Não foi preciso muito. Naqueles minutos antes das luzes se desligarem definitivamente e o telão anunciar seu nome como “diretoraâ€, Hilda Maria dos Santos fez questão de deixar claro aquilo que no filme fica ainda mais evidente: o que movimenta sua vida – seja na tela branca ou no mundo real – é o medo, e o como lidou com ele.
O medo do qual ela fala não é aquele pavor quase que primitivo. Não é sobre medo do escuro, medo de assombração e nem mesmo de abrir a janela de casa e ver uma tocha de fogo no meio do campo – como propõe a sinópse de seu curta-metragem recém-finalizado, “Enterroâ€. O que ela sentia, era o medo concreto e consciente da então garota de 18 anos, moradora da zona rural, que chegava a ficar um mês inteiro sozinha em casa e com criança pequena para cuidar e sem ter a quem pedir ajuda. Medo de quem se sente perdido e não sabe o que fazer.
“Meu marido saia pra levar o gado e ficava semanas sem aparecer. E foi nesse tempo que eu abri a janela e vi aquele fogo vindo lá do campoâ€, relembra Hilda, que usou dessas memórias para criar a história de Enterro. A cena se repetiu mais duas ou três vezes, mas ela nunca perseguiu o chamado. Nem mesmo quando lhe contaram que o fogo indicava ouro. “Diziam que quanto maior a tocha, maior o enterro, e que ele tava guardado pra mim. Mas eu nunca dei conversa pra essas coisasâ€, simplifica.
Enfrentamento
Mineira criada em São Paulo e radicada em Mato Grosso do Sul, Hilda já fez de tudo na vida. Foi manicure, cabelereira, costureira e até professora de escola pública – aos poucos, deixando para trás aquela imagem de moça solitária de quando via os enterros. Exatamente por isso, quando o marido decidiu voltar para o campo e ir morar num assentamento na região de Terenos/MS, ela temeu. “Pensei que ia ficar a vida toda cuidando de casa, esquentando comida. Justo eu que não conseguia ficar parada!â€.
Depois de muito pensar, Hilda bateu o pé e não foi. Preferiu ficar na capital, Campo Grande. A decisão, no entanto, não durou muito tempo. “Eu não conseguia dormir, ficava nervosa. Fiquei com medo de entrar em depressão e fui de volta pra Terenosâ€. No entanto, o espÃrito inquieto não a deixou ficar parada nem um minuto, e ela começou a participar de cursos de artesanato e extensão rural por todo o estado. Foi assim que acabou conhecendo o produtor Carlos Sandim, ex-participante do Revelando Brasis, que a incentivou a enviar sua inscrição para nova edição do projeto. Deu certo. Hilda estava vendendo queijo na rua quando enfim recebeu a ligação de que seria a diretora de seu próprio curta.
Quase no final do filme, a personagem de Hilda – interpretada por sua cunhada – finalmente decide ir atrás do tesouro. “Eu vou! Vou com medo, mas eu vou!â€. Na vida real, ela também enfrentou seus medos e foi batalhar. Trabalhou, estudou e foi trilhando sua estrada. Enquanto no filme, de maneira quase ingênua, a vida da personagem muda da água para o vinho graças ao ouro escondido – com direito à roupa nova para a famÃlia, casa reformada e festa para a comunidade – a Hilda do mundo real continua atrás de sua recompensa. No entanto, trabalha dia a dia para construir seu caminho, e não simplesmente senta em frente a janela a espera de alguma tocha de fogo.
Enterro
Histórias sobre tesouros enterrados percorrem o imaginário coletivo do mundo inteiro. Mesmo no Brasil, existem diversas versões para a lenda. As versões citam histórias de fantasmas de fazendeiros que morreram apegados as riquezas materiais, capatazes que partiram para o outro mundo com a missão de proteger o segredo do tesouro ou mesmo entidades como a mãe-do-ouro, um ser sobrenatural que aparece em sonhos para um escolhido, indicando com uma luz o local do ouro escondido.
Em Mato Grosso do Sul a versão mais comum da lenda diz respeito ao perÃodo da Guerra do Paraguai. Mesmo nesse caso, existem várias histórias diferentes. Dizem, por exemplo que o General Solano Lopez – comandante das tropas paraguaias – temendo pelas riquezas de seu paÃs, enterrou o grande tesouro nacional em uma série de locais ao redor da fronteira desde o Brasil até a Argentina. Outra versão diz que os próprios paraguaios escondiam seus pertences mais valiosos em grandes panelas de cobre ou barro, e as enterravam em lugares estratégicos antes de partir para servir ao exército.
O Enterro de Hilda nada tem a ver com o Paraguai. Terenos não fica nem perto da fronteira com o paÃs vizinho. Ainda assim, ecos dessas histórias se refletem em diversos lugares diferentes, sempre com as mesmas orientações. Se o enterro está reservado para uma pessoa especÃfica, ninguém mais que o procurar irá encontrá-lo. Mais do que isso, caso a pessoa a quem o ouro está destinado não vá sozinha campear enterro, tudo que encontrará será barro ou carvão ressecado.
Revelando os Brasis
O projeto que permitiu que Hilda fizesse seu filme se chama Revelando os Brasis, uma iniciativa do Instituto Marlin Azul, do EspÃrito Santo, em parceria com a Petrobrás. O edital de formação audiovisual é voltado para brasileiros que moram em cidades com menos de 20 mil habitantes, mesmo que nunca tenham tido qualquer contato com a produção de filmes.
“Eu choro porque na minha cidade não tem nem sala para passar filmesâ€, relata em vÃdeo uma das participantes. “E hoje eu estou aqui… fazendo cinemaâ€. Assim como ela, um total de 40 participantes foram selecionados para esta que é a quarta edição do programa. Todos os participantes são levados para o Rio de Janeiro, onde recebem cursos que vão da produção e roteiro até a captação e finalização do filme. O projeto contrata uma produtora, que ajuda na elaboração do curta-metragem, que deve mobilizar a comunidade local.
Cada ano do projeto demora, na verdade, dois para ser finalizado. No primeiro são as aulas, os cursos e a produção. No segundo são os circuitos de exibição por todo o Brasil, finalizados em um box com todos os filmes em DVD. Nesta edição, a previsão é percorrer 30 mil km em 56 sessões de cinema por cada um dos estados produtores.
Carlos Sandim, o produtor do filme de Hilda, foi participante da edição passada de Revelando Brasis. Gostou tanto que abriu uma produtora. Assim como ele, diversos outros participantes se empolgam tanto com o audiovisual que seguem o mesmo caminho. Hilda, por exemplo, pretende gravar as artesãs de seu assentamento trabalhando. “Eu já fiz esse pensando em fazer depois com elasâ€, anima-se.
Muito Bom!! A propósito, nunca mais ouvi falar do Revelando, uma das idéias mais interessantes da primeira gestão do MINC.
Abraço,
Olá Zezito! Que bom que gostou da matéria. Atualmente o Revelando Brasis está circulando os vÃdeos produzidos na sua IV edição (8º ano). Você pode acompanhar por onde anda o circuito pelo http://www.revelandoosbrasis.com.br/blog/ .
Tem também uma iniciativa nova e muito interessante que é o Raio X, um "reality show" que acompanha uma das participantes do revelando brasis na feitura do seu curta! Os 5 episódios lançados até agora estão no youtube em http://www.youtube.com/raioxpetrobras#p/u/5/YUwpoR66Lpg
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