A população do municÃpio de Nova Mamoré ficou curiosa quando viu o caminhão do Revelando os Brasis chegando à cidade. Queria mais detalhes do que se tratava e o que, de fato, aconteceria nos próximos dias. “Vai ter cinema na praça, e de graça!†foi logo avisando a produtora do projeto, Gabriela Nogueira, a um grupo de pessoas, minutos após sua chegada, antes mesmo de se hospedar no hotel no domingo (08/07) à tarde. O evento estava programado para o dia seguinte, segunda-feira, à s 19h:30m. Porém é preferÃvel que você, caro leitor, esteja localizado nesta que foi a última apresentação da primeira etapa desse projeto, onde um caminhão, que carregou toda a estrutura técnica, já percorreu mais de 15 mil quilômetros pelo Brasil afora.
Que municÃpio é esse?
Antes de receber esse nome, o municÃpio de Nova Mamoré era denominado como Vila Nova do Mamoré, em conseqüência da desativação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). A ferrovia tinha como ponto de parada a pequena comunidade de Vila Murtinho, localizada à s margens do rio Madeira, na época um dos principais centros comerciais da região por absorver a produção de borracha e castanha dos seringais nativos da República Federativa da BolÃvia. O municÃpio fica localizado a 240 quilômetros da Capital, Porto Velho, e apenas 40 quilômetros do municÃpio de Guajará-Mirim.
Com a desativação da EFMM, Vila Murtinho sofreu um golpe em sua economia e começou, então, uma migração dos comerciantes da pequena vila para as margens da futura rodovia (BR 425), surgindo assim um povoado que, inicialmente, foi chamado de “Vila Novaâ€. Mas foi através da Lei nº 531, anos mais tarde, em 1993, após ser chamada de “Vila Nova do Mamoréâ€, que finalmente estava criado o municÃpio de Nova Mamoré, hoje com uma área de 10.113 km² e uma população estimada em 20.343 habitantes.
É uma daquelas cidades tÃpicas do interior, que possui apenas uma rua principal (que é a BR 425) onde fica localizado o centro da cidade. Motocicletas e bicicletas são os principais meios de transportes daquela região. A única praça da cidade (conhecida como Matriz) fica localizada bem no centro, onde também está situada a Igreja Católica de São Francisco. É o ponto de encontro de quem quer bater um papo, paquerar, lanchar ou simplesmente ficar sentado no banquinho da praça.
Cinema Grátis
Enquanto ainda estava sendo montada a estrutura do cinema a céu aberto pela dupla Ricardo e “Seu Toninhoâ€, duas figuras Ãmpares da equipe de apoio, não paravam de chegar pessoas em busca de informações sobre o que estava acontecendo na praça Matriz. Era um sobe e desce nas ferragens, puxa corda dali, estica a corrente daqui, que ninguém entendia quase nada. E quando finalmente sabiam do que se tratava, a pergunta era unânime: “é de graça?â€, questionavam. “Simâ€, respondia este escriba que acompanhava tudo de perto.
Foi quando o Rafael – um menino de oito anos – estacionou sua bicicleta, ficou me rodeando e tomou coragem pra perguntar: “tio, eu posso vim assistir?â€. Lógico, respondi. Mas o melhor da história ainda estaria por vir...
Quando o relógio marcou 18h:20m estava tudo pronto para a primeira exibição gratuita de cinema no municÃpio de Nova Mamoré. Era o Revelando os Brasis, mais uma vez, pronto para entrar em ação.
“Aquele Apito do Tremâ€
Esse é o nome do documentário, dirigido por Sâmia Dias da Silva (uma das escolhidas pelo projeto Revelando os Brasis), e também a principal atração da noite para os moradores de Nova Mamoré. Quem assistiu pôde ficar emocionado ao ver o “Seu Zé PiraÃbaâ€, um dos primeiros moradores de Vila Murtinho, relatar as dificuldades daquele tempo e como viviam os moradores da pequena vila na época. “Era 18 estivador, nós embarcava a borracha e as mercadorias que vinham de Porto Velho (castanha), todo trem vendia banana, berimbá...essas coisasâ€, relembra PiraÃba.
“É um patrimônio imaterialâ€, revela Sâmia Dias ao se referir ao documentário. Segundo ela, houve um interesse muito forte em contar a história do municÃpio por pessoas que acompanharam o desenvolvimento de Nova Mamoré desde o inÃcio, naquela época ainda Vila Murtinho.
