Rock In... Comunidade

Márcio Inohara
Parallellus, no Banana Rock edição Hamamatsu
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Roberto Maxwell · Japão , WW
6/5/2008 · 137 · 0
 

Bandas de rock tentam sair da invisibilidade no cenário musical da comunidade brasileira no Japão

Texto: Roberto Maxwell
Imagens: Márcio Inohara

Atitude e guitarras, nem sempre tão distorcidas, são elementos (quase) indispensáveis no rock. Além, é claro, de um certo sectarismo que põe o estilo em confronto com outras tribos. Ressalte-se que mesmo dentro do ritmo há distinções: tem o pop rock, o hard rock, o heavy metal, o punk rock, rock progressivo, metal rap e um monte de outros subgêneros cuja lista facilmente encheria esta página. Porém, quando o assunto é comunidade brasileira no Japão, todas as facções sofrem de algo em comum: num domínio onde o pagode e o sertanejo têm preferência, sobra a invisibilidade para bandas de rock.

Para mudar isso, amantes do estilo em Komaki (província de Aichi, centro-leste do Japão) resolveram partir pro contra-ataque: capitaneados pelo músico e produtor Karlinhos Taira, eles produziram o Banana Rock Festival, que chegou à sua terceira edição no dia 10 de fevereiro com o maior publico registrado até o momento (150 pessoas) e trazendo uma questão: existe espaço para o rock na comunidade brasileira no Japão?

Amigos de fé

Seis bandas se apresentaram na terceira versão do Banana Rock e grande parte delas compartilha uma história comum: músicos desde o Brasil, seus integrantes vieram ganhar a vida no Japão. Deixaram tudo para trás, exceto a paixão pela música. Alguns até tentaram deixar o hobby de lado, como foi o caso de Karlinhos Taira. Há 14 anos, quando ele deixou o Brasil, prometeu a si mesmo que iria se afastar da música. “Mas, isso é mais difícil de largar que droga”, conta ele, às gargalhadas. Desde que chegou ao Japão, Taira já fez parte de várias bandas e hoje, paralelo ao trabalho em fábrica, comum à grande maioria dos dekasseguis, produz eventos como o Banana.

A fábrica foi o local de encontro para membros da maioria das bandas presentes na terceira edição do Banana Rock. Entre um kyukei (intervalo para descanso) e outro, os músicos escondidos debaixo do uniforme vão sendo revelados e, de afinidade em afinidade, bandas começam a germinar. Outro espaço onde muitas bandas surgem são as igrejas. Um exemplo é a Made In Brasil, banda de estilo eclético, formada por moradores de Minokamo (província de Gifu, centro-leste do Japão) e Kanie (Aichi), Boa parte de seus membros se conheceu nas atividades da Igreja Católica. Um outro espaço onde bandas podem se formar é a escola. Esse foi o caso da banda punk 25 de março. 3/4 da banda dividiam os mesmos bancos escolares. O quarto membro foi recrutado nos shows de punk rock que o grupo frequenta, em lugares underground da cidade de Nagóia, como o Huck Finn.

Sem as tradicionais garagens que deram origem a não-sei-quantas boas bandas ao redor do planeta, os ensaios ocorrem em estúdios. E nesse quesito, o Japão é imbatível. Ao contrário do que ocorre no Brasil, estúdios de ensaio são baratos no país e, de quebra, costumam ser muito bem equipados. “Muitos kaikan (centros comunitários) têm bons estúdios por preços que variam entre 800 e 1000 ienes (entre 13 a 17 reais) a hora”, recomenda o experiente Karlinhos Taira. Estúdios particulares costumam ser um pouco mais caros, mas não passam de 1500 ienes/hora (24,40 reais). Por esse motivo, o produtor considera que “o Japão tem um ambiente excelente para a formação de novas bandas”.

