UMA ILHA NO MEIO DA ALDEIA

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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
1/5/2009 · 7 · 0
 

QUEM PASSA POR Là NAS NOITES DE SÃBADO NÃO FICA INDIFERENTE. A PRAÇA PORTUGAL, LOCALIZADA NO CORAÇÃO DA ALDEOTA, UM DOS BAIRROS MAIS NOBRES DA CIDADE, É TOMADA POR UMA REUNIÃO DE TRIBOS VINDAS DOS QUATRO CANTOS DA CIDADE. A ORDEM É SE DIVERTIR, AZARAR, BEBER, TOCAR VIOLÃO, OUVIR MÚSICA, JOGAR RPG, EXPERIMENTAR...


Antes de chegar, ainda de longe, avista-se uma massa heterogênea, com predominância de roupas na cor preta, concentrada no meio da Praça Portugal. São pessoas. Pessoas diversas. Geralmente, chegando na adolescência ou saindo dela. Algo entre os 12 e 22 anos. Moradores do bairro ou mesmo de muito longe. Sábado à noite, o cruzamento das avenidas Dom Luiz com Desembargador Moreira, rodeado de shoppings, lojas comerciais e residências da classe média alta de Fortaleza é espaço para confraternizar, paquerar, conversar, passear, desfilar, beber, tocar violão, gaita, ouvir música, pregar, beijar, conhecer pessoas, fumar, experimentar, jogar RPG, tirar fotografias, rir, brincar, subir em árvores, tirar a roupa, chupar pirulitos, comer salgadinhos...
O espaço público já está legitimado entre eles. "Ah, venho para cá por convenção. Aqui é onde eu encontro meus amigos homossexuais, outros que curtem rock, desenho japonês, RPG. Todo mundo já sabe, não precisa nem marcar", conta Eliene Moreira, 18 anos, moradora da Barra do Ceará. A miscelânea de rostos, gostos e vestimentas é grande. Eliene usava jeans, blusa de malha, tênis All Star e uma grande capa preta sobre a roupa. Traje comum por lá. Mas nada parece regra naquele espaço. A regra é justamente não ter regra. O clima de liberdade é presente na praça. E palavras como moral, vergonha e pudor, de fato, parece se transformarem a cada geração. "Está acontecendo uma coisa interessante. As pessoas estão perdendo o falso pudor. Ninguém faz mais nada escondido, está sob os olhos de todo mundo aqui, nos espaços públicos", acredita Eliene.
No gramado, turmas e turmas retiravam seus destilados das sacolas plásticas de supermercado. Para acompanhar a bebedeira, ruffles, fandangos e doritos. Um menino que terminara de consumir um garrafão de cinco litros de vinho junto com seus amigos, deixa o gramado onde sentado socializava a bebida e joga para cima, feito confete, o recipiente de vidro, fazendo-o cair sobre o chão de concreto. Não satisfeito em sua empreitada, pega novamente o garrafão e joga mais alto, quando finalmente comemora vitorioso o estilhaçamento.
A praça é barulhenta. Adolescentes falam alto, gritam eufóricos e fazem algazarra. Consegue-se identificar alguns mais tranquilos, que apenas trocam carícias ou consomem suas bebidas de forma mais contida, ao som de uma gaita ou um violão. Os velhos cigarros de sabor - canela, menta e baunilha - que há muitos iniciam jovens fumantes é um objeto comum entre a garotada. Os copos de plásticos estão também por toda parte. Sejam cheios ou vazios sujando a praça. Drogas? Em público somente as lícitas.
Uma ação desperta a curiosidade do menino gay que conversava com a amiga sentada no banco. Um garoto que trajava calça preta, cinto metálico e camiseta colada, após tragar a fumaça do cigarro, transfere tocando nos lábios do companheiro a fumaça para a boca do amigo. O menino segura por um tempo, a traga novamente e libera. "Qual a sensação de fazer peruana? É diferente de fumar?", pergunta um menino a amiga ao ver a cena acontecendo entre o casal homossexual masculino. "É... sei lá, é bom", responde.
Do outro lado da praça, a menina que odeia preto trajava um vestido rosa e usava mochila de urso. "Vim toda paty só para chamar atenção", revela às amigas. Não conseguiu ir ao banheiro. "É frescura do shopping agora, não pode mais usar o banheiro", comenta indignada. Enquanto conversavam, um garoto de cabelos compridos, casaco preto amarrado na cintura, sem camisa, tomando cerveja de canudinho passa olhando para o trio feminino. "Ai, você viu? Ele usava All Star. É tudo!", comenta empolgada uma delas.
No banco ao lado, uma menina chega eufórica, gritando: "Eu tô tão feliz porque ela me deu um selinho..." O amigo gay se aproxima e rouba um selinho dela. "Ai, eu tô muito feliz. Você não tem graça, vou começar a cobrar o selinho, heim", direciona o recado em tom de brincadeira para o amigo. No meio da praça, munidos de seus celulares com câmeras fotográficas, dois amigos e duas amigas experimentavam o beijo entre os quatro e registravam tudo. Entre as meninas, o beijo foi acompanhado de muito carinho no pescoço. Já o hétero, tinha a tradicional pegada segura na cintura feminina. Os meninos deixavam as mãos deslizarem pelas costas. Tudo gravado no celular, registrado e assistido logo em seguida.
Simultaneamente, enquanto três pastores protestantes berravam a palavra de Deus no meio da praça, um homossexual recuperado de uma desilusão amorosa, contava tudo a sua amiga: "Pois foi amiga, a mulher dele me ligou e eu contei, contei tudo. Disse: 'Foram quatro anos, sua rapariga! Agora você pode ficar com o bagaço, que a laranja eu já chupei.' Disse, disse tudo, disse o que ele gostava de fazer comigo na cama, disse a ela o ponto fraco dele, disse o lugar que ele gostava que passasse a língua. Ela ficou passada".
E o pastor com a bíblia debaixo do braço, andava de um lado para outro, feito barata tonta, sem focar o olhar em ninguém. A atitude deslocada do homem que não tinha 30 anos foi motivo de zombaria entre a meninada. "A fumaça do cigarro é assassina. Deus pode curar vocês, irmãos. Quem escuta a Pitty aqui? Ela é incentivadora do suicídio. O vocalista do Nirvana é outro fracassado. Irmãos, eu também já estive numa roda de punk", gritava. Seu discurso excitava a garotada.
Até que um menino de, aproximadamente, 20 anos, sereno e calmo chamou um dos pastores para conversar e levar a verdade e a vida para aquele pobre cristão desnorteado. "Meu amigo, você lê a bíblia, não é? Eu também leio e vou te perguntar uma coisa: Você já ouviu falar em livre arbítrio? Parem de gritar aqui no meio da praça. Você tem que gritar para quem quer te ouvir. Pare de dizer que quem escuta rock vai para o inferno. Você acha que Jesus fazia isso? Saia gritando no meio das multidões que nem um louco? Você tem que falar de Deus de outra forma, com sabedoria. Olhe aqui, eu tô conversando contigo e já tem várias pessoas me escutando aqui - inclusive a repórter. As pessoas têm que aceitar a Jesus por livre e espontânea vontade, tem que ser um 'sim' de coração." O pastor tentava falar e o menino arrematava o discurso com um Malboro na mão: "Tenha calma, você está muito nervoso. Escute, meu filho. Eu sou cristão, eu acredito em Deus, mas descordo da forma como vocês estão pregando aqui. Você está me entendendo?"
A conversa seguiu por quase uma hora, enquanto a praça se esvaziava. Alguns deixavam o lugar a pé, outros se dirigiam até as paradas de ônibus. Poucos pegavam táxi. Às 11 horas da noite, sobravam poucas pessoas. Muitos daqueles que dariam continuidade a farra de sábado à noite, desciam a avenida Desembargador Moreira rumando ao Centro Dragão do Mar. E deixavam a praça vazia, com dois ou três catadores procurando latas de alumínio e ignorando a maioria do lixo de plástico que havia espalhado ali.