Foram mais de cinco dias de filmagens e 15 dias para o documentário ficar totalmente pronto, diz Sâmia, que adorou a experiência de dirigir um curta-metragem. “Eu nem esperava ser selecionada pelo projeto e ver meu trabalho hoje aqui na tela é muito gratificanteâ€. E finaliza: “Agora quem quiser saber um pouquinho mais da história de Nova Mamoré poderá recorrer a este arquivo em forma de documentárioâ€.
Depois da experiência, Sâmia pensa em produzir um novo documentário, desta vez contando a história do municÃpio de Guajará-Mirim. “São planos para o futuroâ€, complementa.
Enquanto isso na primeira fila...
...Lá estava ele, frenético, inquieto e de olho na tela – até então nunca vista daquele tamanho. Rafael Andrade de Jesus, de oito anos, ao me ver gritou: “Não disse que eu vinha?†E não veio sozinho. Trouxe consigo seus irmãos Daniel Andrade, 10 anos e a irmã mais velha, Daiane Andrade, 13 anos.
Rafael nasceu em Nova Mamoré e faz a 2ª série do primário. Contou que viu “aquele monte de ferro pendurado†na praça e resolveu saber o que era, enquanto passeava com sua bicicleta. Ao saber que se tratava de cinema, não pensou duas vezes em convencer seus irmãos para não ir sozinho, já que, como ele mesmo disse, “não tenho idade pra sair sozinho à noiteâ€.
Ele me revelou que estava muito feliz em poder assistir a um filme numa tela tão gigante, embora ainda não soubesse o nome do filme. “É ação, tio? Porque eu gosto de filme de açãoâ€, argumentou. Não, disse eu. “É filme contando a história de Nova Mamoréâ€. Ele coçou a cabeça como quem não é tão interessado em história, mas preferiu não sair do lugar.
O documentário “Aquele Apito do Trem†começa e Rafael não pisca os olhos. Está atento e vibra ao ver a locomotiva correndo os trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Parece sonhar com a imensidão das imagens e fica emocionado quando o “Zé PiraÃba†dá o seu depoimento. Pergunta: “Por que esse velho tá chorando?â€. Respondo que ele está emocionado.
Após o documentário, ainda foram exibidos mais três filmes: Terra Santa, de Antônio Gato – Pará; O Retorno do Zeca, de Paulo Castelo Branco, Bonfim - Roraima; e Matinta-Perera, de Júnior Rodrigues; Anori – Amazonas.
Ao perceber que a sessão de cinema tinha chegado ao fim, Rafael apenas me olhou e, como quem pedia pra que esse momento nunca chegasse, perguntou mais uma vez: “Terminou mesmo, tio? Amanhã tem mais?" Fiquei sem saber o que responder...
Revelando Emoções
A produtora do Revelando os Brasis, Gabriela Nogueira, comentou sobre a sensação de dever cumprido. “É muito emocionante trabalhar num projeto com essa magnitude que é o Revelando os Brasis, porque dá pra sentir a necessidade do cinema em municÃpios onde as pessoas adorariam assistir a filmes pelo menos uma vez por semanaâ€, conta.
Ela diz que em algumas cidades, onde a cultura do povo era mais reservada, houve transformações consideráveis porque traz à população um estÃmulo de ver o trabalho de alguém da própria cidade ser reconhecido. “E foi principalmente nestas localidades que observamos uma necessidade do cinema, onde existem, sim, pessoas com talentoâ€, finaliza.
Patrocinado pela Petrobras, o Circuito de Exibição começou no dia 24 de maio, no EspÃrito Santo, e vai até o dia 27 de julho, no Estado do Amazonas. As telas e os equipamentos estão sendo transportados em dois caminhões, que, durante as sessões, também são utilizados como cabines de projeção. Até o final da mostra, os caminhões irão percorrer 25 mil quilômetros em todo o PaÃs, chegando a 61 municÃpios (as 40 cidades onde os vÃdeos foram produzidos e 21 capitais).
suas colaborações são muito importantes para todos que lutam pela manutenção ou resgate da identidade do povo brasileiro, parabens! nilsonsotero@hotmail.com
Nilson Sótero · João Pessoa, PB 23/9/2007 13:58Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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