Papai, mamãe, titia...
Apesar do número recorde de 150 presentes na terceira edição do Banana Rock, grande parte do público do evento era formado pelos familiares e amigos das bandas que subiram ao palco. “O Banana está unindo as famílias”, diz o organizador Karlinhos Taira a respeito dos pais e mães que vêm ver os filhos tocarem no evento. A presença de amigos e parentes não foi por acaso. Para participar do Banana Rock, cada banda precisa vender 10 ingressos. “É uma forma dos caras lutarem pelo público também”, conta Taira que produz um flyer virtual que é enviado para as bandas semanas antes do evento acontecer. “Eles colocam no Orkut, no myspace, divulgam pela internet”, explica ele.

Minoru Yamada foi o cameraman exclusivo da Made In Brasil. Pai de dois integrantes da banda, os gêmeos Maurício e Kazu, o senhor ainda acumulou a função de motorista. “Fui obrigado”, conta ele, cheio de bom humor. Para ver a Made In Brasil vieram, também, o casal Yuji e a japonesa Jaziel. Yuji é amiga de trabalho de um dos membros da banda e apesar do Made In Brasil ter sido uma das primeiras bandas a se apresentar, elas ficaram até o final do evento. A japonesa Jaziel gostou do Ventura, o último grupo a se apresentar. Ela, que fala bem português, fazia seu debut na casa de Komaki e pretende voltar mais vezes.

Cover bands
Para quem não entende o jargão da música, cover é a performance ou a gravação por uma banda ou artista de músicas compostas ou que ficaram famosas nas mãos de outros. Há muitos artistas que se especializam em cover, alguns delas chegam a alcançar relativo sucesso com isso. No Brasil, o melhor exemplo é a cantora carioca Danni Carlos, que lançou quatro discos de covers desde 2003 até chegar ao seu primeiro trabalho “autoral”, no ano passado. Dos grupos que se apresentaram no Banana Rock, apenas o Latitude 35 mostrou música própria e, mesmo assim, foi apenas uma. As demais bandas passearam no universo dos covers, principalmente de canções de sucesso dos anos 80, um apelo fácil que atinge em cheio o público. Falta de criatividade? Não. A maioria das bandas entrevistadas considera que tocar música própria é o ideal. Muitos dos músicos, inclusive, contam que estão cheios de composições para mostrar. Mas, na prática, a situação se complica. “Se a gente começasse com música própria, não nos deixariam tocar nos eventos”, explica Dishin, do Ventura, banda que se apresentou pela segunda vez no Banana.

De fato, a maioria das casas prefere que as bandas façam cover. Mas, há outras razões para se tocar músicas de outros artistas. “O cover harmoniza os músicos”, diz Sergio Kojima da banda Eckus. De fato, tocar músicas conhecidas por todos do grupo promove o entrosamento de músicos que estão se conhecendo. Além disso, como as bandas só se encontram uma vez por semana, músicas conhecidas são mais fáceis de “tirar”, ou seja, de aprender. Com isso, os músicos podem chegar nos ensaios com o “dever de casa” pronto.

Porém, mesmo tocando covers, as bandas não conseguem se tornar conhecidas o suficiente para garantir um espaço no mercado, mesmo o de apresentações em bares e casas noturnas voltadas para os brasileiros. Por isso, e por outros problemas, a grande parte dos grupos não dura muito.

Vida curta
A maioria bandas da terceira edição do Banana Rock estava subindo ao palco pela primeira vez. Não que os músicos fossem novatos. Pelo contrário, como falado anteriormente, muitos deles vinha com experiência do Brasil e havia tocado em outras bandas desde que se tornaram migrantes. Porém, a efemeridade é uma característica dos conjuntos montados no Japão. Não são raras as histórias de mudanças de nomes, fusões gente que tocava junto em um grupo que acabou e decidiu formar outro... A variedade de combinações é enorme e mostra que, mesmo trazendo em si o enorme desejo de tocar, os músicos não conseguem montar grupos estáveis e duradouros.

Muitos atribuem o problema ao dia-a-dia a que estão submetidos. “O cotidiano do Japão é muito pesado”, conta o organizador Taira. Quase todos os outros artistas fazem coro. “A gente deixa a família e os amigos para poder ensaiar aos domingos. Isso nem sempre é possível”, conta Chico, vocalista da Eckus, a mais longeva das bandas desta edição do Banana, com dois anos de estrada, cheios de percalços.

