Arrumei as malas, comprei minha passagem e lá fui eu. Embarquei numa aventura gastronômica quando optei pelo estilo de restaurante: japonês! Mal sabia das “atrocidades” que presenciaria.
A pequena entrada para alegrar/avivar/aquecer o paladar era um pouco apimentada: uma mistura de pepino com cenoura e bastante pimenta, serviu para anestesiar as papilas gustativas para o que viria. Optamos por nos entregar ao chefe numa espécie de Menu Confiance, que por sua vez, não me passou confiança nenhuma. Fui na aba do meu amigo, companheiro de “caça refeições perfeitas”. Hashi na mão e lá fomos nós: finíssimas lâminas de ovas de tainha entremeadas com nabo, um sabor muito peculiar, forte. A seguir, vieram cinco fatias de atum selado, com molho a base de soja e a gema do ovo de codorna: o ponto do peixe estava perfeito, embora eu tenha achado o atum cortado de uma maneira grosseira. (Ou não sei se foi apenas minha boca de menina ou minha educaçao que condena ficar de boca muito cheia.) Prosseguimos com Gyutan, língua de boi: chegou a mesa à francesa, temperada, mas, bem passada. (Poderia ser facilmente confundida com um churrasgato da esquina.)
O ponto alto foi a cavaquinha, era impossível duvidar do frescor do sashimi, já que o crustáceo chegou vivo à mesa. Enquanto eu e meu amigo discutíamos sobre casos de culinária que chegam semi-vivas à mesa, o bichano ficava nos observando colocando os olhos para dentro e para fora e ainda movimentando as patinhas. Cheguei a pensar que teria uma hora que ele sairia andando pela mesa. Mas foi uma experiência válida. A carne, de sabor levemente adocicado, estava fresquíssima. E as ovas, desmanchavam-se pela boca. É claro que o chef apertou a cabeça da cavaquinha como quem erguia um troféu e dizia: olha, ela está viva. E eu, quase desmaiando do outro lado da mesa. Tive que respirar fundo, contar de 1 até 10, respirar mais uma vez, recitar um mantra, falar internamente: você vai conseguir. E, peguei o hashi e provei a cavaquinha. Estava diante de um ícone da gastronomia, do homem que comia de tudo, não podia refutar. Depois desse episódio, passei a me sentir uma pessoa fria e calculista.
Digamos que a cavaquinha tenha sido apenas a metade da noite, e, foi também o divisor de águas para que criaturas cada vez mais estranhas invadissem a mesa: Enrolado de barbatana de tubarão com água viva; um “bolinho” de arroz de cavalinha, um peixe muito parecido com atum; outro “bolinho” de arroz com salmão e ovas de salmão A luta com o hashi chegou ao fim, quando o chef me permitiu usar os dedos para pegar as engenhocas dele.
Pausa, gengibre na boca para limpar o paladar, um gole de saque, outro de água…
Próxima bateria: na sequência, mais bolinhos de arroz, dessa vez um com pargo, outro com olho de boi (que fique bem claro que é o peixe) e outro com um mini polvo, ou um polvo anão, ou, um crime, um polvo bebê!
Depois desse jantar acho que tive um desvio de caráter. No meio disso tudo ainda veio um tempura de pargo enrolado numa folha que dava um gostinho de palmito. Por fim, optamos por trocar a sobremesa por uma dupla de enguia. Eita coisinha gostosa! Aveludada, enche a boca, uma explosão de sabores.
Pode até parecer roteiro de terra exótica, mas isso tudo foi no Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema, num restaurante Japonês chamado Ten Kai, que no budismo quer dizer mundo celestial, paradisíaco… Será que no paraíso eles comem cavaquinhas semi-vivas e matam polvos anões ou bebês?
;Quem sabe na próxima visita ao restaurante eu não me aventure na lula com ouriço? Ou então, ouriço com água viva?
Serviço:
Rua Prudente de Moraes, 1810, Ipanema
Telefone: (21) 2540-5100.
www.tenkai.com.br
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