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Brasil e o Apartheid Miscigenado

O texto que segue surgiu como comentário-resposta à matéria A ditadura do padrão branco ético-estético no apartheid a brasileira publicada por Carlos Henrique Machado Freitas no site Cultura e Mercado.
Carlos Henrique Machado Freitas indica que no contexto brasileiro “... [a]s necessárias reflexões sobre a discriminação e o preconceito hipocritamente se reservaram a uma pauta branca, caótica, escravizada pela freqüente inquietação de ganhos financeiros, dos financiamentos e etc.”, chamando atenção para a necessidade de um debate mais democrático a cerca do “padrãos ético-estético no apartheid à brasileira”.
As reflexões abaixo não visam discordar do argumento acima, buscam apenas salientar os riscos que corremos de acirrar as cismas étinicas, tanto na sociedade quanto em suas representações midiáticas, se ao abordar tais assuntos negligenciarmos as singularidades do processo de formação étnico-social brasileiro e sua marcante estratificação social.
De fato, é preciso discutir a “ditadura do padrão branco ético-estético no apartheid à brasileira”. Mas é preciso também horizontalizar o debate, discutindo essa pauta sob a luz de nossas peculiaridades; as de um povo largamente miscigenado formado por 'minorias' diversas, com suas respectivas éticas e estéticas, embora todas tenham como denominador comum a opressão contínua da classe branca dominante. Desta forma, no Brasil o termo 'apartheid' é caracterizado por uma divisão diferente, uma vez que essa não acontece simplisticamente polarizada entre brancos e negros (ou entre quaisquer outras duas 'raças').
O diferencial brasileiro está na diversidade de nossas minorias que, mesmo sendo variadas ainda formam uma nação coesa. Entretanto, a maioria das representações midiáticas acerca das questões étnicas, aqui como nas sociedades 'desenvolvidas', são escravas, mesmo, dos interesses financeiros de uma minoria branca, como bem disse Carlos Henrique. O sistema vigente produz uma massa sempre crescente de excluídos pertencentes a todas as etnias, como consequência dos desejos incutidos por uma agenda empresarial hegemonizante; o que não é diferente na mídia brasileira.
O fato de que nos países desenvolvidos a classe branca dominante desde sempre tenha evitado o quanto pode a miscigenação é outro diferencial em relação à formação do povo brasileiro. Se valendo de argumentos pretensamente 'científicos' e até mesmo espirituais, dado o interesse expansionista da religião Católica na conversão dos povos 'primitivos', a elite branca europeia fez do racismo a mola mestra da mais valia no plano escravista colonial. Tais argumentos, mesmo que infundados, continuam a embasar preconceitos, discriminações e racismos em nossas sociedades. Sobretudo nas fundadas sobre o mito da pureza.
A massa de brasileiros excluídos pela "ditadura do padrão branco ético-estético" também difere de outros contextos étnicos bi-polarizados. Nela constam, igualmente excluídos por outros fatores midiáticos e sócio-culturais, os mamelucos, os negríndios, os crioulos, etc. Os 'ninguéns' que, no dizer de Darcy Ribeiro, não sendo reconhecidos por nenhuma das suas etnias geradoras 'puras', abriram caminho para novos processos étnicos. O povo brasileiro nasceu da resistência nos sertões - nas capoeiras, nos canhembos, nos quilombos - onde 'o outro', por também ser oprimido, se torna um igual, um companheiro na luta pela liberdade. Somos fruto, também, de um europeu ibérico já marcado pela mistura desde o período migratório dos povos nórdicos, godos, visigodos, mas principalmente, desde o domínio árabe-muçulmano que antecede o ocidental dos reinados Católicos. Este europeu, já inclinado às relações inter-étnicas e sem acesso à mulheres brancas (que raramente se sujeitavam à viagem e terra tão hostis), em contato com o indígena, instituiu o cunhadismo e, mais tarde, em contato com as várias nações africanas no Brasil, produz nossa massa crioula. Quase sempre com interesses de exploração, e sem assumir o filho(a) com um igual, é bem verdade. Mas ainda sim, um postura diferente da assumida na maioria dos outros projetos colonias.
De tal forma, nossas questões exclusão 'racial' e social são peculiares e complexas. Avançam além da dupla conceitual ético-estética. Igualmente, formam também nossa identidade cultural característica. Que precisamos lutar contra uma 'ditadura ideológica branca', não há dúvida. Entretanto, também é preciso lutar contra padrões hegemônicos de exploração que perpetuam a condição de pobreza e miséria de nossas 'minorias' (incluindo nestas os brancos pobres). No Brasil, racismo e classismo precisam ser combatidos conjuntamente e considerando, além de nossa história (passada e presente) de abertura à miscigenação, o direito de auto-determinação daqueles que se entendem estritamente afro-descendentes e/ou indígenas, e a marcante estratificação social.
Caso contrário, ao 'importarmos' padrões não-Brasileiros de combate às questões de igualdade étnica, geralmente delineados para outras realidades sociais e desconsiderando assim nossas peculiaridades e questões étnicas e de classe, mesmo que tenhamos sucesso e consigamos criar oportunidades equânimes, o resultado de tal empreitada, possivelmente, nos levará a um multiculturalismo inerente ao sistema vigente e já fadado ao fracasso por não propiciar as interações necessárias à dissolução das hegemonias previamente estabelecidas e reguladoras de tal perspectiva.
Os 'intelectuais' e tecnocratas brasileiros (brancos, negros ou mestiços), muitas vezes com um complexo de 'subdesenvolvimento' já introjetado, insistem em 'importar' soluções delineadas pelas sociedades ditas 'desenvolvidas'. De fato, tais soluções, dado o estado emergencial em que se encontram nossas minorias, se mostram efetivas, mas apenas até certo ponto. Exemplo disso é o efeito das ações afirmativas na mídia brasileira que, de fato, propicia mais visibilidade ao artista negro. Mas que, devido ao lobby das classes brancas empresariais dominantes, não é suficiente para trazer esse artista aos papeis centrais, indicando assim uma mídia mais harmonizada com nossos padrões sociais. Isso sem mencionar a ausência, na mídia, de representação de padrões estéticos indígenas e dos pardos (crioulos, cafuzos, caiçaras, etc.), que se vêem natural e desinibidamente como brasileiros mestiços.
Ao meu ver um dos enganos que muitas vezes cometemos ao combatermos 'a ditadura branca ético-estética', está na 'importação' de medidas, que mesmo ajustadas, não endereçam propriamente a diversidade de nossas 'minorias' sociais. Ao contrário, precisamos nos ver como um povo singular e, como tal, encorajar a discussão de nossas peculiaridades e o engajamento de nossas 'minorias' em soluções próprias, verdadeiramente democráticas, como bem indica Leonardo Boff no texto do autor.
Como aponta Freitas, este governo tem avançado muito no sentido das questões de igualdade racial e social, ainda que sob a égide do criticismo das classes dominantes. Mas ainda precisamos, a todo custo, vencer a imagem introjetada de um povo 'subdesenvolvido' que precisa 'importar' medidas para problemas internos. Precisamos buscar soluções próprias que, ao invés de culminar na perspectiva multiculturalista do sistema vigente, possa gerar um paradigma mais brasileiro, mais intercultural. Um paradigma, que propicie discutir nossas intricadas relações de classe e etnia sem que o resultado seja o destronamento de uma hegemonia branca brasileira em favor de uma outra já globalizada e sem fronteiras. Como defendia Darcy Ribeiro, “a democracia racial é possível, mas só é praticável conjuntamente com a democracia social”.

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