O tamborzão na Baixada

Leandro HBL e Renato Barreiros
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Leandro HBL · Belo Horizonte, MG
7/8/2011 · 7 · 0
 

com Renato Barreiros

Do vendedor de pamonhas que cria paródias de clássicos do batidão para tocar em seu carro de som ao ex-gari que conciliava limpeza urbana e bailes noturnos, a cena funk na Grande Santos é diversa e bem representada – tem até “proibidão”!

Baixada Santista, sexta-feira à tarde em pleno verão, o calor já passa dos 35° C no bairro Catarina, periferia de São Vicente (SP), próximo a um bar onde alguns adultos tomam cerveja e assistem à TV, crianças brincam em um campinho de areia improvisado.

O jogo, até então disputado, é bruscamente interrompido quando ao fundo soa o forte tamborzão emitido pelas caixas de som de um Siena que dobra a rua: “Só as cocadas, huh huh huh. É o quebra-queixo, huh huh huh. Com leite moça huh huh”.

Não fosse pela hilária letra parodiando a música do grupo de funk carioca Bonde do Tigrão, poderia ser mais um carro de som divulgando um dos muitos bailes funks que ocorrem na Baixada Santista, mas trata-se de um dos carros da frota do já famoso Gilmar da Tapioca.

As crianças saem correndo do campo e vão ao encontro das guloseimas que lotam o porta-malas do veículo: tapiocas com doce de leite, brigadeiros, cocadas, quebra-queixos, entre outros fazem a alegria da molecada, que, enquanto se delicia com os quitutes, ensaia alguns passinhos e repete o refrão.

Gilmar da Tapioca é um desses casos de empreendedorismo que afloram por todo Brasil e alcançam o sucesso. Ex-funcionário de um hotel, aproveitou suas férias para faturar uma grana extra e começou a trabalhar como ambulante vendendo tapioca. Em 15 dias, faturou mais do que o salário que ganhava por mês e não teve dúvida: terminadas as férias voltou ao hotel para pedir as contas e se dedicar de uma vez ao comércio ambulante de tapiocas. A ascensão das tapiocas de Gilmar foi rápida, da bicicleta em que começou, passou por um triciclo e hoje trabalha com dez Sienas novos.

Mas não foi apenas com suas receitas que Gilmar construiu seu “Império da Tapioca”. As vendas explodiram depois que o comerciante resolveu também explorar seus dotes artísticos e parodiou músicas de funk que soam a todo volume pelas indispensáveis caixas de som que enchem de alegria as ruas por onde passa o “Bonde da Tapioca”.

Mas por que entre tantos ritmos o tão polêmico funk foi escolhido para promover a venda de doces na Baixada Santista?

A cena funk na Baixada Santista

Para responder essa pergunta, é importante saber um pouco da história de um movimento que desde meados dos anos 1990 anos invade os becos, vielas, morros e as praias do litoral paulista. Vindo do Rio de Janeiro e incentivado pelos festivais em bailes de comunidade que buscavam uma alternativa ao rap, o funk entra na Baixada Santista por meio das duplas que concorriam tentando conquistar os prêmios oferecidos nestes eventos.

Duplas como Vina e Fandangos, Renatinho e Alemão, e Cosme e Dingo foram pioneiras em criar o novo estilo que ficou conhecido como “Funk da Baixada”, com letras mais densas que lembram os primeiros funks do Rio de Janeiro – os chamados de “raps” – cantados por artistas como MC Galo, Cidinho e Doca, Junior e Leonardo, entre outros.

A primeira loja que se dedicou a vender artigos de funk na Baixada Santista chamava-se Footlose e era ponto obrigatório para todos os que se identificavam com o movimento que estava nascendo. LPs importados de miami bass eram os produtos mais cobiçados, com preços muitas vezes pouco acessíveis, e era comum ver alguns funkeiros fazendo as tradicionais “vaquinhas” entre um grupo de cinco ou seis pessoas para comprar o tão sonhado álbum.

