FESTRIBAL – Identidades em reconstrução (II)

Yusseff Abrahim
Associação Cultural Tribo Tukano comemora o título do XI Festribal
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
24/11/2006 · 80 · 1
 

Voltar ao tema inicial da decepção diante da surpresa pelo formato do Festribal, é motivo para analisar as relações de força interculturais que agem sobre o evento e o reformulam. Natural de Cucuí, a descendente indígena Gilda Barreto, 35, ainda lembra que ao chegar em São Gabriel da Cachoeira em 1989, participou de um evento diferente. “Começou com as associações de bairro e até participei de uma dança, no segundo ano já foi organizado pela associação das comunidades indígenas e ribeirinhas e vinham lideranças para fazer os preparativos”, relata, destacando ainda o fato do evento ser realizado nos dias 17, 18 e 19 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas e com a participação de várias etnias.

Somente depois de seis anos que a festa passou a ser denominada Festribal, em 1995, mas hoje, organizada pela prefeitura local, teve para a edição de 2006 a data alterada definitivamente por Lei Municipal que determina o período de 5 a 9 de setembro para sua realização. A mudança dá mais tempo para um eventual fluxo turístico considerando que, no Amazonas, assim como o dia 7, o 5 de setembro também é feriado, mas ao tirá-lo justamente da Semana dos Povos Indígenas, o evento sofre um esvaziamento simbólico significativo que se reflete na diversidade da programação atual. “Todos tentam fazer o máximo em ornamentação para ficar de acordo com a tradição, mas por outro lado, além da tribos indígenas o surgimento das agremiações fazem a festa perder o sentido de seu objetivo”, explica a pedagoga Waldete Andrade, 30, ressaltando o fato das agremiações serem compostas majoritariamente por descendentes indígenas e pessoas que residem fora do município.

A maior conseqüência é que hoje o Festribal aponta para a adoção de um formato mais folclórico e menos tradicional, e ao experimentar a estética parintinense como fórmula repetida em vários municípios, caminha para tornar-se mais uma festa moldada sob manchas de papel-carbono a exemplo do Festival do Peixe Ornamental, de Barcelos; os vários municípios que hoje festejam seus bumbás, além dos botos da festa paraense do Çairé, todas manifestações espetacularizadas e divididas sob uma dualidade entre a disputa do A contra o B, como Garantido e Caprichoso; Cardinal e Acará-disco; Tucuxi e Cor-de Rosa, e agora: Baré contra Tukano.

Qual é a implicação principal de mais esta cópia, especialmente adotada pelo poder público de um município como São Gabriel da Cachoeira? Quando em outros municípios espetacularizam-se manifestações como o boi-bumbá ou a ciranda, existe um processo natural de releitura local destes festejos por se tratarem de culturas trazidas por movimentos migratórios, ou seja, não nativas - assim o médico virou pajé no boi parintinense - mas em um município 98% indígena, a repetição da fórmula desgasta o que seria o principal atrativo turístico para presenciar uma festa no local: a originalidade das tradições.

Por outro lado, a partir do entendimento deste cenário complexo, é necessário superar o sentimento inicial de decepção para perceber a cidade de São Gabriel da Cachoeira tal qual se apresenta e não como é idealizada por um manauara, embora o estranhamento também seja latente nos filhos da cidade. “O objetivo da festa seria encontro das tribos ou etnias existentes no rio Negro para uma grande festa, na minha opinião deveria haver realmente esse encontro para que pudesse haver a troca de conhecimentos já que o município é riquissímo em culturas” observa Waldete, acreditando estar na logística o problema para a festa se consolidar em sintonia com o próprio nome. “O município é muito grande e precisaria de muito recurso para deslocar representantes de tantas tribos e etnias para a cidade. Assisti desde o primeiro Festribal e, na verdade, nunca houve a participação de todas as etnias, então, se faz o que pode até hoje com a apresentação de algumas comunidades”, considera.

