"O estado de Roraima ainda será uma referência teatral da região norte", Márcio Sergino (Diretor teatral da Cia. Arteatro/RR).
Sempre quando sentamos para discutir polÃtica cultural no estado, nosso amigo Márcio Sergino não deixa de soltar esta pérola. É verdade que nesses dois últimos anos a cena teatral em Boa Vista tem apresentado um crescimento surpreendente.
Por aqui existem hoje cinco grupos com produção regular: “Malandro é o gatoâ€, “Cia. Arteatroâ€, “A Bruxa Tá Soltaâ€, “Criart Teatral†e a “Cia. do Lavradoâ€, lembrando que a regularidade se restringe ao segundo semestre de cada ano, pois ainda não conseguimos produzir mais de um espetáculo por ano em cada grupo, prejudicando assim o processo de formação de platéia.
A falta de polÃticas públicas de fomento a cultura eficazes, também é outro agravante. Hoje, apenas o estado mantém uma lei de incentivo a cultura e que, talvez, por ser nova ainda, esteja tão cheia de problemas. O MunicÃpio mantém um projeto nas praças de Boa Vista, iniciativa até interessante se não fosse desorganizada e completamente descuidada no trato com os artistas. E com um resultado nada profissional, a imagem dos artistas fica cada vez mais desvalorizada pelo público. Isso também interfere no processo de formação de platéia.
O SESC por aqui funciona como uma Secretaria de Cultura, pois o estado ainda não tem uma. O Projeto Palco Giratório, que funciona em todo o Brasil, tem dado a oportunidade do público roraimense assistir a espetáculos de primeira. E é a nossa grande chance de trocarmos experiências com artistas de todo o Brasil e até mesmo de nos capacitarmos. Platéia para o Palco Giratório não falta. Dizem até que é devido a divulgação, mas ainda acho um argumento insuficiente. A verdade é que o público deste estado não valoriza os artistas locais. E isso não acontece só no teatro. Dança, música, artes plásticas... arrastar literalmente a população para um evento local é de dar inveja a qualquer um dos trabalhos de Hércules.
Talvez as produções teatrais do passado não tenham deixado boas recordações por aqui, mas o fato é que hoje a história é outra. Alguns grupos estão mais preocupados com a qualidade do que é apresentado. Já existe uma consciência do papel a cumprir como artistas.
Todo ano o estado é representado em diversos festivais de teatro pelo Brasil. Esse ano a Cia. Arteatro ("O Santo Inquérito") e a Cia. do Lavrado ("A Farsa do Advogado Pathelin") estiveram no III Festival de Teatro da Amazônia participando da mostra competitiva, onde fizeram ótimas apresentações, tendo inclusive a Cia. do Lavrado conseguido duas indicações: melhor ator, Kleber Medeiros e melhor atriz, Cora Rufino.
No ano passado, através do Ministério da Cultura, criamos o Fórum Permanente de Teatro. Estivemos presentes na Conferência Nacional de Cultura e conseguimos em 2006 realizar a nossa Conferência Estadual. Somos o único segmento artÃstico organizado nesse estado. Nos reunimos semanalmente para discutirmos ações de melhoria na nossa área e após uma dessas reuniões bati um papo com o Diretor Teatral Márcio Sergino, que há mais de 10 anos mantém um grupo nesta capital (Cia. Arteatro):
Marcelo - Márcio, você que já faz teatro há mais de 10 anos em Boa Vista, como era fazer teatro naquela época?
Márcio – Bom, na verdade eu faço teatro há treze anos em Boa Vista, pelo menos do perÃodo em que eu comecei até hoje houve uma mudança que não acontece sempre, porque ao se falar em dez anos, ou até mesmo em quatro ou cinco anos atrás, a gente não tinha se quer perspectiva de produção, nós tÃnhamos que juntar nossos trapos e fazer um trabalho que não criava expectativa e nem perspectiva de bom resultado, de boa produção, porque nós tÃnhamos que fazer um trabalho de garimpagem mesmo, tanto na questão de pessoal quanto na própria produção.
Moro em Boa Vista há quase três anos, percebo que o público que freqüenta os espetáculos locais ainda é pequeno. Nós poderÃamos atribuir à qualidade do que é produzido aqui ser o fato agravante para o público ainda pequeno que freqüenta os espetáculos locais?
Não. Hoje nós já temos uma consciência do processo demorado de formação de público, nós já temos uma platéia cativa, pequena, mas dentro de uma perspectiva em que nós recebemos grupos de fora, como no Projeto Palco Giratório e esse público acaba sendo pulverizado para os espetáculos locais. As produções realizadas em Roraima já têm um teor extremamente significante, porque nós fazemos comparações com outras companhias do norte em eventos que acontecem e nós percebemos que somos páreos. Nós temos uma produção extremamente considerável em termos de qualidade mesmo, uma vez que o que nós recebemos de capacitações, a possibilidade de fazermos intercâmbio é muito difÃcil, a questão de deslocamento para fora do estado ou de trazermos técnicos que possam acrescentar no nosso conhecimento é muito difÃcil. Esse trabalho de safári cultural que nós fazemos aqui ele acaba tendo um resultado bastante satisfatório.