Porém, a questão da “vida pesada” não é unanimidade. Alexandre Pancada, que não tem banda no momento, é um que pensa diferente. Ele acha que o maior problema é o fato dos músicos tocarem o que não gostam, apenas para agradar o público. “Os músicos da banda precisam se entrosar, gostar do mesmo estilo para dar certo”, afirma ele. Arion Geraldy do Eckus faz coro. “A verdade é que todos nós gostamos de tocar rock pesado, mas não tem público pra isso na comunidade”, lamenta ele. Falta de tempo também não é desculpa para Rafael Karasu, do Nomares, que não se apresentou no Banana, mas fez parte da comitiva punk rock que foi dar força aos estreantes da 25 de Março. “Tenho quatro bandas”, surpreende ele, que trabalha em fábrica e organiza seu tempo de modo a poder comparecer aos ensaios dos quatro grupos e, ainda, manter a Karasu Killer, uma espécie de selo independente que lança bandas de estilos alternativos de rock de vários cantos do mundo.

Mercado japonês?
Apesar de jovem, Rafael tem feito um trabalho que chama atenção. O Nomares, sua banda de punk rock, produziu um CD demo e faz a maior parte de seus concertos para o público japonês. Foram eles que abriram um dos shows da turnê japonesa do Mukeka di Rato, uma das mais bem-sucedidas bandas recentes de punk rock no Brasil. Ele acha que os grupos brasileiros precisam vivenciar mais a experiência de tocar para os nativos. “Os eventos feitos por japoneses são diferentes, tudo é muito organizado”, garante ele após criticar o Banana Rock que começou com atraso de quase duas horas. Alexandre Pancada emenda destacando a falta de tempo, no Banana, para a “passagem o som”, ou seja, um momento em que as bandas tocam algumas músicas para que o técnico responsável pelos equipamentos de possam regulá-los adequadamente. “Sem passar o som, as bandas também entram no palco frias”, diz ele. O organizador explica que nem sempre é possível fazer a passagem de som por causa do tempo. “As bandas teriam que chegar as 8 da manhã e ninguém está a fim disso”, defende-se ele.

Apesar do exemplo do Nomares (e de outros grupos de punk rock), a maioria das bandas de rock brasileiras é cética quanto ao mercado japonês. Os músicos consideram que, diferentemente do samba e da bossa nova, o rock brasileiro não tem apelo junto aos nativos. Por isso, preferem centrar seus esforços na comunidade, onde acreditam que terão mais espaços para se apresentar. Mas, isso não é o que deseja Karlinhos Taira. Dentro do projeto Banana Rock está embutido um trabalho social que visa, em última instância, mostrar para os japoneses que os talentos dos migrantes brasileiros. Taira acredita que o Banana pode ser uma ferramenta importante de aproximação entre os jovens brasileiros e destes como os japoneses. Por isso, ele pretende fazer a gravação de um single, em japonês, com sua banda o KTNT que será lançado por um selo nipônico. “Esse single vai abrir as portas para uma coletânea que será gravada com algumas das bandas que passaram pelo Banana”, conta ele. A coletânea teria, ainda, produção de P.A. da banda RPM. Com o produto em mãos, ele quer colocar as bandas brasileiras nas rádios locais e apresentá-las ao público nativo.

Ainda em formação, a cena de rock na comunidade brasileira é cheia de controvérsias. Mas, se depender da empolgação com que as bandas se apresentaram no Banana Rock, tanto o evento quanto a coletânea serão um sucesso. No entanto, no domínio do pagode e do sertanejo, ainda há muito chão a ser conquistado.

Publicada originalmente em Alternativa Nishi.

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Banda em ação no Banana Rock zoom
Banda em ação no Banana Rock
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Os estreantes da 25 de Março defenderam o punk rock
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Karlinhos Taira é o organizador do Banana Rock
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A banda Ventura se tornou uma das preferidas do público

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