Mesmo diante destas razões, uma grande contradição permanece ao observar como a programação é elaborada. Sendo chamado Festival das Tribos do Alto Rio Negro, a apresentação dos indígenas com sua simplicidade nos primeiros dias do evento contrasta com o encerramento reservado para a apoteose das duas Associações Folclóricas, transmitindo a sensação daqueles que deveriam ser os verdadeiros protagonistas da festa, servirem apenas como um pré-show para o grande espetáculo do folclore, embora sejam considerados convidados de honra, os primeiros a se apresentar e emprestem o nome ao troféu que premia o vencedor.

Por que Baré, por que Tukano?

A disputa entre apenas duas agremiações foi afunilada apenas ano passado durante a realização do X Festribal. Com o título Festribal Musical, as agremiações Uaupés, Tukano e Baré concorreram entre si apresentando apenas músicas, sob as quais seriam decididas as duas agremiações que concorreriam no XI Festribal, em setembro de 2006. “Venceram Baré e Tukano que vão permanecer pelo menos por enquanto”, conta o coordenador da última edição, Gilliard Henrique, mostrando que a construção da identidade do maior evento local, por estar vinculada à administração do municipio, passa também pelos interesses políticos de quem está no poder. “A construção do Festribal está acontecendo, mas depende de continuidade, infelizmente alguns interesses podem contar mais do que os aspectos culturais. Política pode falar mais alto”, afirma.

No âmbito das agremiações, Baré e Tukano constituem-se em apenas nomes desvinculados de qualquer representação oficial das etnias de mesmo nome. O caso da Associação Folclórica Tribo Baré é mais curioso por historicamente levar o nome de uma etnia praticamente dizimada no período de colonização portuguesa. “Houve uma dispersão dos Barés que subiram o rio para se refugiar dos colonizadores, o tempo passou, e neste processo recente que presenciamos do resgate do indígena pelas suas origens, passaram a se intitular Baré todos que falavam Nheengatu – língua geral criada pelos missionários - ou aqueles que não encontraram mais seus vínculos”, afirma o antropólogo, Antônio Maria de Souza.

Desde 1976, Antônio realiza pesquisas de campo na Amazônia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, e estava em São Gabriel da Cachoeira acompanhando mais um Festribal como continuidade de suas pesquisas. “É certo que nessa Babel cultural de tanta etnia junta na cidade, isso está formando uma identidade para os habitantes”, explica. Para a associação em si, este caráter agregador do nome Baré torna-se ainda um apelo a mais, além de muito bem vindo para sensibilizar novos adeptos.

No caso da oponente fundada em 1995, a adoção do nome Tukano gerou problemas por se tratar de uma presença étnica forte e organizada na região, culminando com a suspensão temporária de suas atividades. A informação presente no histórico distribuído à imprensa na noite da apresentação da Tukano, descreve que em 1997 por pressões de algumas entidades indigenistas que confundiram a intenção da Agremiação em homenagear o pássaro e não roubar o nome tukano da etnia Tucano, os coordenadores da época abandonaram a agremiação por um período de 5 anos. Somente em 2002, os componentes retomaram as atividades legalizando-se como Associação Cultural, defendendo o preto e amarelo representando as cores do pássaro que os coordenadores defendem homenagear desde o início.

O olhar da população sobre a festa

A grande presença de público nas dependências do tribódromo pode dar uma falsa noção de apoio incontestável ao formato novo do Festribal, mas em uma cidade sem muitos eventos é natural a mobilização em torno da festa enquanto acontecimento social, independente da opinião favorável ou crítica de quem assiste. Nestes juízos particulares construídos a partir de olhos atentos, foi possível detectar um pouco da percepção do público sobre o Festribal 2006.

Aproveitando o feriado para visitar a família e assistir o evento pela primeira vez, a estudante Edna Souza, 21, afirmou ter gostado tanto da estrutura quanto das apresentações. “Adorei a apresentação da Tukano, das tribos e agora sou uma torcedora”, conta, explicando que apesar de ter nascido em São Gabriel da Cachoeira, está morando em Manaus para completar os estudos. “Foi muito bonito e é bom para a cidade que o festival cresça”, afirma. Sem ver problemas na estilização dos rituais, Edna também não se opõe ao fato de serem somente duas agremiações na disputa. “Fica menos cansativo e as pessoas ficam mais unidas para preparar uma festa bonita”, comenta.

