Uma instituição sagrada, intocável, imutável. Quase sempre, é assim que o frevo tem se apresentado para o público. E ai de quem alterar um movimento do passo, uma linha de sopro ou um toque de caixa, dos clássicos eternos. Rigidez acadêmica à parte, trabalhos de gente como Silvério Pessoa, Maestro Spok, DJ Dolores e os músicos da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério são a prova de que o frevo está vivo, e se comunicando com outras realidades. Nesse contexto se insere a partir de agora Fervo, o espetáculo de dança que estréia no Recife dia 14 de setembro (Teatro Apolo - Recife Antigo), e fica em cartaz por mais três semanas (quintas, às 20h; sextas, às 21h).
Dirigido por Valéria Vicente, Fervo tem também afoxé, capoeira, hip hop e até roda de pogo! Tudo isso pra discutir uma outra – e problemática - herança: a violência social.
Apesar de ser assunto recorrente nas demais formas de arte, a violência ainda é pouco abordada pela dança popular ou contemporânea. “Parto deste tema porque ele se impõe como um problema contemporâneo e determinante para a sobrevivência da nossa coletividade. A naturalização da violência e dos estados de tensão e medo é em si uma agressão à saúde individual e coletivaâ€, diz Valéria.
O frevo e a violência são elementos muito presentes na realidade recifense e, por isso, o espetáculo promete despertar fortes emoções na platéia. É bom lembrar que, apesar de toda sua beleza, o frevo nasceu num contexto dos fortes conflitos sociais do inÃcio do século 20. Ele surgiu do encontro da capoeira (na época, proibida por lei) com as marchas, maxixes e dobrados, executados por bandas militares e civis. Sinônimo de alegria carnavalesca, sua dança é batizada passo, e se definiu a partir de elementos daquela sociedade: pobreza, desemprego, violência, transformação, euforia. Dos anos 50 em diante, o frevo foi incorporado à cultura oficial, de forma a se transformar em um dos sÃmbolos culturais mais representativos de Pernambuco. No dia 9 de fevereiro de 2007, o frevo completará 100 anos desde que foi registrado num jornal pela primeira vez.
“As questões que nos afligem são historicamente construÃdas. A herança da escravidão não está somente no escravo que apanhava, mas também no senhor que batia. A forma como o Recife lida com isso nas relações sociais parece ser a mesma de 100 anos atrás. Existe, nos problemas sociais de hoje, uma violência no corpo das pessoas, mas que não está assumidaâ€, diz Valéria.
Na busca de um caminho mais experimental, a montagem aposta na liberdade de movimento e de improviso que o frevo pode alcançar. Nela, coreografia, figurino, música e luz se unem para proporcionar, como bem definiu Silvério, uma “desconstrução do frevoâ€. Tudo está baseado em oito meses de investigação sobre as caracterÃsticas sociais e do clima cultural do Recife do fim do século 19 e inÃcio do século 20, quando o frevo nasceu como expressão popular. NotÃcias veiculadas na imprensa local da época influenciaram bastante o resultado final, inclusive na cenografia.
Desenvolvida coletivamente, a coreografia incorpora estas informações através de quatro bailarinos que tem o frevo como elemento em suas formações: Jaflis Nascimento (filho de Nascimento do Passo, o primeiro artista a sistematizar um método para o frevo), Calixto Neto (Escambo Cia de Criação), Iane Costa (Bailarina do grupo de dança popular Arte Folia) e Lêda Santos (Guerreiros do Passo, Caboclinho Sete Flexas e Escambo Cia de Criação).
O figurino, a cargo da baiana Isa Trigo, também ocupa uma função simbólica bem definida. Por exemplo, a questão da violência implÃcita e camuflada se revela através de fugazes tons de vermelho nas roupas, dentro das costuras. O preto e branco predomina, para lembrar algo que não fosse obviamente alegre, e criar o contraste com a imagem folclorizada do frevo.
“Tentei trabalhar com algo que sugerisse a época em que o frevo começa a ser visto, criado, noticiado. São tentativas de sobrepor alguns cortes modernos à s modelagens e usos de décadas anteriores. Ao mesmo tempo, Valeria queria que eles não se caracterizassem muito enquanto gênero - o que me fez evitar as saias. São quase figurinos de trabalho, discretos. Pessoas que podem estar trabalhando, voltando para casa ou indo para a ruaâ€, descreve Isa.
Oi Nanna. Postei novas fotos num outro texto, que tá na fila de edição.
André Dib · Recife, PE 25/9/2006 12:55Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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