O essencial é invisível: Cia Foz 20 anos de teatro

Áurea Cunha/Revista Escrita
20 anos de teatro: Cia. Foz é destaque na Revista Escrita
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paulo bogler · Foz do Iguaçu, PR
15/1/2012 · 7 · 0
 

“Vinte anos persistiu a alucinação. Porém foi vencido pelo cansaço e pelo horror de ser tantos reis assassinados e tantos amantes que agonizam. Aquele mesmo dia resolveu vender o seu teatro.

Regressou a seu rio de infância e às árvores de sua aldeia natal, finalmente liberto das ilusões mitológicas e vozes latinas de seus textos.
Era preciso agora ser alguém. Postou-se diante de deus e disse: “eu, que tantos homens fui em vão, quero ser alguém, quero ser eu! E a voz solene de deus lhe respondeu: “nem eu mesmo sou eu. Sonhei um mundo como tu, shakespeare, sonhaste em tua obra. E entre as formas de meu sonho estás tu, que como eu, és muitos... E ninguém!”

Jorge Luis Borges, em Everything and nothing, no livro “O fazedor”)



Enfrentar as dores da vida sem analgésicos não é tarefa simples para os indivíduos que vivem em um mundo onde a competitividade e a frivolidade consumista operam de forma angustiante sobre a existência. O tão propalado mundo globalizado, no contexto social e cultural, não é mais que a tentativa de homogeneização do pensamento, do modo de ser, de agir e de viver em sociedade.

Padronizadas, neste palco de lugares e funções previamente demarcadas, uma a uma, conscientes ou não, as pessoas vestem o figurino que lhes é atribuído: alegria, quando a hora requer contrição; vivacidade, em plena apatia; sociabilidade, em momentos de recolhimento e isolamento. E a roda do mundo segue sendo movida.
Esta aparente objetividade, entretanto, reúne sentimentos, sensações, relações, impressões, ingredientes subjetivos que recobrem o gênero humano, presentes na vida de qualquer pessoa. É através deste recorte que se ergue a narrativa da peça “Invisível”, recente espetáculo do grupo iguaçuense Cia. Foz de Teatro.

No palco, seis mulheres, seis personagens e seis textos dramáticos, cada qual contando uma história, que se untam, entrelaçam e se comunicam. O drama retrata a vida sem verniz. Em meio à rudez e à severidade, às angústias e aos dilemas, contudo, o espetáculo também oferece passagens de delicadeza, cenas de leveza que sugerem a busca pela felicidade plena, este elemento que move a todos, mas, parece, mais se distancia a cada tentativa de aproximação.

O GRUPO - A Cia. Foz de Teatro surgiu em meados dos anos noventa, levada pela onda de protagonismo social que embalou o país e a necessidade de superação definitiva do regime de arbítrio, consagrado pela ditadura militar. Um grupo de jovens das periferias de Foz do Iguaçu, então, passa a utilizar a arte como ferramenta de interferência nesta maré de reconstituição democrática, formando o grupo de teatro e de mobilização cultural. Com duas décadas de atuação, a Cia. Foz de Teatro é a companhia iguaçuense mais antiga, ainda em atividade.

A peça “Invisível” constitui um ponto de crescimento criativo e de equilíbrio coletivo do grupo. A montagem é dividida em monólogos. Alguns são viscerais e cortantes. Outros são suaves e esperançosos. A produção surpreende com algumas experimentações, como a cena de sobreposição de imagens e de luzes, que se projetam seccionando a encenação. A bem arranjada trilha sonora também oscila entre momentos de rigor e sensibilidade, ajudando a criar um ambiente de perturbadora reflexão.

Em meio às irupções de poder, violência e contradição, a arte ajuda a conjurar o dano, a cicatrizar as feridas e a presentificar as ausências. Neste contexto, a Cia. Foz de Teatro faz cumprir a função do artista, que ao invés de entregar-se ao espanto, refaz permanentemente o antídoto que ameniza a desfaçatez e a dor do mundo.


FICHA TÉCNICA:

“Invisível”, da Cia. Foz de Teatro


Elenco - Arinha Rocha, Ednéia Dias, Fabiola Bomdia, Rosângela Rocha, Sabrina Bondia e Vitória Bomdia

Direção - Arinha Rocha

Texto - Adaptação livre do livro “O Teatro Mágico em palavras”, de Maíra Viana

Sonoplastia - Júlio Fornari

Iluminação - José Carlos Dias da Silveira

Contato: casadoteatrofoz@hotmail.com e (45) 3572-1473

Texto publicado na Revista Escrita, edição 19.



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