bom, “assistível”. Por isso filmes muito bons são raros, muito raros. Mesmo grandes diretores, com uma boa equipe técnica e com recurso e capacidade administrativa suficientes, costumam ter, ao longo de uma vida inteira dedicada ao cinema, um ou dois filmes muito bons. É realmente de se admirar quando isso acontece. O cinema, por mais que se esforce, nunca consegue ser totalmente uma indústria: nem sempre tudo que deu certo consegue ser repetido. E se for repetido, nem sempre dará certo. Por isso o cinema contínua sendo arte, até mesmo onde parece ser apenas indústria de entretenimento.


(Reprodução permitida desde que citados autor e fonte: www.sambanovagente.com)

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