No lado mais crítico, o descendente da etnia Desano, Délio Alves, 23, faz uma análise ligada à questão do uso da cultura indígena ao mesmo tempo em que o formato atual colabora para distanciar a participação dos indígenas tradicionais. “As danças têm um significado religioso que se perde no chão de concreto do ginásio e a ausência dos quatro pilares principais, eles têm uma representação muito forte e servem como referência para muitas etapas do ritual”, conta o expectador, se referindo aos pilares presentes nas malocas como locais apropriados para dançar. “Sem os pilares, os Daw que vieram abrir o evento ficaram visivelmente confusos, sem contar que para muitas etnias é até um ato profano dançar somente para exibição”, enfatiza. Apesar de prestigiar o evento com sua presença, Délio não esconde sua opinião sobre a festa. “Não gosto, venho por que normalmente não há muito o que fazer na cidade”.

Perspectivas no caldeirão cultural

Na tentativa de construir o Festribal como uma forma positiva de projetar a fama da cidade no estado, o distanciamento das raízes indígenas é a conseqüência da escolha por uma versão de espetáculo a ser aprimorado a cada ano pelos organizadores, mesmo que o abismo da diferença entre os investimentos de Parintins e São Gabriel da Cachoeira desfavoreça a originalidade do Festival das Tribos do Alto Rio Negro. “Parintins está no quadragésimo e tal, por aqui estamos apenas no décimo primeiro”, conta uma das participantes da organização do evento, Janini Juçara, se referindo ao aprimoramento da festa estar condicionado a um processo que deve buscar uma conciliação abrangente das culturas presentes. “Tem muita coisa nessa região do Amazonas para ser mostrada”, comenta.

Em uma cidade que há séculos destila a convivência possível entre grupos tão diferentes, os conflitos culturais entre população indígena tradicional, descendentes indígenas absorvidos pela urbanização, militares, migrantes e a forte presença das igrejas católica e evangélica, serão necessariamente evidenciados na elaboração de um evento proposto como palco desta diversidade. Assim é o atual Festribal, que feito sob as regras políticas do poder público do branco, impõe suas regras, mas abre espaço para outras iniciativas de resgate às raízes presente em São Gabriel da Cachoeira e toda região do Alto Rio Negro passem a produzir seus próprios palcos, outros novos Festribais.

Nas palavras da pedagoga Waldete, uma aspiração repetida em vários relatos: “Deveria se fazer um estudo para que a festa pudesse ficar de acordo com Festival das Tribos do Alto Rio Negro, para valorizar as tribos existentes, promover o contato entre elas e homenagear as que foram dizimadas”, conclui. Para o visitante, descifrar o local e descobrir as muitas faces da cidade é, sem dúvida, o levantar de uma pequena parte daquilo que cobre o mistério chamado Amazônia, da natureza exuberante ao comportamento das populações que nela habitam e interagem.

A descoberta de que se sabe muito pouco sobre o país em que vivemos é a parte mais penosa da nossa grandiosidade cultural, seja em harmonia ou no conflito, assim, independente do que se espera encontrar por uma divulgação obscura, tanto São Gabriel da Cachoeira, como o seu Festribal têm o direito de ser o que são e trilhar a sua busca. Visite o Festribal e conheça uma das partes mais ricas desta complexidade chamada Brasil.

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Thiago Paulino
 

Cara realmente.. quanto mais leio e mais conheço este nosso país mais me sinto pequeno. Muito interessante esta história do Festribal, suas implicações e contágios culturais...
Só me faz pensar q fessivais como estes não podem estar na mão de administradores brancos que somnete se preocupam com lógicas do espetáculo ou não possuem sensibilidade para perdceber a importância deste rituais para este povos.
Li também o outro texto do "Verdadeiro Festribal"... e só tenho a agradecer pelas informações. Quem sabe um dia com (qdo tiver posse de alguma grana) vou até aí conhecer estes festivais e esste rico pedaço do Brasil.

Thiago Paulino · Aracaju, SE 26/1/2007 21:16
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