E a teledramaturgia contou...

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O bem amado: a novela que foi além da novela.
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Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ
9/10/2007 · 129 · 2
 

No início de setembro, estreou em palcos cariocas uma nova montagem de O bem amado, peça escrita pelo dramaturgo Dias Gomes no ano de 1963 e que chegou aos palcos brasileiros seis anos depois, tendo no papel do prefeito Odorico Paraguaçu o ator Procópio Ferreira. Para a atual releitura da "farsa sócio-político-patológica" (como definiu Dias sobre sua obra), o produtor Guel Arraes designou Marco Nanini, para recontar a história do prefeito demagogo que quer a qualquer custo construir o cemitério municipal de Sucupira.

Apesar dos talentos incontestáveis de Procópio Ferreira e Marco Nanini, é mesmo a figura de Paulo Gracindo que é associada ao político de Sucupira, com todos os seus achaques e neologismos como "jenipapista juramentado" e "cachacista praticante". Tanto que, até hoje, O bem amado é considerada uma das páginas mais marcantes da telenovela brasileira. Por isso, atendendo a um dos pedidos feitos aqui na seção de comentários, recontamos aqui alguns detalhes da cidade de Sucupira.

E a teledramaturgia contou... O bem amado.

***
O início de 1973 trouxe mudanças consideráveis na televisão brasileira. Estava consolidado o sistema de TV a cores, e coincidiu de a primeira telenovela exibida completamente neste sistema ser um texto que trouxe o colorido tipicamente brasileiro da dramaturgia de Dias Gomes.

No horário das 22 horas, em 24 de janeiro, a TV Globo iniciava a saga de Odorico Paraguaçu (papel histórico de Paulo Gracindo), o prefeito da cidade de Sucupira. Sua meta principal era a que havia consolidado sua eleição - a promessa da criação de um cemitério municipal.

No entanto, o prefeito convivia com um inconveniente: não surgia nenhum morto para a inauguração do local. Receoso com a falta de apoio do povo que o havia eleito, e convivendo com a oposição que o acusava de desvios de verba da saúde e de outros serviços públicos para a obra faraônica, Odorico tomava uma atitude extrema: contratar o perigoso matador Zeca Diabo (atuação memorável de Lima Duarte) para ser o delegado da cidade.

A atitude se tornava frustrante, pois Zeca havia se regenerado e não matava mais a torto e a direito. O prefeito também criava mal entendidos com a intenção de haver um assassinato, mas era sempre mal sucedido, bem como o farmacêutico Libório (interpretado por Arnaldo Weiss) e suas fracassadas tentativas de suicídio.

O dramaturgo Dias Gomes afirmou, em sua autobiografia Apenas um subversivo, que a trama envolvendo Odorico foi inspirada em uma situação ocorrida em Guarapari, cidade litorânea do Espírito Santo, na qual o prefeito se elegeu com a mesma promessa do político da ficção. A partir da idéia, o escritor acrescentou situações típicas do cotidiano brasileiro, e em nenhum momento a trama passou pelas situações comuns em produtos da teledramaturgia - a "barriga", jargão utilizado para denominar os períodos nos quais não acontece nada de relevante em uma novela. Houve até mesmo uma alusão ao então recente "caso Watergate", quando Dirceu Borboleta descobria que Odorico era o pai do filho de Dulcinéia Cajazeira.

Além de Odorico Paraguaçu e Zeca Diabo, outros personagens se tornaram eternos na memória da teledramaturgia brasileira. O trio Dorotéia, Judicéia e Dulcinéia (respectivamente, Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Duval), as "irmãs Cajazeiras" que apoiavam e eram apaixonadas pelo prefeito e o ingênuo Dirceu Borboleta criado por Emiliano Queiroz ofuscaram até mesmo o conflito amoroso da novela - o médico Juarez Leão (vivido por Jardel Filho), que contrariava os interesses de Odorico ao salvar vidas em Sucupira, se envolvia com Telma (papel de Sandra Bréa), filha do político.

Outras atuações de destaque foram dos saudosos Carlos Eduardo Dolabella (como Neco Pedreira, jornalista responsável pelo jornal de oposição A trombeta), Lutero Luiz (como Lulu Gouveia) e Zilka Salaberry (no papel da delegada Donana Medrado). Para o ator Milton Gonçalves foi reservada uma cena marcante no último capítulo: seu personagem, Zelão das Asas, que afirmava que "quem tem fé, voa", conseguia, enfim, voar.

O cemitério era finalmente inaugurado no último capítulo da novela - exibido em 9 de outubro de 1973. Por ironia, o primeiro enterro realizado era o do prefeito Odorico Paraguaçu, que morria assassinado por Zeca Diabo. Então diretor de novelas, Lima Duarte havia sido convidado apenas para fazer uma participação especial, mas acabou ficando até o final da trama porque o personagem foi muito bem recebido pelos espectadores.

Tornou-se corriqueiro usar as expressões esdrúxulas criadas por Odorico Paraguaçu - "donzelas praticantes" e "vamos botar de lado os entretanto e partir pros finalmente". Outra situação que despertava comicidade em O bem amado eram as tonalidades do figurino. As cores muito berrantes saltavam aos olhos dos telespectadores, e a atriz Ida Gomes chegou a afirmar que a cor excessivamente branca de suas pernas ficava saturada no vídeo. O reflexo das lentes usadas nos óculos de Emiliano Queiroz também ficavam fortes no vídeo - a opção foi colocar apenas a armação deles.

Outro humor involuntário ocorreu graças à Censura da época, que vetou as palavras "Coronel" e "Capitão" (usadas para designar, respectivamente, Odorico e Zeca Diabo) e também palavras como "ódio" e vingança". A TV Globo teve de apagar o áudio de 15 capítulos - mas depois voltou a usar as palavras "proibidas".

Na época, era comum a TV Globo designar compositores para escreverem as canções que fariam parte da trilha sonora de suas tramas. Em O bem amado, a trilha teve a luxuosa autoria de Toquinho e Vinícius de Moraes.

O bem amado teve outra peculiaridade: trata-se da primeira novela que foi além dos seus sete meses no ar. Em 1980, teve início o seriado O bem amado. Em seu primeiro episódio, Odorico ressuscitava, depois de quase ter sido enterrado vivo, e retomava o cargo de prefeito. A intenção de Dias não foi escrever uma continuação da novela, e sim usar a cidade de Sucupira para fazer sátiras às situações políticas, em tempos de abertura do Regime Militar.

Voltaram à cena também os personagens Zeca Diabo e Dirceu Borboleta, além das irmãs Judicéia e Dorotéia Cajazeira. Como a personagem Dulcinéia Cajazeira havia falecido na novela, a solução foi criar Zuzinha Cajazeira, uma prima que chegava à cidade, vivida por Kleber Macedo. A delegada Donana Medrado não pôde retornar também porque a atriz Zilka Salaberry já estava interpretando a Dona Benta no seriado infantil Sítio do Pica-pau Amarelo. Dias Gomes "nomeou" outra delegada - Chica Bandeira, interpretada por Yara Côrtes. O seriado teve 220 episódios, e foi ao ar até 9 de novembro de 1984.

***
Fontes consultadas:

Livros
A Hollywood brasileira, de Mauro Alencar
Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes

Página eletrônica
Teledramaturgia - www.teledramaturgia.com.br







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Zezito de Oliveira
 

Vinicius,
Grande novela. Seria tão bom um remake da Rede Globo. Muita coisa que acontece na politica brasileira atualmente é igualzinho aquilo que o Bem-Amado mostrou há algumas anos.
Para resolver o problema: +cultura, +educação e uma boa dose de paciência.
Um grande abraço e não se esqueça de Pantanal.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 8/10/2007 15:20
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Paulo Apolonio
 

Boa lembrança de Zezito!
A Globo deveria fazer uma segunda versão desta novela. Não foi do meu tempo e queria ter o prazer de assistir.
Abração, Vinicius!

Paulo Apolonio · Salvador, BA 9/10/2007 16:54
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