O ano em que meus pais saíram de férias

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Juliana Rocha · Belo Horizonte, MG
16/11/2006 · 86 · 2
 

Transição é o tema abordado pelo segundo longa de Cao Hamburger


1970. O Brasil sofria o auge do regime militar sob o governo do general Emilio Garrastazu Médici. Em junho, mesmo com a situação política conturbada pela qual o país passava, a seleção de Pelé, Tostão e Rivellino conquistou o tricampeonato do mundo de futebol no México. Foi também neste mesmo ano que os pais do garoto Mauro saíram de férias. Pelo menos é esse o pontapé inicial do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, segundo longa do diretor Cao Hamburger, cuja estréia acontece dia 02 de novembro.

Mauro, interpretado pelo ator-mirim Michel Joelsas, é filho de dois militantes que são obrigados a se exilar devido à repressão da ditadura. Mauro é então levado de Belo Horizonte para São Paulo para viver com o avô (Paulo Autran), um judeu morador do bairro do Bom Retiro. (Para aqueles que desconhecem, o bairro é famoso por ter abrigado imigrantes, tanto brasileiros, nordestinos vindos para o sudeste em meados da década de 60, quanto estrangeiros, destacando-se nesse último judeus e italianos).

O menino, porém, é obrigado a viver com Shlomo (interpretado pelo ator amador pernambucano Germano Haiut), também judeu e vizinho de seu avô que morrera no mesmo dia em que o menino chegou a São Paulo. O homem passa a adquirir importância significativa na vida do garoto.

É então neste mesmo momento, em meio a toda aquela tensão causada pela ditadura e as expectativas dos brasileiros com a copa do mundo no México que se desenvolve a história.

Embora consiga restituir o cenário da época e construir um clima de tensão muito melhor que muitas produções que abordam o tema, a intenção do filme não é a de narrar os acontecimentos referentes ao período histórico cujos resquícios ainda se encontram presentes. Tanto a ditadura quanto a conquista do tri funcionam apenas como pano de fundo para o filme; um contexto histórico que cria relações com aquilo que de fato se deseja mostrar. “O ano em que meus pais saíram de férias” gira em torno do menino Mauro e das situações que ele é obrigado a enfrentar. É uma história que almeja e consegue de modo simples, porém excepcional, representar o momento de transição de um garoto que aos poucos deixa de ser criança para iniciar o momento de preparação para a adolescência. Aquela fase intermediária, conflituosa na qual aquilo que foi já não é mais.

A maneira encontrada para isso foi colocar Mauro em um universo estranho a ele, obrigando-o a conviver com pessoas e realidades diferentes da sua. Para ilustrar esse momento na vida do garoto, Cao recorreu a métafora do goleiro. Assim como o jogador está fadado a uma condição solitária durante uma partida de futebol, Mauro também está sozinho em um ambiente diferente daquele a qual era acostumado em Minas. Vale lembrar que o sonho do menino, incentivado pelo pai, era de se tornar goleiro.

A escolha do ano de 1970 se justifica de forma cabível como cenário ilustrativo do filme. Assim, como o país enfrentava um clima de tensão, devido à pressão provocada pela ditadura misturada a expectativa da copa do mundo, o menino Mauro também passava por um momento de instabilidade. A passagem da infância para a adolescência, marcada tanto pelas dúvidas pelas quais uma criança naturalmente é obrigada a passar, como pela inconstância das situações que o garoto foi obrigado a enfrentar. A ansiedade gerada pela promessa feita pelos pais de retornarem no início da copa e os momentos de felicidade proporcionados pela copa do mundo e pela descoberta de novos amigos, do amor, da solidariedade e até mesmo da sexualidade. E o êxito é alcançado graças à forma que Cao utilizou para transmitir ao espectador o momento de transição. Os diálogos são escassos sim, mas nada que transforme o filme em algo monótono. Os gestos substituem a fala de uma maneira muito melhor, retornando aquele velho, porém verdadeiro clichê, de que um ato vale mais do que mil palavras.

O final previsível não retira nenhum dos méritos alcançados durante o desenvolvimento do filme. Apesar de triste, mostra que Mauro venceu toda aquela inconstância própria da vida de qualquer criança e potencializada pelas situações a que foi obrigado a enfrentar. Agora ele está pronto para viver... e voltar.

“O ano em que meus pais saíram de férias”, representa a transição na carreira do diretor Cao Hamburger, uma vez que ele deixa de dirigir para as crianças (para quem não se lembra ele dirigiu tanto a série como o filme “Castelo Rá-Tim-Bum") e passa a fazer filmes para adultos. E isso, ele mesmo afirmou na palestra do dia 26 de outubro na PUC Minas.

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Thiago Camelo
 

Vi esse filme ontem. Achei lindo. Referências incríveis, que remeteram tanto a cineastas que eu adoro (Truffaut, talvez, o maior deles), quanto a séries de TV da década de 80 (The Wonder Years, imbatível) e, também, à minha própria infância (na rua desde cedo, jogos de botão, futebol na rua, álbuns de figurinha etc.).

Por mais que o filme não gire em torno (explicitamente) de discussões políticas, achei-o absolutamente politizado, com os personagens em torno do garoto delineados de modo muito complexo, obtusos mesmo - toda comunidade judia é apresentada assim, bem como os pais e o personagem do Caio Blat. A vida do garoto e seu imaginário tão especial só jogam em favor de toda essa relação de transformação coletiva e individual que se dá simultaneamente e colada no tempo . Muito mais crível e sensível do que os tantos "filmes políticos" já vistos nos últimos anos no cinema brasileiro.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2006 13:45
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Bernardo Biagioni
 

Confesso que fui ao cinema com o intuito de conhecer mais sobre a ditadura militar. O filme pouco retrata o lado historico do período, mas em compensação dá uma noção completa ao espectador de como eram as repressões, tanto fisicas como morais de pessoas que lutavam por uma sociedade igualitária. Recomendo de boca cheia o filme. Excepcional.

Bernardo Biagioni · Belo Horizonte, MG 28/11/2006 07:24
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