Um movimento Beradeiro

1
Adriel Diniz · Porto Velho, RO
6/3/2006 · 107 · 1
 

Da beira do rio para a cidade. Resgatar a auto-estima do caboclo, dar valor aos conhecimentos do povo da floresta, seu linguajar, seus trejeitos e cultura; misturar tudo isso, e transformar em música. Essa é a receita de um movimento que virou festival.

Jovens artistas de Porto Velho vestiram a camisa da construção de uma cena musical na cidade, com raízes afro-indígenas, como legítimos moradores das barrancas, das beiradas, do beiradão.

O primeiro festival aconteceu em 2005, reunindo bandas de Rondônia e Acre. Sem muita estrutura, mas com muita vontade de crescer, a cena musical não se intimidou com a escassez de divulgação, de apoio e até de público. No final do mesmo ano, a entidade Projeto Beradeiro, uma associação sem fins lucrativos que tem como principal finalidade a realização deste festival, assumiu a coordenação do festival para que através dela fossem captados recursos e a festa passasse a ter três dias. E mais, para que os produtos expostos não fossem só músicas. De um evento musical, o Festival dos Beradeiros em 2006 passa a ser uma grande mostra da cultura regional. Artesanato, roupas, CDs, livros de poesia, contos e romances. A idéia é chamar artesãos, poetas, escritores e músicos para expor seus trabalhos, como as roupas confeccionadas com látex pelo artista plástico Yong Blod, ou mesmo as biojóias produzidas com sementes e frutos de plantas amazônicas; além das bandas e cantores que já têm demos ou CDs gravados. A grande jogada é criar um público que tenha orgulho da produção artístico-cultural rondoniense.

"Uma festa pode se transformar em atitude e essa atitude pode ser o início de um trabalho social e cultural", destacou Samuel Pessoa, presidente da Projeto Beradeiros. Para ele, sonhar com essa construção não é apenas sonho, é uma opção de vida. "Respeito é pra quem tem, sou beradeiro da linha do trem", fala com orgulho em uma de suas músicas. Ser caboclo louco é parte de uma estratégia política de afirmação cultural. Samuel, além de artista, é militante de movimentos sociais. Em Rondônia, é o coordenador do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Esse trabalho já o levou à Espanha, em 2004, quando fez um curso de Educador Social na Universidade de Barcelona. Por aqui, os núcleos de base do movimento, como crianças e adolescentes da periferia, fizeram nascer essa consciência de que o caboclo tem que dar valor a si mesmo. Amazonense de Humuitá, Pessoa é pessoa simples, cheia de idéias e sonhos. Quer saber dois deles: ser respeitado pelo que é e por onde mora e ver seu trabalho reconhecido como parte de um movimento, com a cara do povo da floresta.

Três exemplos bem fortes desse movimento são as bandas Quilomboclada, Coveiros e Suco de Nóis. A primeira delas já traz no nome a mistura de influências e atitudes: quilombo + caboclada. Isso é apenas detalhe para quem ouve a pancada desse som, que incorpora elementos de hip hop, new metal, maracatu, carimbo, forró, coco de embolada, candomblé, baião, música eletrônica e tantos outros sons, ritmos e culturas que fica até difícil falar, o melhor mesmo é segurar a remada e a guitarrada da banda.

Já quando a banda Coveiros sobe no palco, nada permanece do jeito que estava. A energia, atitude e irreverência de seus componentes, aliadas à performance de Giovanni, seu vocalista, são inigualáveis.
Com muitas e boas influências por parte do hardcore, a Coveiros consegue criar um som forte, pesado e autêntico, à base de Dead Kennedys, Ratos de Porão, D.R.I., Extreme Noise Terror, Napalm Death, Epäjärjestys e Hatebreed.

Quanto à Suco de Nóis, e o seu "alternativo sujo", como diz Janor, o vocalista e líder da banda, suas letras trazem uma mensagem crítica e atual dos principais problemas cotidianos, seja falando sobre o indivíduo, ou sobre a sociedade. Sem pretensão demagógica e política, conseguem proporcionar ao público que os assistem uma reflexão do movimento musical de vanguarda. No palco, não há igual a Janor, um showman que canta rock.

Esses são apenas exemplos da força deste movimento, que é corrente que não cessa, que é vontade que não seca, que é correnteza de rio. Nas beiras dos rios e das ruas, os caboclos começam a perceber que a conquista de respeito que querem passa pela admissão da condição de beradeiros, de moradores e defensores da Amazônia, de sua história e de seu povo.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Siloé Bijoux e acessórios
 

eu trabalho com biojóias, tenho muita vontade de conhecer a Amazônia, nós brasileiros não damos o valor que é merecido às nossas raízes.
Parabéns pelo texto, só faltou umas fotos, pra dar mais água na boca.
até mai!

Siloé Bijoux e acessórios · São Paulo, SP 6/1/2008 19:54
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados