Responsável por grandes sucessos da teledramaturgia brasileira a partir da década de 1970, a TV Globo criou em 1980 uma atração estrategicamente interessante, tanto para a emissora quanto para os espectadores. Em maio daquele ano, estreou o programa Vale a pena ver de novo, sessão vespertina dedicada à reapresentação de novelas bem sucedidas na audiência global.
Através dela, o público tinha o horário da tarde disponÃvel para rever tramas que agradaram, e a cúpula global encontrava mais uma forma de lucrar com os gastos de suas telenovelas (garantindo audiência do horário em que aparentemente as donas-de-casa - boa fatia do público responsável pela consolidação das novelas - estivessem em frente à televisão). Anteriormente, a TV Globo dedicava esporadicamente horários de sua programação para compactos de suas novelas, mas a partir de 1980, a prática se tornaria constante graças ao pomposo e nostálgico tÃtulo de Vale a pena ver de novo.
A primeira novela a ser reapresentada no horário foi Dona Xepa, trama adaptada por Gilberto Braga a partir da peça de mesmo nome escrita por Adolpho Bloch e exibida em 1977 no horário das 18h. Entretanto, o que seria uma chance de rever telenovelas que fizeram parte da rotina do espectador brasileiro entre seis e oito meses, aos poucos foi esbarrando em algumas das limitações causadas pela ânsia da busca do "padrão Globo de qualidade".
Desde seus primeiros anos, a sessão jamais reexibiu novelas da época do "preto-e-branco" - o que deixou no esquecimento novelas como Irmãos Coragem, Minha doce namorada e a primeira versão de Selva de pedra . E, como a primeira novela totalmente feita já na época da TV a cores foi ao ar em 1973 (O bem amado, que se caracterizou por trazer um festival de figurinos com cores berrantes, pois os figurinistas ainda não sabiam do impacto que as roupas coloridas tinham no televisor), mas ainda com restrições tecnológicas, a TV Globo teve receio de passar novelas com critério de qualidade aquém do que ela trazia atualmente.
Com isso, a sessão do Vale a pena ver de novo se tornou um mero momento no qual personagens que o público tinha visto cerca de dois ou três anos antes reapareciam no horário da tarde, num horário que variava de acordo com a duração da atração que viria em seguida. Em raros momentos o horário fugiu deste padrão, e em ocasiões extremamente especiais - casos de Roque Santeiro (originalmente exibida entre 1985 e 1986 com sucesso de crÃtica e público e que, ao ser reapresentada entre 2000 e 2001 como forma de comemorar os 35 anos de funcionamento da TV Globo, teve minguados 12 pontos) e A viagem (que no ano passado foi reprisada pela segunda vez em função do sucesso de Alma gêmea, então novela das 18h e que também trazia o espiritismo como trama central).
Além das limitações causadas pelo receio de destinar parte da programação a um produto aquém de sua qualidade atual, a cúpula global afirma que o público pesquisado prefere rever novelas mais atuais, com personagens ainda "frescos" na memória - caso da novela que hoje ocupa o horário, Da cor do pecado, escrita por João Emanuel Carneiro e exibida no horário das 19h três anos atrás. Um exemplo disto foi a reprise da novela Por amor, de Manoel Carlos, que ao ser reexibida entre 2002 e 2003 conseguiu muitas vezes superar em audiência a então novela das 21h do horário global - Esperança, de Benedito Ruy Barbosa. No entanto, a emissora agora passa por outra restritividade: o retorno à censura.
Com a série de medidas tomadas pelo governo para combater a tão falada "baixaria na televisão", todas as emissoras tiveram de adequar seus programas às indicações destinadas para cada horário. No horário das 14:30 (em que vão ao ar geralmente as reapresentações de novelas do Vale a pena ver de novo), a indicação é para programas que tenham censura livre, enquanto as novelas do horário das 21h trazem a recomendação de que são adequadas para maiores de 14 anos (por terem temas adultos, assassinatos e insinuações de sexo).
O caso mais extremo disto ocorreu com a novela Laços de famÃlia, de Manoel Carlos. Em sua passagem pelo horário de Vale a pena ver de novo, a personagem Capitu (vivida por Giovanna Antonelli), que era uma garota de programa teve sua participação extremamente reduzida para que a trama se adequasse à censura livre. Desde então, a TV Globo passou a alternar em seu horário tramas que originalmente foram exibidas à s 18h ou à s 19h.
Criado com o intuito de fazer reviver a memória da telenovela brasileira, o Vale a pena ver de novo aos poucos é reduzido a uma coisa qualquer apresentada apenas para preencher espaço na programação global. É a reapresentação diária do descaso com a história da teledramaturgia do paÃs.
Vinicius,
Uma proposta interessante seria a Globo reprisar no horário das 22 horas aquelas novelas que não puderem ser reapresentadas no horário da tarde.
Sobre a não reprise de novelas antigas isso é uma pena. Para ser sincero já deixei de assistir as da safra recente pela falta de tempo e pelos clichês, estes sim que "não valem a pena ver de novo"..
Abraço,
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