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Rimadores pequizeiros

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Edson Wander · Goiânia, GO
12/5/2006 · 67 · 0
 

Testemumha Ocular agita o rap goiano valendo-se das tradições culturais do Cerrado e fazendo música com Marcelo D2 e a turma do novo rap paulista

Em Pernambuco, foram artistas com pendores ao rock que buscaram nas tradições um amálgama que deu no mangue bit. Em Goiás, antes mesmo do rock, foi o rap que absorveu a catira, folia de reis, a moda de viola e outras tradições do Cerrado. O grupo Testemunha Ocular iniciou o artifício em 2000 (o rock, com os CarasLegais, só a partir de 2002), com um EP de seis músicas que apresentava o movimento Bate-Cabeça do Cerrado (UBC2). Agora, o grupo (na verdade um trio, formado pelos MCs Claudim e Lethal e o DJ Eduardão) aprofunda a busca em Frutos da Rua, primeiro disco "cheio" em que trazem Marcelo D2 e o rapper paulista Paulo Napoli para integrar o experimento que une a cultura nativa do cerrado com o cosmopolistimo rimado. É pequi com scratch.

"É experimento mesmo, passamos mais de um ano construindo as músicas, sampleando os trechos das tradições para costurar nas bases e não sabemos bem onde vai dar isso", explica Cláudio Roberto dos Santos, o MC Claudim. São 15 faixas em que o grupo entremeia no canto-fala palmadas de catira, acordes de viola caipira e risadas de Geraldinho Nogueira (1915-1993), figura que fez história em Goiás nos anos 80 pelo jeito naturalmente jeca e carismático de contar “causos”. Algumas músicas são de feliz construção, como em União Enfumaçada, um freestyle (rima instantânea) com Marcelo D2, outras nem tanto. "Fazer samba com rap é fácil, o problema é fazer rap com tradições de frágil notação e conhecimento formal", acha Claudim, comparando as misturas do Testemunha Ocular com a experiência de samba-rap de Marcelo D2 que deu no disco À Procura da Batida perfeita.

Na União Enfumaçada com os rappers goianos, o carioca cita frases do disco dele (de 2003, Sony). MC Claudim explica que a parceria com D2, gravada em setembro de 2003, surgiu nas primeiras vindas dele à extinta casa de música eletrônica Pulse Club & Lounge, bem antes, portanto, do crescimento da fama de D2, do disco com a MTV e de shows para grifes de moda.

Além das tradições, o Testemumha Ocular flerta com gêneros e músicos de paragens diversas. Dom Divino exibe samples de folia sob base hip hop com rasgados riffs de hardcore do grupo Corja. É a trupe roqueira do selo Two Beers or Not Two Beers, espécie de lado B do rock independente goiano. E tem mais rock no disco, reprocessado numa Sociedade Quase Alternativa evocando Raul Seixas. O produtor do álbum do Testemunha (que saiu pelo selo Two Beers...) também é roqueiro, Edson Cruzorff (líder da banda Cruzorff).

"Lançamos o CD por um selo de rock por falta de alternativas no movimento hip hop daqui. Mas o Bate-Cabeça quer mesmo ampliar as possibilidades do rap, mostrá-lo com irreverência e outra visão dos conflitos sociais", recita o Mestre de Cerimônias enumerando parceiros dentro e fora do disco Frutos da Rua: o grupo percussivo Coró de Pau, Som Ativo (que funde rap e capoeira), o violeiro folião Domá da Conceição, o grupo de reggae Mamma Jamma. Co-assina com eles no álbum os Rimadores Pekizeiros, grupo de rap formado por 12 pessoas incluindo pesquisadores acadêmicos.

MC Claudim bota o movimento Bate-Cabeça no contexto do novo rap nacional. Puxado pelos rappers de São Paulo, o hip hop brasileiro busca se desvencilhar do arremedo norte-americano incutindo coisas do Brasil no som e novas nuances na prosa violenta que costuma caracterizar a rima. "A gente canta o que a gente vive, mas queremos evitar o caminho único que o rap vinha tomando", resume ele, que mora no Setor Norte-Ferroviário. Nas regiões norte e noroeste, as mais pobres da capital, estão os principais personagens do rap goiano.

Mesmo com suas diferenças (mais de execução do que ideológicas), os diversos grupos de rap de Goiás movem-se juntos para "criar a cena", nas palavras de MC Claudim. Um destes principais pontos de convergência, os grupos de cultura de rua de Goiânia encontraram no evento batizado de Hip Hop Rua. Em duas edições ampliadas já realizadas, rappers, MCs, DJs e b-boys se irmanam para celebrar a caminhada que cada qual vai fazendo em seu bairro ou região de atuação. Essa movimentação foi registrada para virar um documentário em DVD, preparado com apoio da turma do Centro de Mídia Independente em Goiás (CMI).

Nesse esforço de organização (que começa a ter também um ponto de referência comercial na Hocus Pocus, outrora sebo-trincheira de roqueiros), a aproximação com os pares paulistas é um salto que tomou novo impulso há pouco. Testemunha Ocular e o Doxsoul integraram uma coletânea que foi lançada por Paulo Napoli, um dos produtores de proa do underground paulista (é parceiro de, entre outros, Parteum e Rappin’Hood).

Raps de verão, disco produzido de forma independente, reúne em 16 músicas de grupos, rappers e MCs de vários cantos do Brasil. O Testemunha Ocular mandou a faixa-título do novo disco, enquanto Doxsoul (projeto do MC Geibson) abre a coletânea com Depois da Primavera. O som de todos eles (tem gente do Rio, Blumenau, Curitiba, etc.) busca driblar a rima dura das favelas e as monocórdicas bases (tem trompete e flugel puxando uma melodia jazzy em A Cartilha, do grupo A Filial). O Testemunha Ocular vai mostrando Frutos da Rua em praças públicas, em festas sempre recheadas de outros "crews" (grupos) de break e rap. Um segundo álbum-coletânea já está sendo programado, agora todo feito em Goiás e só com “manos goianos”. Eles nunca se movem sozinhos e esse parece ser o principal trunfo.

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