“No sertão do Nordeste brotam fábulas”

Carolina Morena
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Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB
21/7/2007 · 168 · 2
 

A frase do título de Leonel Kaz no início do livro Olho da Rua pipocou na minha cabeça assim que fui convidada pela “central Overmundo” para cobrir a passagem do projeto “Revelando os Brasis” pela Paraíba. É bem verdade que a equipe do projeto não se restringiu apenas às cidades do sertão e, para melhor absorver o sentido da coisa, o ideal seria que substituíssemos “sertão” e “Nordeste” por “interior” e “Brasil”.

Sendo assim, “No interior do Brasil brotam fábulas”. Foi esse o espírito dos 25 mil quilômetros percorridos em todo o país por duas equipes aparelhadas com um super telão e a magia do cinema em seus caminhões. Quem tem acompanhado aqui no Overmundo a saga dessa super viagem sabe do que estou falando, e sabe também que essa história de magia do cinema nunca tem tanto efeito quanto quando apresentamos este universo a pessoas que, provavelmente, não teriam um contato próximo e palpável com tal experiência, a não ser com filmes em DVD’s, geralmente piratas, exibidos nas TV’s de 14, 20 e 29 polegadas em suas salas.

Claro que aceitei o convite, e ansiosa por histórias, saí de João Pessoa às 11:30 do dia 4 de julho rumo à Gurinhém pra encontrar com a equipe do projeto por lá. Nunca havia ido a Gurinhém, não sabia nem por que área localizava-se tal cidade, mas foi enorme a surpresa quando cheguei. Tinha aquelas características mais adoráveis de cidadezinhas: uma praça central com um boteco, pessoas receptivas e curiosas, clima agradável e ruas calçadas com paralelepípedos, intercaladas por estradinhas de terra. O que eu não esperava era que aquelas ruas tivessem tantas histórias e que me surpreenderiam tanto.

O projeto selecionou uma pessoa de cada cidade por onde passou para colocar uma câmera em suas mãos e deixá-la contar uma história qualquer dentro de sua realidade. Em Gurinhém, a grande escolhida foi Maria José da Silva, a Tuca, de 33 anos, que conheci assim que cheguei ao local combinado para o encontro. Ela era aparentemente tímida, mas bastou uma breve conversa pra saber que estávamos diante de uma mulher forte e vencedora, pronta a me revelar uma vida que eu não imaginaria. Clássica filha do meio rural, cresceu na agricultura e batalhou tanto, que enfrentou as dificuldades tão comuns à pessoas nascidas naquela realidade. Fez graduação em Letras e mestrado em literatura, agarrou as possibilidades que ela mesma conquistou e teve seu primeiro contato com a produção em áudiovisual a partir do Revelando os Brasis. A filha de agricultores agora é mestra, diretora de cinema e orgulho da cidade. Quem poderia imaginar? “Aqui não se encontram muitas oportunidades, você tem que correr atrás dos seus objetivos e enfrentar muita coisa. Não conheço mais ninguém por aqui que realmente tenha entrado numa faculdade, feito mestrado, saído da realidade em que nasceu. Essa história de fazer filme nunca me passou pela cabeça. Se era coisa de outro mundo até pra mim, imagina para o povo de Gurinhém, que nunca nem entrou numa sala de cinema!”

O que a Tuca falou faz muito sentido, a prova viva disso tive caminhando pela cidade a seu lado. Ela virou exemplo, virou estrela. Em cada esquina vinha alguém falar com a nossa diretora, dar os parabéns. Algumas pessoas recuavam, perguntavam se podiam falar, ficavam intimidadas, afinal não estavam acostumadas com aquela movimentação. “Mulher, parabéns, você é uma vencedora! Muita gente não gosta quando eu falo, mas verdade seja dita, você está certa em ter procurado outro rumo... Quem se conforma com isso aqui não vai pra lugar nenhum”, disse uma das pessoas que encontramos pelo caminho. Me pareceu radical demais, mas ela tem mais gabarito que qualquer um de nós que não vive a realidade daquela gente. Depois de alguns minutos de silêncio, quando já estávamos mais a frente, Tuca virou pra mim e disse: “Tá vendo, quando você me perguntou sobre a maior satisfação em ter feito todo esse trabalho, era disso que eu tava falando. É muito bom ver o reconhecimento do povo da minha terra, é muito bom mostrar que nossa vida não se limita às coisas que a nossa cidade oferece. E essa oportunidade de trazer o filme pra ser exibido aqui, pra todo mundo ver, estimula muita gente”. Sábia Tuca.

Sete e meia da noite, tudo pronto para a exibição. Praça cheia, gente pra tudo que é lado. Entrei naquele clima e fiquei ansiosa pra ver não só o documentário, mas os olhinhos brilhando de todo mundo que chegava ao local. O prefeito da cidade mandou um ônibus pra buscar as pessoas que moravam em Manecos, comunidade próxima à cidade, onde o documentário da Tuca foi produzido, contando a partir de depoimentos dos moradores a história da Comadre Florzinha, lenda que envolvia os caçadores da região.

O ônibus chega e começa a exibição. Fiquei lá na frente pra ver. Famílias inteiras não tiravam os olhos da tela, riam, reconheciam as pessoas, comentavam... Coisa linda de se ver, uma noite que muitos ali vão lembrar pra sempre, inclusive eu.

Após a exibição, a prefeitura organizou uma apresentação do grupo de música e de duas quadrilhas da cidade, mas eu não fiquei pra ver, fui para a pousada depois de me despedir do pessoal da cidade, todos muito alegres e gratos com o pessoal da equipe. Já era tarde e, no dia seguinte, pegaríamos estrada novamente rumo à próxima cidade: Pitimbu, litoral da Paraíba.