Hoje, a realidade é diferente, e empresários como Marcelo Fernandes chegam a produzir 30 mil cópias de CDs promocionais de apenas um artista. A internet também é utilizada como alternativa para a promoção, e pode-se citar o famoso Funk MP3 como exemplo, que disponibiliza gratuitamente downloads das músicas e possui mais de 175 mil visitas mensais. “Nosso dinheiro vem dos shows que fazemos, pois dificilmente um artista do funk ganha com direitos autorais”, conta Marcelo, que já empresariou mais de uma dúzia de funkeiros bem-sucedidos da Baixada.

Com o funk adotando essa nova modalidade de divulgação, os próprios grupos fazem questão de entregar uma cópia de seus CDs promocionais aos pirateiros, que copiam e vendem para as barracas de CDs e DVDs. YouTube, 4Shared, Orkut e Twitter também são ferramentas fortes de divulgação do trabalho, já que nas lan houses diariamente se vê um amontoado de jovens pesquisando quais são as novidades lançadas na rede naquela semana.

Sendo um ritmo totalmente alheio às gravadoras e às rádios tradicionais, em grande medida sustentadas pelos “jabás” pagos pelas gravadoras, os funks são tocados principalmente pelas rádios piratas que surgem como praga em uma região de geografia acidentada. Entre as mais famosas está a Rádio Difusora FM que possui alcance sobre quase toda a Baixada. A rádio sofre uma forte repressão por parte do poder público e já chegou a passar três meses fora do ar, mas voltou graças ao grande público e ao apoio dado pelos funkeiros.

Fashion funk

A profissionalização do funk criou na Baixada Santista um grande mercado que movimenta milhares de reais e não se restringe somente aos bailes e cachês para os MCs. A “moda funk” também criou uma indústria que influência milhares de jovens dispostos a gastar seu dinheiro para acompanhar as últimas tendências.

Tudo começou ainda na década de 1990, quando os funkeiros tinham por obrigação vestir o chamado “uniforme”: boné de aba reta de algum time de baseball americano, camiseta dos Lakers, bermuda de veludo da Cyclone, meias pretas e Nike Air Max.

Entre as peças de vestuário citadas, a bermuda de veludo da Cyclone foi realmente um clássico que marcou época e não poderia ser dispensada de forma nenhuma. Mas, em algumas casas noturnas que evitavam o público dos bailes funks, chegar vestido de Cyclone era certeza de ser barrado mesmo com o nome na lista.

A marca, que já foi a preferida pelos funkeiros santistas, hoje faz sucesso na periferia de Salvador entre os adeptos do pagode baiano, trilha sonora do gueto soteropolitano. Também inspirou o sucesso da banda A Bronkka e mostra no refrão como os adeptos da marca também enfrentam o preconceito: “Cyclone não é marca de ladrão é a moda do gueto, mas com toda discriminação eu imponho respeito”.

Algumas marcas que começaram com foco no público funkeiro tiveram tamanho êxito que hoje vendem para todo o Brasil, como é o caso da K-Tron, direcionada também para adeptos do surf e do skate. Nos dias de hoje o gosto para se vestir dos funkeiros não difere muito do dos jogadores de futebol ou mesmo da chamada “playboyzada” que mora nas zonas nobres da cidade e torce o nariz para o tamborzão.

Reserva, Polo Play, Ecko, Oakley e Lacoste são marcas vistas aos montes em qualquer baile funk e muitas vezes viram citação nas letras dos funkeiros, como na letra de “Rinoceronte x Jacaré”, de Dinho da VP, que faz uma clara alusão ao símbolo das marcas Ecko e Lacoste.

O Patrão que largou o emprego

Dinho da VP, aliás, é um exemplo de como a profissionalização do funk e o enorme mercado criado em torno do tamborzão estão abrindo portas para que talentosos jovens da periferia consigam viver de sua própria arte. Ex-gari da Prefeitura, Dinho tinha de conciliar o trabalho pesado durante o dia com as apresentações noturnas nos bailes de Santos.

