Tarso de Castro, 75 kg de músculos e fúria

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Fabio Godoh · Porto Alegre, RS
22/3/2007 · 70 · 0
 

Está lançada a teoria do jornalista sórdido. Aquele em cujo jornalismo há a marca suja da vida. Sai um jornalista de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão e salpica-lhe a chapa-branca de uma nódoa de lama: Tarso de Castro! Olé! "E neste momento", brada o motorista a caminho do boteco mais distante, "75 kg de músculos e fúria se reúnem para fazer mais uma coluna".

Destrata-se da biografia do "poeta" gaúcho Tarso de Castro, escrita por Tom Cardoso, e lançada recentemente pela editora Planeta: um verdadeiro evangelho para aqueles que ainda acreditam no jornalismo pingente dos loucos e no lirismo pungente dos bêbados. "Tom Cardoso, eu vos amo tanto, que até por vossa esposa me dá um certo quebranto", diria Tarso, com sua própria biografia nas mãos, entre um copo e outro de uísque, terno e respeitoso como um clown de Shakespeare.

E a despeito de certos imbecis que se apropriaram indevidamente de seus acordes dissonantes, como Jaguar e Millôr Fernandes, Tarso, sem dúvida (gritos, murros e sussurros), foi o mais importante jornalista da história deste país, e também o mais bicha! Isso mesmo! Tarso era bicha! Olé! Falando nisso, a proposta é a seguinte: erguer uma estátua em bronze desse maldito mártir em frente ao Palácio Piratini, para que possamos, logo após, derrubá-la (viva a saia!) a golpes de beijo, mijo e sêmen, num sacro ritual dionisíaco! Viva Leonel Brizola!

A propósito, Glauber Rocha, um dos seus melhores amigos, com o qual costumava conversar e desesperar sobre tudo, principalmente sobre as mulheres (falavam até a voz enrouquecer e o coração latir) foi quem melhor definiu a personalidade do jornalista: "Ele é uma só palavra: coração". Olé! E o coração de Tarso, misto de Don Juan e Che Guevara, ao contrário do que dizia Fernando Pessoa, quanto mais pensava, mais batia! Apanhava? Sim, mas quando sangrava, florescia...

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Eis Tarso de Castro, o astro, este verdadeiro "huracán sin ojo", como no poema de Joaquín Sabina, um lobo bobo que uivava como Carl Solomon em suas colunas, pois acreditava que o silêncio não passa de covardia, e que a revolta mais desafia do que nega. Ui! No entanto, muito cuidado: Tarso era um cara que não gastava pólvora com pseudo-artistas covardes e arrogantes (tipo Beto Brant e Renato Ciasca): partia logo pra porrada, seja por meio do soco, ou do deboche. Mescla de Oswald de Andrade e Martín Fierro, trepava por trás dos pedestais deixando um lastro de cócegas e hematomas na irmandade chapa-branca da cultura brasileira. Assim, grosso e finíssimo, Tarso explodiu as estruturas fossilizadas do periodismo de Pindorama (perdón por el subjorgemautnerianismo), justamente em uma época em que a revolução "chimia geral" da cultura não encontrava eco nas páginas amareladas e sebosas da imprensa convencional.

Por isso tudo, é deprimente e revoltante observar como Tarso é tratado com desprezo pelos ressentidos "amigos" que não souberam conviver com a sua genialidade. Estou falando de Jaguar, aquele mesmo que apanhou do poeta Torquato Neto, em pleno calçadão de Ipanema, no auge do desbunde setentista. Conta a história que, ao cruzar com o cartunista, Torquato arrancou e esmigalhou seus óculos, para depois sorrir: "Você não precisa de óculos, Jaguar, você é cego pra tudo!". Olé! E eu diria mais: não se trata de cegueira, mas sim de canalhice! Ei, Jaguar, guie-se no exemplo do poeta Mário de Sá Carneiro: mate-se!

Só para termos uma idéia do seu caráter, na recente antologia de edições do Pasquim, lançada pela editora Desiderata, Jaguar reivindica para si alguns dos maiores méritos de Tarso, o verdadeiro idealizador e responsável por esta publicação que desestruturou o jornalismo brasileiro. Entre outras bobagens, Jaguar se apresenta como autor do nome do jornal. Mentira! "Pasquim", na verdade, era o modo como o pai de Tarso, Múcio de Castro, se referia ao jornal adversário do seu O Nacional, de Passo Fundo. Outra piada: Jaguar espalha por aí que a publicação das entrevistas sem copidesque, grande sacada editorial vanguardista de Tarso, foi um lance do acaso, pois, responsável pela transcrição, Jaguar supostamente não sabia que isso era necessário. Mentira! Chuta que é macumba! "Para os meus amigos tudo, para os meus inimigos nem justiça", era o bordão de Tarso: bringin it all back home!

Enfim! Tarso era o cara! Tom Cardoso, gracias! Beijo na boca! Nélson Rodrigues era macho? Careta! (Alô alô André Arieta! Vamos fazer um filme com a vida deste pássaro em chamas! Já!) Peréio, eu te odeio! Meu John Wayne predileto... "E que tudo mais vá pro inferno": este era o slogan de Tarso, e o do Sol.

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