De Recife até Natal, são cerca de quatro horas de ônibus. Pouco, considerando que leva mais tempo para chegar em outras cidades no interior de Pernambuco (como Arcoverde). Mas ainda é muito para mim, que não tenho muito costume de estrada. Dei sorte de pegar uma viagem junto com Guilherme Moura, amigo que é responsável pelo site RecifeRock (ou talvez império RecifeRock, agora que eles são TV, Rádio, Revista e site). Foram quatro horas de considerações sobre o que encontraríamos este ano em terras potiguares. Nenhuma previsão seria suficiente para os próximos dias.
Não descemos no terminal, mas antes. Um bairro chamado Neopolis – descobri mais tarde que Natal é cheia de bairros com nome de ‘cidade isso’, ‘polis aquilo’ – e fomos recebidos por Anderson Foca. Não sei ainda se isso é um apelido ou o nome dele. Foca é responsável pelo bar Do Sol, onde tem shows quase todos fins de semana com as principais bandas independentes do Brasil. Também faz o festival Do Sol, a Do Sol Image, estúdio e selo. Eles lançam a maioria dos artistas locais de hoje.
Se conversa muito sobre música em Natal. A cidade está borbulhando de idéias e todo mundo quer contribuir para o que vai nasce daí. Seja no terraço da casa de Anderson, seja na piscina do hotel onde fiquei hospedado, o assunto era sempre bandas, mercado e festivais.
Foi meu segundo Mada (e depois escrevo sobre ele em detalhes aqui), o primeiro que realmente gostei. Festivais independentes estão entre as coisas mais legais hoje no país, em tempos de Internet. Tem a felicidade de descobrir bandas que antes eram apenas links, conversar pessoalmente com pessoas que antes eram apenas coleções de arrobas na caixa de email.
O festival tinha sido ótimo (calma, vai vir os detalhes) e parecia que Natal já tinha provado que era o cenário certo para esse tipo de evento no Nordeste. Todo mundo se mistura, sem preconceito melódico. No fim de um dos dias, no hall do hotel, ficamos alguns jornalistas, as bandas Cachorro Grande, Daniel Belleza, Volver e Impar debruçados no piano de cauda, todos cantando beatles. O momento mais legal de todos.
Aproveitei para pedir um dia de folga no jornal, já que tinha trabalhado dois fins de semana, e estiquei um dia na cidade. Foi a melhor coisa que já fiz. Descobri, entre outras coisas engraçadas, que Natal não tinha mais McDonalds. Todas foram fechadas porque o público preferia mesmo uma lanchonete local, a Pits Burger.
Fomos numa praça do campus universitário, um lugar enorme, onde é montado um palco no primeiro domingo de cada mês. Foi a grande surpresa. Tinham mais de mil pessoas lá, conferindo um show de reggae e, na sequência, um de rock. Uma das bandas tinham tocado dois dias atrás no Mada, e ninguém estava nem ai. Na verdade, estavam com mais refrões na ponta da lingua, prontos para participar mais do show. Foi bonito de ver. Era um clima família, com pais e filhos, casais, e um pequeno furacão na frente do palco.
Mais tarde, rumamos para o Fósforo. Algo próximo de um inferninho local, bar de qualidade que é cuidado por uma galera que inclui o Neguedmundo (músico que mistura hip hop com samplers eletrônicos, lá de Natal também). A galera rock diz que lá só rola reggae. Neguedmundo garantiu que passavam todas as tribos. Fiquei com a opinião dele, porque nessa noite rolou um show histórico. O Relespublica, de Curitiba, e os Filhos de Judith, do Rio de Janeiro. Ambos com uma energia e vontade que não apareceram no Mada.
A noite encerrou, para nós, perto das 3h da manhã. Mas o quadro negro do bar, ao lado de uma mesa de sinuca, prometia pelo menos mais quatro shows na noite. E tinha publico lá para isso. Saímos todos, bandas e jornalistas, com um papo de “quero isso na minha cidade”. Não sei se é exagero, mas da mesma maneira que aconteceu com o Recife, em breve o Brasil vai querer virar Natal.
puxa Bruno, muito bom lembrar essas coisa... nos vemos em breve para trocarmos detalhes do festival.
abraço
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