Sete horas da manhã, pontualmente. Depois de um café da manhã maravilhoso, fornecido pelo Junior e sua esposa, donos do restaurante local, colocamos nossas mochilas no carro e no caminho comentamos tudo: as figuras que encontramos na cidade (que é motivo pra um outro artigo), o fantástico número de pessoas que foram ver a exibição e toda a receptividade dos moradores. Estava ansiosa para ver se a reação em Pitimbu seria a mesma.

Pitimbu

É notável a diferença entre o interior e o litoral. Mesmo sendo ainda uma cidade pequena e bem carente, o clima é outro. Assim que chegamos encontramos alguns problemas, e o maior deles, sem dúvida alguma, foi a questão da politicagem, o clássico caso de uma cidade quase que esquecida pela prefeitura, que tenta se aproveitar de qualquer movimentação paralela para se fortalecer. O filme do local contava o dia-a-dia de uma marisqueira, profissão comum e bem sofrida da região. Quando eu digo que é bem sofrida, entenda com seu significado mais puro: rotina puxada, problemas ecológicos com a escassez dos mariscos e as velhas questões políticas, numa cidade onde não se encontra muito apoio e preocupação com a profissão. Por razões como estas, a pureza no semblante das marisqueiras é detectada apenas numa segunda observação. São desconfiadas e acostumadas a pouca trégua da vida, e por isso a relação com elas tem que ser bem cuidadosa.

A prefeitura tentou mudar o lugar de exibição dos filmes sem comunicar à direção do Revelando os Brasis, o que não agradou muito a Adelma, diretora do documentário local. Adelma não reclamou, afinal seu emprego dependia da prefeitura local e ela não queria criar problemas. Além disso, confundiu as Marisqueiras e deixou a produção do projeto um tanto quanto chateada, preocupando-se em deixar bem claro que a prefeitura não tinha autonomia alguma para uma decisão precipitada, muito menos sem informar à direção do Revelando, que teve toda a preparação de sua mídia para um determinado local. A prefeitura queria fazer a 12 km desse local combinado, em um município mais afastado de Pitimbu.

Bom, o fato é que o problema foi resolvido com todas as partes, depois de muito explicar às Marisqueiras. Situação complicada, elas dependiam do ônibus público para chegar ao local onde as exibições aconteceriam. Fomos falar com o assessor do prefeito e ele informou que não havia com o que se preocupar, pois o ônibus estaria à disposição. Fiquei com uma pulga atrás da orelha, mas a principio estava tudo resolvido.

Mesmo com todos os problemas, a cidade era linda. Difícil não ser, aliás, já que o litoral paraibano por si só já esbanja beleza por todos os ares. Descobrimos que a desconfiança e esse espírito de receio com tudo que vem de fora estava mais presente na população do que poderíamos imaginar. Aquela paz e tranqüilidade que ronda os ares do interior não existia mais. Lá os problemas com prostituição eram mais fortes, as crianças eram mais espevitadas, o olhar não era tão acolhedor assim, era tudo muito tenso, exigia dedicação em dobro, tudo tinha que ser muito bem feito.

Mas estávamos lá pra exibir os filmes, e no horário marcado estava tudo pronto. Havia muitas, mas muitas crianças correndo pelo local, empolgadas. Estávamos preocupadas com a história do ônibus, quase uma hora depois do horário marcado e ele ainda não tinha aparecido. E quase que ele não aparecia, descobrimos que só chegou para apanhar as Marisqueiras um tempão depois, quando boa parte já tinha desistido e ido pra casa. A prefeitura alegou que um pneu havia furado, o que se podia fazer? Complicadas mesmo essas questões, ficamos muito tristes, mas as poucas Marisqueiras que vieram chegaram a tempo, já que demos uma atrasada na exibição esperando por elas.

Não vou mentir, toda essa situação ofuscou um pouco o clima de encanto que a noite oferecia, mas aquele telão enorme parecia por alguns instantes ser maior que qualquer problema e, no final, a realização do filme foi uma vitória merecida daquela gente. A despedida foi em tom de agradecimento, estávamos certos que aquilo tudo tinha sido muito bom para o fortalecimento, afirmação pessoal e coletiva daquela cidade, que em outra situação não teria uma oportunidade parecida.

Tantas fábulas nesse Brasil... Tantas histórias e diferenças em cidades tão próximas... Voltei na manhã seguinte pra João Pessoa e pensei que eu só estive em duas! A equipe seguiu viagem no outro dia, rumo a contar e ouvir mais histórias. Ensina-se muito, são oferecidas muitas oportunidades para aquela gente, mas pode apostar que quem pegou carona e viajou com esse projeto belíssimo aprendeu muito mais, e não voltou a mesma pessoa. Pode-se ver problemas de verdade, assim como reais alegrias e um sentimento gigantesco de objetivo atingido, de ter feito algo realmente bom. Não tem preço. Há coisas que, realmente, só o cinema e suas movimentações proporcionam.


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wiene
 

É a força do cinema independente contra o fastfood shopping.

wiene · Cuiabá, MT 19/7/2007 20:30
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Zezito de Oliveira
 

Mais uma do Revelando Brasis.

Que tal um Revelando Brasis para a música, teatro, dança etc...

Quem puder passar adiante a idéia, vale a pena.

Abraços,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 21/7/2007 10:43
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O Super caminhão abastecido de sonhos zoom
O Super caminhão abastecido de sonhos
Tuca, diretora do zoom
Tuca, diretora do "Extraordinárias histórias em Manecos"
Equipe Revelando os Brasis + Pessoal de Gurinhém zoom
Equipe Revelando os Brasis + Pessoal de Gurinhém
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Super público de Gurinhém
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Em Pitimbu, um espectador conferindo o percurso do projeto pelo Brasil todo
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