Qual é a questão?

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Ricardo Silvestrin · Porto Alegre, RS
18/3/2006 · 77 · 1
 

Toda época tem uma questão. Lá na Grécia, do Aristóteles, por exemplo, a questão da catarse. O filósofo grego analisou a tragédia e concluiu que o grande barato de tudo era a purificação do espectador. Sofrendo as dores do personagem, a platéia fazia uma limpeza geral na alma e ia pra casa aliviada e re-humanizada. O personagem, como na tragédia O Prometeu Acorrentado, ia no limite entre o homem e o divino. Prometeu queria roubar o fogo dos deuses e por isso foi punido. Ficou acorrentado numa montanha. Como se não bastasse, um abutre ia roendo pedaço por pedaço, dia após dia, o seu fígado. A platéia se via humana em Prometeu. Aos deuses o que é dos deuses; ao homem, o que é do homem. Esse reconhecimento do humano é a grande questão do mundo grego da Antigüidade. Já na virada do século XIX para o XX, o buraco é mais embaixo. Com Freud, o homem se descobre com uma parte alheia à razão, o inconsciente. Essa besta quadrada, o inconsciente, é o que rege a sua vida. Tanta inteligência, tanta razão, para uma parte meio manca, meio infantil, ser a dona do pedaço. Com Freud, se descobre uma outra estrutura, invisível. Modelo semelhante se tem com Marx. O cara descobre que a infra-estrutura, ou seja, as condições econômicas, só descritas em abstrato, determinam a super-estrutura, que são as idéias, os conceitos de amor, de belo...Tudo que se pensa e se faz é determinado pelas relações de grana, de poder, que correm por baixo. Entramos no século XX com a noção de estrutura profunda. Há uma outra estrutura que nos rege, seja econômica, seja inconsciente. No movimento hippie, o comportamento é posto em questão. Se o mundo governado pelo desejo inconsciente e pela grana só traz caretice, repressão, ganância e infelicidade, vamos cair fora. Vamos experimentar. Não ter um ponto de chegada, só de partida. As gerações que ficaram adultas na década de 80 fizeram o balanço da geração hippie e viram que não é fácil viver em outro mundo ideal sem grana, cabeleireiro, tênis importado... Bem, a questão era como, ao mesmo tempo, construir um caminho próprio, mas dentro do mundo constituído. Isso foi a semente das tribos. O “cada um na sua” foi assimilado pela indústria de consumo. Vendemos revistas, cds, programas de tvs, emissoras de rádio, roupas para a tribo dos skatistas. Incenso para os esotéricos. Prancha e bermuda para os surfistas. Tatuagem para todos. Só a tatuagem os une! A questão de hoje, que parece ainda não estar em questão, é a seguinte. O raciocínio de que tudo é mercado transforma todo mundo em consumidor e vendedor. Nesse contexto, as relações todas viram negócio. Ser aceito é a regra, adequar-se ao outro é o que conta. Em termos de linguagem, o receptor é quem manda. O emissor não emite mais. Primeiro pergunta e repete o que o receptor diz. A música que os ouvintes mais pedem. A programação, que segundo pesquisas, vai dar mais ibope. A questão é essa: cadê o eu? O eu com toda sua diferença, sua complicação, sua novidade. O Ministro Gilberto Gil disse num discurso mais ou menos isso:”o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”. Quem vai propor?

(texto veiculado na minha coluna do jornal Zero Hora de Porto Alegre)

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Rômulo Ar.
 

Interessantíssima a tua análise. E deixa um ponto de interrogação muito desfiador e de vital importância. Pensemmos a proposta!

Rômulo Ar. · Porto Alegre, RS 8/6/2006 09:35
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