Qual o investimento que a Cia. Arteatro tem feito pra melhora da qualidade dos seus trabalhos e desempenho dos seus atores?
A Cia. Arteatro, nesses últimos três anos, vem fazendo um investimento muito grande na capacitação e o melhor caminho que nós encontramos é levar o nosso trabalho pra fora, pra apreciação de um outro público e também nos misturando com outros grupos que têm mais experiências. Bebendo dessa fonte naturalmente a qualidade do nosso trabalho se transforma. Já há três anos nós saÃmos e participamos da Mostra SESC Cariri de Teatro no Ceará, por exemplo, um evento maravilhoso que envolve muitos grupos do Brasil todo. Participamos também do Festival de Teatro da Amazônia, desde 2004, com grupos de teatro de toda a região norte e convidados de outros estados do PaÃs. A gente acaba entrando em um processo de autocrÃtica muito bacana. O legal é que depois nós trocamos com os parceiros daqui as nossas experiências, e serve até de incentivo pra que os outros grupos saiam do estado e se mostrem também.
Nesse semestre de 2006, quatro das cinco produções que estrearam no estado obtiveram patrocÃnio...
Márcio – Então, eu acho que as perspectivas para o crescimento da cena teatral no estado são as melhores. Agora com a Lei de Incentivo Estadual acontecendo, mesmo capengando, a Lei Municipal que está pra sair em 2007 e a consciência de que temos que buscar potenciais financeiros fora do estado acaba criando uma expectativa muito maior pras próximas produções, pras produções em 2007, pra gente poder pensar numa melhora na qualidade do trabalho, com incentivo pra poder produzir sem ficar garimpando, sem ter que ficar buscando meios de se tirar da terra, do suor. O suor ele já... a gente se arrasta na dificuldade da arte, que é uma dificuldade de Brasil, mas aquela dificuldade que trazÃamos antes, na verdade as expectativas, as perspectivas nós mesmos é que criávamos, hoje nós já temos uma visão melhor para o futuro.
O que falta pra esse cena teatral dar um impulso maior no estado?
Nós temos um time que está ganhando. Que acreditou na força dos grupos, na união, na consciência de coletividade, de categoria, quando nós nos unimos e criamos o Fórum Permanente de Teatro. O Fórum surgiu de uma forma mais do que significante até pra unir esses grupos mesmo. O que está nos faltando é que o Fórum chegou no seu limite e nós precisamos abrir outras portas e na minha visão, o primordial nesse momento é a criação da Federação de Teatro. E que essa Federação possa trabalhar como um agenciador do movimento teatral aqui em Roraima e também como aglutinador, se estendendo por todo o estado em busca de outros grupos, de outras produções e criações. Desta forma nós vamos poder dar uma perspectiva melhor para o futuro do teatro aqui. Eu acredito demais nisso e tenho certeza que nós vamos conseguir uma unidade nesse pensamento e realmente a federação é o nosso caminho.
Quando você fala em Federação eu lembro logo de polÃtica (risos). Essa Federação teria também esse objetivo, reivindicar no estado maiores incentivos ao teatro? Me lembro agora do III Festival Teatro da Amazônia onde o Governo daquele estado subsidiou todos os grupos do estado que participaram do Festival com uma verba de R$ 15.000,00 pra cada grupo.
Bom, é... sempre que nos reunimos pra falar em Federação, se vê a necessidade básica da politização dos nossos artistas. É preciso que haja uma consciência de classe, pra que a gente possa pensar em trabalhar pelo coletivo, como a exemplo de outras categorias aqui do estado mesmo, existe uma desagregação muito grande. Cada um trabalha pelo seu cachê, pela sua criação, mas não pensa no coletivo e se pensarmos assim, não vamos conseguir fazer com que a Federação crie uma unidade. Nós temos aqui um governador que não comunga das mesmas idéias, que não comunga da idéia e da importância da cultura no estado. Esse estado tem um potencial cultural muito forte, mas é preciso que se dê condições pra que essa criação aconteça, mas também não podemos esperar que amanhã de manhã ele acorde com a mente aberta e possa nos dar condições. Nós temos que buscar, fazer acontecer e temos condições pra isso. Então a politização desse grupo que trabalha é extremamente importante. Nada vai acontecer se não existir essa união de idéias, essa sincronicidade pra que a gente possa fazer acontecer o que a gente acredita.
Marcelo Perez
Diretor da Cia. do Lavrado
Muito interessante. Legal ver o movimento sendo criado, os artistas se reunindo e tentando buscar uma nova história para o teatro de Roraima. E se o que ele falou é verdade - que a classe teatral é a única organizada por aà - que as outras sigam o exemplo!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2006 20:38Concordo plenamente com a Helena Aragão: Sigam o exemplo da classe teatral
girassol · Belo Horizonte, MG 6/11/2006 21:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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