Tão boa quanto a que tem nos livros.

Exposição Plastipopstellianas de Nivaldo Carneiro, na Galeria Espaço Imaginário
"Gugu Dadá" de Nivaldo Carneiro, Exposição Plastipopstellianas
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luisa gomes cardoso · Rio de Janeiro, RJ
22/11/2010 · 7 · 0
 

Para muito além de qualquer cerebralismo sistemático, que busca aprisionar a causa de todas as coisas em modelos racionais de decodificação, o objeto de arte deve ser compreendido também como uma das funções do espírito. Pode-se buscar de várias maneiras informações diversas para interpretar uma obra-de-arte, entretanto, existe um conteúdo subjetivo que não é facilmente dado e que deve ser sentido. Segundo Pierre Francastel, o objeto de arte pertence a uma atividade do espírito que está intrinsecamente ligada ao processo criativo.

Pensando na versatilidade do processo criativo e na conseqüente especialização sígnica gerada por essa força imaginante, que coloca as culturas sempre em movimento, cabe fazer uma breve análise dos três trabalhos executados pelo artista plástico Nivaldo Carneiro e que podem ser vistos a partir do dia 24 na Galeria
Espaço Imaginário.

Sem a pretensão de desvendar os segredos da subjetividade humana ou mesmo de revelar a origem do processo criativo, nos aproximamos dos trabalhos de Nivaldo Carneiro com intuito de explorar o universo sígnico que dialoga tanto com a história da arte; com o estatuto da artista quanto com o mais banal cotidiano, e
com os objetos materiais que compõem essa realidade compartilhada.

A obra intitulada “Tão boa quanto a que tem na lata” é uma assemblage de conceitos extraídos diretamente das páginas 50 e 51 do livro “Arte Contemporânea: uma história concisa” de Michael Archer, e põe em prática o seguinte princípio: “o que se vê é o que se vê”. Faz parte de um experimento que tem como finalidade compartilhar com o espectador a observação pessoal do artista em relação às cores que edificam o mundo, tais como elas são sem ilusionismos.

Um fruir coletivo das visões particulares que Nivaldo Carneiro selecionou a partir da memória afetiva da paisagem eleita - uma versão debochada da “praia de Búzios”, localizada na Ilha do Fundão. As cores presentes nos relevos são as mesmas cores vivas dos barcos, botecos, barracos e malocas que ganharam uma nova forma, na interpretação poética de Nivaldo, mantendo seu elo cromático. Essas formas são compostas por relevos inspirados na Minimal Art, apoiados nas paredes de maneira a criar uma pequena inclinação suficiente para que as tintas em cores variadas (branco, verde, azul, laranja) pudessem escorrer pelas canaletas, criando um extraordinário impacto visual capaz de provocar uma tênue oscilação na retina.

Há um dado subjetivo que escapa às análises formais tradicionais: o resultado do trabalho sugere um ritmo, uma vibração, e o formato final do conjunto da obra, dentro dessa instância menos óbvia, parece ligar-se com a
forma de um instrumento de corda. Essa percepção é reforçada pela ação performática desenvolvida por Nivaldo Carneiro, transformando sua criação visual em evento performático musical entoando as palavras de
Frank Stella: “Eu quero produzir uma pintura que permita a tinta ter uma aparência tão boa quanto a que tem na lata”. Desta forma, o artista opera por uma literalização, nem tão literal assim, mas absolutamente lúdica.

Dando continuidade a uma linha jocosa de pesquisa dentro da história da arte, e ocupando a segunda sala da galeria Espaço Imaginário, o artista investe em trocadilhos para criar a obra chamada “Merzbaudes”. Gerada a partir de um neologismo, da mesma maneira que o artista alemão Kurt Schwitters cria a sua “Merzbau” (Merz building), na obra de Nivaldo Carneiro, o que se vê é um conjunto de baldes que foram
empilhados e intercalados por cores verdes e vermelhas de maneira a criar um contraste complementar. Já nas extremidades dessa coluna de baldes, pode-se notar ainda a colocação de espelhos que tem como função dinamizar o entorno criando uma sensação de penetração no espaço para além do infinito, nas palavras do
artista, existia também uma vontade de criar um trabalho que pelo aspecto formal lembrasse a grandeza da “colonne sans fin” (coluna sem fim) de Brancusi. Para o observador mais atento, é possível identificar dentro desses baldes a existência de diversos objetos que foram recolhidos pelo artista e que simbolizam a vida
cotidiana e que aproximam ainda mais a relação de arte/vida e público.

E por fim, o terceiro trabalho é uma homenagem a Marcel Duchamp, ao dadaísmo e a toda geração do século XX, que povoou o imaginário do artista. O trabalho Gugu Dadá é uma série composta por nove objetos distribuídos para ocupar o espaço da galeria. Remonta as mesmas combinações de cores dos outros trabalhos,
assinalando uma preferência cromática fauvista. O trocadilho visual desta vez é com a obra “Roda de bicicleta” de Duchamp. Retirando elementos do universo infantil, sobretudo, das periferias, Nivaldo encontra no corpo do velotrol triciclo a matéria-prima ideal para construção de sua própria “roda” sobre banquinho. Ainda com os assentos do velotrol é possível traçar semelhanças formais com o contorno da obra mais conhecida de Duchamp – “A fonte”. No universo boêmio, sagaz, jocoso e impregnado de questões urgentes sobre a vida e a
arte, de Nivaldo Carneiro, seria este um retorno indelével à infância das artes visuais? O certo é que brincando, brincando, Nivaldo nos oferta com uma obra tão boa quanto a que tem nos livros.


Novembro de 2010
Renata Gesomino.
Doutoranda na linha de História e Crítica da Arte pelo PPGAV-UFRJ.




Plastipopstellianas de Nivaldo Carneiro

abertura: 24 de Novembro de 2010, às 19 horas
visitação até dia 17 de dezembro. De Segunda a Sexta, das 10 às 21 horas

Entrada Franca
Classificação Livre

Galeria Espaço Imaginário
Av. Gomes Freire, 457. Lapa
Rio de Janeiro

galeriaimaginario@gmail.com

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