Com o sucesso da música “O Patrão”, largou o emprego e há mais de dez anos vive dos shows que faz Brasil afora. Somente nesse ano já tocou em Fortaleza, Joinville (SC), Belo Horizonte, Porto Alegre e Natal e em diversas cidades no estado de São Paulo.

Além dos shows, Dinho também ganha dinheiro com direitos autorais, uma raridade no meio funk, já que a música “O Patrão” foi incorporada pelo famoso grupo de pagode Exaltasamba aos seus shows. A música abre o debate para uma velha discussão sobre o funk chamado de “proibidão”, por supostamente fazer apologia ao crime, enquanto os compositores das letras dizem que o conteúdo trata da realidade em que vivem. “A música fala sobre o que aconteceu no Morro de Santos durante os ataques do PCC, o chefão aqui mandou botar chapa quente e é isso que eu relato”, conta Dinho da VP.

A atual sensação do funk na Baixada, MC Lon, também largou o emprego que tinha em um salão de cabelereiro onde fazia cortes artísticos na cabeça dos jovens clientes. Lon chega a cobrar hoje até R$ 8 mil por um show e tem a agenda lotada, pois é garantia de casa cheia em qualquer baile onde canta. Com apenas 20 anos começou a ganhar fama com a música “Mundo M” em que canta a realidade de onde vive apenas com palavras começadas pela letra M.

Bó do Catarina também é outro MC que saiu diretamente dos salões de cabeleireiro de São Vicente para os palcos do Brasil. Sua música “Vida louca também ama” virou sucesso em Belo Horizonte, para onde viaja constantemente para as apresentações. Com o dinheiro adquirido comprou o salão de cabeleireiro em que trabalhava e mudou o nome para Salão do Bó.

Além de Bó do Catarina, MC Pekeno também ganhou fama com a associação do funk melody a letras com mensagens positivas e conquistou Minas Gerais. Com as bases trabalhadas, que inclui um instrumental muito bem feito, ele se destaca no cenário atual onde predomina o tamborzão seco.

As letras conseguem descrever momentos dramáticos por que passam muitas famílias que vivem nas periferias do Brasil de forma poética, como é o caso da música “Sente o drama”, em que um filho preso fala ao seu pai dificuldades na cadeia e se redime de seus crimes.

MC Pekeno mostra que a junção do funk a letras com mensagens positivas e fundo poético é algo possível e muito bem aceito pelo gosto popular, já que o clipe de “Sente o drama” conquistou mais de 1,5 milhão de acessos no YouTube.

Agruras e dificuldades do “pancadão”

Mas nem só de glórias vive o funk da Baixada. Assim como em outros lugares, a repressão contra uma cultura que nasceu e cresceu nas favelas é uma séria realidade. O caso mais evidente é em Santos (SP). Antes conhecida pelos eventos que congregavam multidões, hoje é talvez a cidade com menos bailes na Baixada.

A prefeitura santista utiliza de vários meios para a repressão, tais como a exigência de alvarás de funcionamento para os shows e apresentações, ou a menção à lei do silêncio. “Em outros eventos de samba ou forró não vemos os órgãos de fiscalização atuando com a mesma rigidez”, conta um organizador que prefere não se identificar. Bailes tradicionais como o Baile dos Portuários, da quadra da Unidos dos Morros e da quadra dos Bandeirantes foram os primeiros alvos de uma administração municipal que prefere reprimir ao invés de incentivar uma manifestação cultural popular que tem dado oportunidade a muitos artistas de se expressarem.

A repressão em Santos, porém, fez com que o tamborzão migrasse para outras praias e, hoje, Itanhaém, Praia Grande, Peruíbe, Cubatão, entre outras cidades da Baixada Santista, já têm semanalmente seus bailes funk, mostrando que mesmo com a falta de incentivo do poder público e do apoio das gravadoras, e a ausência das grandes rádios comerciais, além da enorme repressão oficial, o funk continua a se expandir pelo litoral paulista. Se depender do ritmo, Gilmar poderá ampliar ainda mais seu império das tapiocas, sempre embaladas pelo pancadão.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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