O Teatro dos Sentidos, técnica de encenação criada para atender a um público de deficientes visuais ou de olhos vendados, volta aos palcos do Rio com o espetáculo Feliz Ano Novo, de autoria da diretora multimÃdia e poetisa Paula Wenke, idealizadora do método de encenação. A peça ficará em cartaz em curtÃssima temporada, entre os dias 7 e 10 de outubro, no Teatro de Arena da Caixa Cultural.
A técnica se utiliza de textos adaptados, resultando na máxima estimulação dos sentidos. São experimentados sabores, utilizadas essências que provocam odores, instrumentos musicais cujo timbre e ritmo reforçam os tons dramáticos, uma extensa trilha de efeitos sonoros e ainda outras surpresas que tocam literalmente o espectador. “É teatro para não ser visto, ou para ser “visto†de outra maneira. A imagem do que ocorre é fruto da criação interna e pessoal de cada espectador. O que é provocado é o que chamamos de intravisão. A fantasia é estimulada pelos outros sentidosâ€, explica Paula.
Diferente das montagens tradicionais, esta técnica deixa de lado a disposição da plateia comum para um palco italiano, tornando o público o centro do espetáculo. Dividida em grupos de oito, a plateia é estimulada por atores-provocadores, que circulam entre o público estimulando o tato, o olfato, a audição e o paladar. A intenção é provocar no público a sensação de estar dentro da história. Além dos 21 atores-provocadores, a peça conta com nove atores-personagens, responsáveis por interpretar e narrar o que não pode ser visto em tempo real ou o que não é possÃvel ser adaptado para a cena com efeitos. O espetáculo tem 30 minutos de duração e ao final, meia hora de debate entre o público, atores e a diretora.
Criado com o objetivo de levar cultura e entretenimento a um público que não tem acesso facilitado, o Teatro dos Sentidos trabalha, desta forma, a inclusão sócio-cultural. Além disso, dá espaço para atores com limitações fÃsicas. Em Feliz Ano Novo, um dos atores tem dificuldade de locomoção e outro é portador de baixa visão. “Nesse projeto, esses atores encontram uma excelente oportunidade para realizarem o sonho de atuar sem serem personagens deficientes. Já que não serão vistos pela platéia, poderão interpretar cavaleiros, super-heróis, prÃncipes medievais, entre outros. No caso desta peça, os dois farão marinheiros em cena de combate e ação. Ao entrarem no ‘palco’ eles serão incluÃdos social e culturalmenteâ€, diz Paula.
Vale destacar também que ao contrário do deficiente auditivo, que possui o filme legendado para compreender totalmente uma obra de ficção encenada, o deficiente visual não tem as mesmas possibilidades. O cinema e a televisão possuem linguagens fortemente visuais, e as novelas de rádio já não existem mais no Brasil. E mesmo os filmes com áudio-descrição (em que há uma voz entre os diálogos explicando o que se passa na cena) não passam aos cegos toda a emoção, por tirar o espectador do total envolvimento com o espetáculo. O teatro, com a técnica de encenação do Teatro dos Sentidos, é o meio de contato tão direto com o ator/personagem, a ponto de a platéia poder tocá-lo, sentir os odores que ele sente, tocar o que ele toca, ou mesmo sentir o gosto do que ele come.
Sinopse Teatro dos Sentidos - Feliz Ano Novo: Baseada em um romance real, a peça inicia com a conversa entre um menino e o pai, comandante da marinha e viúvo. O garoto encontra um livro de VinÃcius de Moraes com a dedicatória de uma mulher e pergunta por que o pai nunca procurou por ela. O comandante, então, começa a relembrar o encontro dos dois, em uma noite de reveillon.
Como surgiu a técnica: Depois de 15 anos morando em BrasÃlia, Paula Wenke voltou em 1997 para o Rio de Janeiro e, encantada com a beleza de sua cidade natal, começou a pensar nas pessoas que moravam no mesmo lugar, mas não tinham o privilégio de apreciar as belas paisagens. “Eu comecei a pensar naquela ideia da música do Djavan. ‘Morar no Rio e não poder enxergar, é como morrer de sede em frente ao mar’â€, diz Paula. Nesta mesma época, ela ministrava cursos de Interpretação Teatral, na Casa da Gávea, e passou a ouvir as leituras de peças de olhos fechados, fazendo um exercicio de encenação. Percebeu que o deficiente visual entenderia leituras como aquelas e, na mesma época, entrou um aluno em sua turma que ministrava cursos de Contação de Histórias para cegos, no Instituto Benjamin Constant. Foi aà que surgiu a idéia de criar um espetáculo para uma platéia de olhos vendados ou com deficiência visual. A primeira montagem foi Pluft–O fantasminha, de Maria Clara Machado.
Apresentações:
1997 – Pluft – O Fantasminha, no Instituto Benjamin Constant
- Leitura dramatizada com sonorização na Sociedade Viva Cazuza
1998 – O Rapto das Cebolinhas
2000 – Séc. de Educação da Bahia – temporada de 10 dias em uma instituição de cegos ligada ao MEC
2002 – Feliz Ano Novo, texto da Paula Wenke – montagem com a turma profissional do SESC / apresentações no Museu da República e no Clube Militar
2008 – Pluft – O Fantasminha, no Instituto Benjamin Constant
Na Internet: www.paulawenke.com / www.teatrodosentidos.blogspot.com
Depoimentos:
“Conheci o projeto Teatro dos Sentidos criado por Paula Wenke e agradeço por essa oportunidade. Trabalho apaixonante. Desejo sorte e continuação sempre.â€
Patrice Pavis,
Doutor e Professor de Teatro na Universidade de Paris VIII - Saint-Denis; Autor de “Dicionário de Teatro.
“O Festival de teatro Europeu de Portadores de deficiência tem total interesse em integrar o Teatro dos Sentidos em suas próximas edições em Versailles. Desta forma poderemos abrir pela primeira vez a um outro continente.â€
Rachel Boulanger-Dumas,
Presidente do ORPHEE (Oevres et Réalisationsdes Personnes Handicapées d´Expression Européenne).
“Considero o Teatro dos Sentidos impactante, não apenas pelo cunho inovador, mas pelo que representa para o espectador que, nesta modalidade de teatro, toca o texto através da percepção dos sentidos. Presenciei a forte emoção de uma criança cega ao ser surpreendida pelo delicado contato com os cabelos (então descritos no texto) da personagem. Observei, do mesmo modo, a inserção de uma criança não-deficiente, de olhos vendados, ao universo dos que não enxergam: é a referência da vida através dos sentidos aguçados pela impossibilidade visual.
Certamente, é um raro momento de descobertas para um mundo que existe além do olhar. Viva o Teatro dos Sentidos!
Sandra Castiel,
Professora de Literatura Infantil do quadro permanente do Instituto Benjamin Constant (1997-2005).
SERVIÇO
TEATRO DOS SENTIDOS – “Feliz Ano Novoâ€
PerÃodo: 07 a 10 de outubro
Horário: Quinta a sábado, às 19h30
Local: Teatro de Arena da caixa Cultural - Av. Almirante Barroso, 25 - Centro – RJ
Classificação etária: 12 anos
Preço: R$10 (estudantes e idosos pagam meia) / Grátis para deficientes
Lotação: 231 lugares, sendo 226 assentos numerados e 5 lugares para cadeirantes
Que bacana essa experiência! Já falei sobre audiodescrição em uma ocasião e foi muito bom conhecer esse universo novo. Que beleza saber que há ainda mais a descobrir! :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2010 14:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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