Tenho nas paredes cartazes de antigas Mostras de Cinema de São Paulo: a de 1997, com o “homem câmera” de Angeli, as árvores azuis de Alexander Sokurov (2002), o desenho vermelho de Manoel de Oliveira (2006). Nestas e em outras ocasiões lá estive, com o crachá pendurado, catálogo no sovaco, arsenal de balas e caderninho de anotações. Sim, sou desses malucos da sala escura, membro da eclética fauna que freqüenta as projeções mais absurdas como se participasse de uma confraria secreta.
Morando e trabalhando longe, cometi insanidades pela cinefilia. Certa vez, fui de Rio Claro à capital em uma hora e meia (não tentem reproduzir isto em casa) para não perder um filme. Nem gosto de lembrar as multas por estacionamento irregular e os ataques histéricos no trânsito provocados por uma exibição iminente.
Devo muito às seleções de Leon Cakoff. Por seu intermédio descobri Hal Hartley, Jim Jarmush, Sokurov, Michael Haneke, Lars von Trier e todo o Dogma, os primeiros Kieslowskis, uns raríssimos Bergmans e uma constelação de documentários inacessíveis.
Agora canso apenas de imaginar a viagem, os congestionamentos, a correria, as filas, os percalços de organização, a concorrência dos credenciados. A experiência como diretor da Cinemateca Campineira ensinou-me a valorizar incondicionalmente o sucesso e a longevidade da Mostra. Mas não há como ignorar que ela se tornou insuficiente para a metrópole caótica, além de obsoleta perante a voracidade do circuito comercial, do mercado digital e até da pirataria.
A Mostra escaparia da saturação se redimensionasse sua estratégia de exibição (descobrindo espaços suficientes para abrigar as grandes estréias), se revitalizasse as retrospectivas nacionais, autorais ou temáticas, se promovesse conferências e debates mais audaciosos com autoridades do mundo cinematográfico e se levasse parte da programação para regiões carentes e cidades próximas, ávidas por eventos culturais.
Aceitar passivamente as limitações desse formato consagrado levará, em pouco tempo, à decadência que já acomete outros festivais brasileiros.
Opa, Guilherme,
Muito interessante a tua crítica ao formato da Mostra. Concordo plenamente com a idéia de que, ampliando as retrospectivas e promovendo conferências e debates, as mostras só teriam a ganhar. Acho que a Bienal do Livro segue um pouco esse tom. Nela, é cada vez menos importante a visita aos estandes para comprar livros em si e cada vez mais importantes as discussões, os lançamentos, os autores convidados.
Bom, além da tua posição interessante e provocativa, fiquei curioso também com a tua experiência como Diretor da Cinemateca Campineira. Não quer contar, num outro artigo, como foi essa experiência?
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