Não eram nem nove da manhã e já estávamos na casa dos Firmino, convidados que éramos para um de seus tradicionais almoços de final de semana. Aquele tinha gosto especial, pois celebrava o noivado de Laurinda, filha de Teotônio e irmã de João Batista, com o primogênito de Juvêncio e dona Severa, rapaz trabalhador e amoroso de nome Juvero. Na realidade, não seria somente um almoço, mas um dia inteiro de festividades e comunhão entre as famÃlias, que se davam fazia mais de vinte e cinco anos e há muito se consideravam parentes. Pois não é que todos sempre fizeram muito gosto com esse romance de Juvero e Laurinda, e desde pequenos os dois por si só não vinham confirmando o desejado ? Agora, com tudo oficial, só faltava casar Berenice, irmã caçula que considerava Laurinda uma verdadeira mãe, já que Maria Rita, mulher de Teotônio, parira oito crianças, seis vingaram, e cortava um dobrado com o marido pra dar atenção a todos.
Pois que pra nós que éramos mais novos, naquela idade chata em que não se fica brincando de qualquer porcaria e nem se pode beber ainda, estava tudo ainda mais chato que a gente. E lá pelo meio-dia já estávamos perguntando pelo almoço, hora em que os homens mal começavam a engrenar na bebida e a falar besteira. Também não dava pra cobrar muito das moças e senhoras que tavam botando as notÃcias em dia, trocando na cozinha confidências sobre alegres e tristes momentos de famÃlia. Estando pouca coisa pronta, a barriga de menino - quase rapaz - em crescimento começa a tapear a fome, se servindo de pão com café com leite e beliscando aqui e ali alguma coisa que os homens colocassem pra enfeitar a bebedeira. Mas depois das duas da tarde tava ficando cada vez mais difÃcil de segurar as pontas, ainda mais sentindo o cheirinho que começava a sair de várias panelas da cozinha.
Em apenas uma hora os trabalhos haviam avançado bastante, mostrando a competência na cozinha daquelas mulheres e de alguns poucos homens que gostavam de meter o bedelho no assunto . O fogão de seis bocas estava com todas elas trabalhando, e tinha também uma carne muito bem temperada assando no forno e uma grande travessa de salada em cima da mesa. Com os Firmino não tÃnhamos cerimônia, e por isso me aventurei a perguntar à Maria Rita se já podia ir me servindo de qualquer coisa enquanto não saÃa o principal. A coitada da mulher estava doidinha, eu só não sabia se era de alegria com o casório, de tanto trabalho naquele dia ou da cerveja que vinha bicando do copo do marido a manhã inteira, pra depois reclamar que ele bebia demais. E não é que ela não tenha dado a devida atenção ao requerimento de menino, mas temos que considerar também que se esperava a qualquer momento de Juvero um pedido oficial de casamento, acompanhado de uns versos que ele mesmo fizera para a ocasião, ou copiara de um livro antigo, conforme depoimento de compadre Alcides, irmão gaiato de seu Juvêncio e competente violeiro.
Assim, escolhi um pouquinho de salada e pretendia um prato cheio de macarrão, que estava em outro móvel coberto por um pano de prato, quase escondido da fome antecipada dos apressados que só pensavam em encher o bucho. Maria Rita encostou meu prato na travessa e arrastou a salada com uma pequena colher, pois, apesar de comandar a cozinha, vinha se desdobrando em dez pra atender às demandas do dia, e não conseguia achar um colherão ou pegador pra agarrar qualquer coisa que fosse. Na hora de me servir o macarrão, ela ainda tentou tirar a massa escorregadia da tigela funda com o pequeno talher e vacilou uns instantes matutando, mas acabou mesmo é me comunicando que sua mão fora lavada com esmero e que eu não me importasse de receber a comida através delas. Em poucos segundos ela realiza a operação, tal qual escavadeira que retira a terra de um lugar para o outro, jogando por três vezes a comida por cima da salada que era só pra abrir o apetite, porque, segundo ela, rapaz novo tinha que se alimentar e folha não dava sustança a ninguém, principalmente pra quem estivesse dando um estirão de um ano pro outro.
E assim com o prato cheio, bem cheio mesmo, é que eu resolvi sair da cozinha pra disfarçar e encostar o almoço em qualquer canto, pois tia Rita que me desculpasse, mas não ia comer de jeito nenhum comida catada com a mão. Aproveitei pra ouvir os versos de Juvero embalados pelos acordes de Alcides, sendo que quem acabou mesmo declamando poesia foi Eudes, padrinho de Laurinda e irmão mais novo de Teotônio, que era o único dos cinco filhos de Edmar a não ter o nome iniciando com a letra “eâ€, na medida em que homenageava o avô, o velho Totonho, comerciante considerado em sua terra e patriarca de todos aqueles conterrâneos.
Cenas tipicamente campesinas. Estou familiarizada com as mesmas, pois tenho alma sertaneja. Aqui em Montes Claros, falamos alma da roça!
raphaelreys · Montes Claros, MG 6/4/2010 08:06Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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