Momento de paquera

Uma menina, já meio bêbada, chega ao garoto de gel no cabelo e diz: "Tem uma amiga minha que quer te conhecer. É aquela ali", aponta. O garoto lança o olhar para a menina de cabelo vermelho e sorri. Ela se aproxima e pergunta:
- O que foi que minha amiga te disse?
- Ah, que você queria me conhecer.
- Pensei que ela ia te perguntar se você era veado.
- Sou não, só meu amigo - puxa o braço do amigo e apresenta - esse aqui é o Soriano.
- Prazer! - diz a garota, enquanto Soriano já se retirava do lugar deixando os dois a sós.
- Você anda muito lá na (praça da) Gentilândia?
- Às vezes. Aqui é mais perto de casa. Tô andando mais aqui agora. Que cor é esse teu cabelo, heim? - pergunta o menino.
- Vermelho intenso. O povo chega para me perguntar se é de verdade. Eu gosto de ser diferente.
- A maior loucura que eu já fiz foi ter descolorido o cabelo.
- Ai, eu sou fã número um dessas mudanças. Hoje eu tava me arrumando para vir pra cá e coloquei uma gravatinha, mas acabei trocando por esse lenço.
- Tá estiloso, tá legal!
Soriano volta e interrompe:
- Vocês vão virar (a noite) hoje?
- Não sei, tenho que ligar para a minha mãe - responde a garota.
- Tu tá parecendo um emo, igualzinho - diz o menino referindo-se ao visual dela.
- Para, tô não! Meu cabelo está para o lado direito, os emos usam para o lado esquerdo e cobrindo mais a testa - riem juntos e seguem para uma conversa mais reservada no gramado. Quando sai o primeiro beijo, as amigas dela gritam em coro, transparecendo o excesso alcoólico:
- Êêêê! - uma delas de longe:
- O segundo tempo é meu, viu!

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